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06/09/2015 20:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Por que Laird Hamilton, um dos melhores surfistas do mundo, se nega a competir

“É muito difícil avaliar o surfe porque o surfe é uma arte.”

Sasha Bronner Editora sênior, Los Angeles.

Em 2000, Laird Hamilton pegou a onda mais perigosa do mundo. Ela tinha a altura de um edifício de sete andares. Ele tinha 36 anos. As pessoas ficaram malucas.

Esse é apenas um exemplo de como Hamilton vem surpreendendo o mundo do surfe há mais de 30 anos, constantemente reinventando maneiras novas de conquistar o oceano.

Ele já salvou vidas no mar em mais de uma ocasião. Manobrou sua prancha entre as colunas do píer de Malibu durante uma tempestade. Ele popularizou o surfe de remada em pé e inventou o tow surfing, que permitiu a atletas surfar sobre ondas enormes no oceano, que antes teriam sido consideradas impossíveis. Ele inventou o foil board, a prancha com hidrofólio, que pode ser o futuro do surfe em ondas grandes.

A Surfer Magazine o chamou de “piloto de testes” do esporte, e o Washington Post o descreveu como o maior atleta do mundo.

Apesar de tudo isso, Hamilton nunca competiu profissionalmente.

“Sou péssimo perdedor”, ele disse ao Huffington Post. “Sou tão competitivo que eu nunca quis competir. Mostre-me alguém que sabe perder bem e eu lhe mostrarei alguém que perde. “

“Se você é capaz de aceitar as perdas, não vai ganhar muito”, acrescentou.

CORTESIA DE LAIRD HAMILTON

O HuffPost encontrou o surfista altamente bronzeado de 51 anos na cozinha de sua casa em Malibu, Califórnia, num dia quente de agosto. Usando apenas bermudas e pondo cúrcuma para ferver em seu fogão, Hamilton é o paradigma do surfista da costa oeste americana. Ele estava mancando devido a uma lesão no quadril, mas agiu como se não fosse nada. Uma caixa grande de gengibre orgânico havaiano estava ao lado de sua centrífuga de legumes, feita de aço inoxidável, e ele nos ofereceu água de coco de um jarro de vidro.

Mas, diz Hamilton, não é apenas a aversão a perder que o mantém longe das competições. Outra razão é o fato de que o surfe não pode ser contido por números, rankings e escores.

“É muito difícil avaliar o surfe, porque o surfe é uma arte”, ele explicou.

A ligação de Hamilton com a água vem desde o berço. Ele nasceu em 1964 num tanque subaquático projetado originalmente para a exploração marítima profunda.

Seu amor pelo surfe começou pouco depois: ele cresceu no Havaí e aprendeu a surfar com seu padrasto, o surfista profissional dos anos 1960 Bill Hamilton. Sua recusa em competir profissionalmente se deve em parte a esse relacionamento.

“Eu via meu padrasto, que foi um dos melhores surfistas de sua época, ser julgado. Via algumas das decisões esdrúxulas feitas nas competições, justas ou injustas, e como isso o deixava arrasado”, ele comentou.

Laird Hamilton ficou famoso numa época em que o surfe livre era tão popular quanto o surfe profissional. Ele fez seu nome por ser um dos surfistas mais destemidos do mundo, que encarava algumas das maiores ondas do planeta. Patrocínios diversos ajudaram a lhe dar dinheiro, e ele pôde passar totalmente ao largo das competições.

JASON MERRITT / GETTY IMAGES.

Em vez de competir por pontos e rankings dados por juízes, Hamilton preferiu trunfos mais sérios.

“Minha competição é a seguinte: você está preso em uma corrente de retorno e sabe que, se não conseguir sair dela, vai morrer. Você luta contra a morte, e é por isso que ainda estou aqui, porque eu sobrevivi”, ele disse.

Mas a razão fundamental por que Hamilton se nega a competir oficialmente no surfe é muito mais filosófica que as decisões de juízes.

