COMPORTAMENTO
03/09/2015 21:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

Sou um homem gordo. E passei a vida inteira com vergonha do meu corpo

Era o verão de 1999. Fui ao shopping com meu amigo Derek, e encontramos um amigo dele numa loja. Enquanto olhava as prateleiras, entreouvi a conversa dos dois. O amigo perguntou: “É sua irmã?”

Ele estava falando de mim.

Eu tinha 11 anos. Meu cabelo era comprido, porque na época eu adorava luta livre, e eu estava usando a camisa de um time de basquete, meu esporte preferido. Ele pode ter se confundido por causa do meu cabelo, mas acho que na verdade foi a camisa. Ela destacava meu peito – e o que o amigo de Derek achava que eram pequenos peitos de menina.

Foi quando me dei conta de que era gordo. Desde então, não houve um único dia em que me sentisse confiante ou à vontade no meu corpo.

Minha vida tem sido uma montanha-russa de perder peso, depois engordar de novo, para então perceber que eu estava melhor antes. Quando olho para trás e me dou conta de que estava magro, já é tarde demais. Passei a maior parte da minha vida achando que conseguiria entrar em forma. Só faltava achar a fórmula. Ao mesmo tempo, me sentia resignado. Nunca esperei que fosse gostar da minha imagem refletida no espelho. Só agora, aos 27 anos, percebi que tenho problemas de imagem corporal.

Voltando para casa do shopping aquele dia, disse para minha mãe que queria cortar o cabelo. Era o que eu podia fazer para melhorar minha aparência. Mas ainda me sentia gordo. Tinha vergonha de entrar na piscina sem camiseta. Sabia que tipo de roupa escondia minha barriga.

Parte da luta com minha imagem corporal é achar que nunca vou atingir o objetivo de emagrecer. É um ciclo: não estou bem o suficiente porque estou fora de forma, o que me faz perder a confiança e a motivação para me exercitar, mas a academia não me ajuda a me sentir mais magro.

Sam Smith explicou de forma pungente por que ser chamado de “gordo” machuca mais que qualquer ofensa homofóbica: “Acho que porque aceitei que, se me chamam de viado, tipo, é porque sou gay e tenho orgulho disso, então não tem problema. Mas, se alguém te chama de gordo, quero mudar.”

Um dos meus problemas é que não admito que engordei.

Aos 14 anos, não me sentia magro, e ainda assim estava super em forma, jogando hóquei regularmente. Só no último ano do ensino médio, depois de comer muito fast food, realmente pude enxergar. Lembro de olhara para uma foto minha com 14 anos e pensar: “Eu estava magro”. Um professor respondeu: “Não, você está bem agora. Na foto você está magro”.

No primeiro ano da faculdade, emagreci quase 20 quilos. Contei calorias, tentando me limitar a 1 500 por dia. Na época, percebi que estava perdendo peso, mas quando me via no espelho não enxergava uma pessoa magra. Ainda usava roupas largas para esconder minhas curvas.

É um fenômeno conhecido: concentrar-se demais em uma parte do corpo pode torná-la maior na nossa cabeça, diz Aaron Blashill, professor de psicologia da Universidade Harvard.

David LaPorte, professor de psicologia da Universidade Indiana, na Pensilvânia, lembra de um estudante do doutorado que pesquisava as percepções de frequentadores de academia. Ele descobriu que 20% dos homens considerados em forma se sentiam pouco à vontade se tirassem a camisa. “E as coisas não melhoraram desde então”, diz LaPorte.

O que torna as coisas mais interessantes é que o estudo foi feito com caras confiantes o suficiente para ir à academia, continua ele, muitos dos quais usavam roupas apertadas para mostrar que estavam malhando. Respondi com uma lembrança dos atletas da faculdade, que iam para a sala de aula de moletom. Eu caprichava na roupa para compensar meu físico.

Cerca de metade dos homens não gosta de ser fotografado ou de ser visto usando roupa de banho, segundo uma pesquisa NBC Today Show/AOL Body Image Survey do ano passado. Uma pesquisa da Universidade de West England descobriu que a maioria dos caras acham que partes de seus corpos não são musculosos o suficiente, e mais homens que mulheres estariam dispostos a sacrificar um ano de suas vidas em troca de um corpo perfeito.

Às vezes reclamo do meu peso para amigos próximos, mas eles dizem que não veem o problema. Alguns acham que tenho um físico atlético. Outros, que sou magro. Não acredito, e mostro as pelancas como prova. Vejo minhas camisas apertadas. Não enxergo um atleta. Não enxergo uma pessoa magra.

estudo

Três anos atrás, no meu primeiro ano em Nova York, uma amiga me convidou para ir à praia. Disse que sim, mas rezei para chover – seria a desculpa perfeita para furar. Não choveu, mas disse que tinha “problemas de agenda”. Sacrifiquei um dia lindo na praia com meus amigos porque não queria ficar sem camiseta na frente deles.