“O homem criativo se realiza com suas conquistas, e o homem competitivo se realiza derrotando a outros”, disse Hamilton, parafraseando um ditado antigo. “Para mim, o importante são as conquistas. É surfar a maior onda de todas. Tem a ver comigo. Eu posso continuar a crescer sempre, a realizar coisas novas.”

Essa insistência em competir apenas com ele mesmo é uma espécie de mecanismo de sobrevivência –ou uma filosofia de vida quase espiritual. “Eu queria estar no controle. Queria que fosse eu a determinar se eu me sentiria realizado ou não.”

A sensação de realização que o mar lhe dá é evidente. Hamilton fala do surfe no tom de voz que a maioria das pessoas reserva para seus mentores ou pessoas mais velhas, observando que o mar lhe ensinou a humildade.

“Você tem um senso de propósito e de clareza”, ele disse.

“Olho para mim mesmo e, tirando o fato de ser marido e pai, meu propósito neste planeta é surfar ondas gigantes. Isso me dá uma chance de realização e contentamento. Uma chance.”

Ser pai exerceu um papel importante para Hamilton, ajudando-o a moldar e ampliar suas perspectivas.

Hamilton, Gabrielle Reece e suas duas filhas, em 2008.

KEVIN MAZUR / GETTY

Ele conheceu sua mulher, a campeã mundial de vôlei de praia Gabrielle Reece, em 1995, e eles se casaram dois anos depois. Eles têm duas filhas, de 11 e 7 anos, e Hamilton ainda tem uma filha de seu primeiro casamento, que hoje estuda na UCLA.

Embora suas três filhas sejam ótimas nadadoras, ele disse, nenhuma delas é pressionada a surfar. Na realidade, suas duas filhas menores jogam tênis e praticam hipismo.

“Eu não faço pressão. Não sou esse tipo de pai que quer impor seu esporte às filhas. Se elas querem surfar, podem. Se não querem, para mim, tudo bem”, disse Hamilton.

O surfista explicou que prefere transmitir às suas filhas a liberdade e a coragem que decorrem de a pessoa tomar suas próprias decisões.

Ele já falou no passado que assustar-se uma vez por dia o faz ser uma pessoa melhor.

“Acho que um de meus deveres como pai é fazer minhas filhas ser corajosas”, Hamilton explicou. “Isso não significa ser insensatas. O jeito de lhes ensinar isso é lhes dar liberdade, e acredite em mim, essa é a coisa mais difícil de se fazer. Eu dou a elas a responsabilidade de fazer coisas por conta própria.”

Quando criança, ele próprio era destemido, e sua intensidade era seu maior ponto forte. Consta que ele teria saltado de um penhasco aos 8 anos de idade e que, quando era adolescente, costumava mergulhar de pontes de dez metros de altura.

Os perigos aos quais ele expôs seu corpo nos últimos 35 anos não o deixaram ileso. Hamilton sofreu a primeira lesão séria aos 16 anos, quando teve fratura exposta da perna. “Esse foi o início de meu relacionamento com ossos quebrados e recuperação”, contou.

Aos 51 anos, ele já quebrou o tornozelo esquerdo seis vezes, ficou à deriva no mar, foi atingido por um jet ski, recebeu 125 pontos na cabeça, furou a bochecha, sofreu um corte na garganta e teve “costelas saindo do pulmão”.

Hamilton encara a recuperação como encara os treinos: o segredo está na disciplina. Quando está lesionado, não fica parado. Ele fica na academia, no mar ou na piscina, fazendo o treino radical subaquático que desenvolveu depois de sonhar que estava levantando peso debaixo da água.

Hamilton vem dando treinamento subaquático a amigos e outros atletas em Malibu há oito anos. Nos fins de semana, recebe mais de 20 pessoas na piscina que tem no quintal.

Mas mesmo ele admite que há dias em que as coisas não dão certo. “Às vezes acontecem coisas”, ele disse. “A gente tem que aceitar as coisas ruins, assim como as boas. Depois de algum tempo você fica hábil nesse malabarismo. Você já levou muitas porradas e deu a volta por cima. É mais difícil quando você é mais jovem.”

Perceber que ele pode fazer a mesma coisa todo dia, mas às vezes sofrer uma lesão, é simplesmente parte da vida. “Às vezes as coisas não dependem de você. Tudo passa. Mas sempre passo por todo aquele espectro de emoções, pensando ‘será que vou conseguir fazer de novo?’. Quando me machuco, sinto dúvidas e depressão.”

A relação que Hamilton tem com a dor é um dos fatores importantes em sua recuperação. Ele enxerga a dor como crescimento. “A capacidade que você tem de suportar a dor de uma lesão pode ser aproveitada para ajudá-lo a suportar a dor ao nível do exercício. Sua tolerância da dor pode ajudar você a trabalhar mais forte o lado positivo.”

“Parte da razão por que eu pude fazer algumas das coisas de resistência que já fiz é minha capacidade de tolerar o desconforto.”

Hamilton acredita piamente no valor dos banhos gelados e usa sua banheira ao ar livre várias vezes por dia, pelo tempo mínimo de três minutos cada vez, para treinos e recuperação. Antigamente ele nadava no mar da Bélgica a 4º Celsius de temperatura ou nos lagos gelados do Alasca. Ele explica que mergulhar em água gelada é um método comum de biohacking.

Quando lhe pedimos para explicar o que é o biohacking, ele responde com algo que soa como uma parábola. “Se você quer que uma árvore dê flores, o que faz? Você a poda. Quando você poda a árvore, está dando um choque nela. Quando você impõe um estresse ao sistema, isso o obriga a sobreviver.”

A impressão é que o otimismo é uma substância química que corre nas veias de Hamilton – ou então, quem sabe, a realidade é que ele já sobreviveu a tantas lesões que lhe restou uma fé inabalável em seu próprio corpo.

Do ponto de vista dele, sempre há algo de positivo a ser tirado de uma lesão. “Ou a lesão me fez ir mais devagar, de modo que não me machuquei para valer, ou me fez aprender algo novo. Foi ali que entrou o paddle boarding (surf com remada). Quando quebrei as pernas, eu mal conseguia andar. Mas ainda era capaz de remar.”

Aos 51 anos, embora diga que pode precisar de uma prótese de quadril e diz não temer a cirurgia, Hamilton não dá sinais de querer abandonar as ondas. Desafiar seus limites ainda faz parte de sua vida.

Seu esforço mais recente é a conquista do foil board. Um hidrofólio preso à parte inferior da prancha permite que a prancha paire sobre a água. O foil board – e a habilidade de Laird Hamilton nela – será o tema de um novo documentário que ele prevê que será lançado em dois anos.

Como em 2000, parece que não existe onda que seja grande demais para Hamilton. E agora, com a tecnologia do foil board, ele vai conseguir alcançar a velocidade e a potência necessárias para pegar ondas nunca antes surfadas.

Laird Hamilton converteu o paddle boarding em um negócio e recentemente lançou a LairdSuperfood, com destaque para seu café favorito.

Ele também fundou a AquaThings, com o CEO Faramarz Farhoodi, e é o presidente da seção de surf, aproveitando seus conhecimentos para ajudar consumidores a adquirir os equipamentos corretos de surf. No momento ele e Farhoodi buscam investidores para o projeto no Crowdfunder.

Laird Hamilton converteu o paddle boarding em um negócio e recentemente lançou a LairdSuperfood, com destaque para seu café favorito. Ele também fundou a AquaThings, com o CEO Faramarz Farhoodi, e é o presidente da seção de surf, aproveitando seus conhecimentos para ajudar consumidores a adquirir os equipamentos corretos de surf. No momento ele e Farhoodi buscam investidores para o projeto no Crowdfunder.

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