“Fugir de certas situações pode evitar emoções negativas ou difíceis no curto prazo, mas, no longo prazo, isso só reforça esses sentimentos e nos impede de tomar atitudes a respeito do problema”, diz Blashill.

Um dos motivos pelos quais evito essas situações é o medo de estar perto de homens mais atraentes. Isso faz sentido porque, segundo Blashill, “pessoas preocupadas com a imagem corporal tendem a se comparar com os outros”, em geral com quem está “acima”.

Quando mencionei este medo para Edward Abramson, psicólogo e autor de Emotional Eating (alimentação emocional, em tradução livre), ele me perguntou: você tem medo de que?

É ridículo achar que meus amigos vão me ver sem camisa e sentir repulsa, como tivessem descoberto uma suástica tatuada no meu peito. Então, qual é o medo? Percebi que tinha medo do que eles pudessem estar pensando. Imaginar que as pessoas iam me classificar mentalmente como gordo estava me enlouquecendo.

“O tema é a ansiedade social”, diz Abramson. “Que as outras pessoas vão olhar pra mim de um certo jeito. Incentivo todos a olhar em volta. As pessoas aceitam muito mais as imperfeições alheias do que as suas próprias.”

Tive dificuldade para chegar até aqui – admitir abertamente que me sinto pouco à vontade com meu corpo. Nunca achei que tivesse problemas, pois não sou bulímico nem anoréxico, e tampouco estava fazendo algo extremo. No fim das contas, querer passar 45 minutos na academia quatro vezes por semana é tão ruim assim? LaPorte disse que provavelmente não, a menos que eu esteja abrindo mão de interações sociais em nome da malhação.

Um colega que considero estar em excelente forma disse que sente algo parecido. Ele se exercita seis vezes por semana para manter o corpo em dia. “Mas, quando tiro a camisa, acho que todo mundo está olhando para mim e não está gostando nem um pouco do que está vendo.” Ele diz que, apesar de contar com o apoio dos amigos quando fala dessa insegurança, a sensação geral é de: “Mano, você está bem demais”.

Muitos caras que entrevistei no escritório fazem ressalvas parecidas, até mesmo aqueles que sempre achei mais atraentes que eu. Altura é outro problema de imagem muito mencionado – e algo que não se pode mudar. Muitos disseram que as conversas com amigos geralmente são assim:

“Mano, estou me sentindo gordo.”

“Cara, você não está gordo.”

“Mas me sinto gordo.”

“Sinceramente, não sei o que te dizer, não vejo o problema.”

A masculinidade contemporânea não permite que um homem admita que seu físico não é ideal. Mas, se os homens pudessem ser mais abertos em relação a suas inseguranças, sem medo de quebras as regras não-ditas da masculinidade, aceitaríamos melhor as falhas dos nossos corpos. E talvez fosse mais fácil seguir a recomendação de Blashill: “reconhecer que há muitas maneiras de ser saudável”.

today show

Passei os últimos meses pensando muito a respeito disso e refletindo sobre minhas inseguranças. Conversando com amigos, psicólogos e colegas homens do escritório, fiz algo que vinha evitando havia anos: fui à praia.

Meu primeiro dia na praia foi com amigos próximos. Em um lance digno de uma comédia romântica moderna, eles acabaram convidando uma pessoa com quem eu vinha trocando mensagens no OkCupid e que por acaso era conhecia meus amigos. Passei o dia sem camisa, na frente de amigos, estranhos e um “match” de um site de relacionamento. Ninguém me insultou; ainda tenho amigos; ainda consigo marcar encontros; e achei dez dólares no chão. Em outras palavras, o mundo não acabou.

Abramson estava certo: olhei para as outras pessoas, notei as imperfeições alheias e reconheci que minha opinião não iria mudá-las. Talvez minhas encanações de que tenho peitos ou pneus sejam só isso: encanações. Não estou curado, mas estou progredindo.

Aos 27 anos, consigo admitir que não gosto do meu corpo. Mas não deveria ter demorando tanto para chegar até este ponto. Passei muito tempo achando que tinha um segredo, que estava escondendo meu problema de peso, incapaz de falar sobre ele por causa das regras da masculinidade.

Homens falando das questões sobre o corpo não deveria ser uma coisa fora do normal. Admitir que nossos corpos não são perfeitos não deveria ser um problema tão grande.

Mulheres têm expectativas mais irreais com relação ao próprio corpo, mas nós homens também nos sentimos pressionados a parecer mais atraentes. E estamos atrasados em relação a esse assunto quando comparados com as mulheres. Para isso mudar, basta se abrir com seus amigos. Como disse um colega: “Quando um amigo começa a falar, abre-se o caminho para os outros façam o mesmo”.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.