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03/09/2015 16:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Por que a Alemanha vai passar por mudanças radicais este ano

Anadolu Agency via Getty Images
BERLIN, GERMANY - SEPTEMBER 03: Hundreds of Syrian and Afghan migrants wait to register in front of the State Office for Health and Social Affairs (LaGeSo) in Berlin, Germany on September 03, 2015. (Photo by Mehmet Kaman/Anadolu Agency/Getty Images)

Não faz muito tempo, o mundo olhava para nosso país com admiração. Durante a Copa do Mundo de 2006, a Alemanha parecia uma residência universitária animada – um lugar que acolhe desconhecidos, um lugar onde todos podem fazer a festa.

Nos anos seguintes, a Alemanha chegou a tornar-se um exemplo a seguir. Enquanto nossos vizinhos europeus mergulhavam em recessão, empregos eram criados aqui. Jovens de todo o mundo vinham para cá, porque o futuro aqui parecia mais colorido.

Então aconteceu o verão de 2015.

De repente, coquetéis Molotov eram atirados contra abrigos para candidatos a asilo. Nos seis primeiros meses do ano ocorreram cerca de 200 ataques contra albergues de refugiados.

Apenas em julho e agosto a Polícia Criminal Federal relatou 131 ataques semelhantes de extremistas de direita. Além disso, estão aumentando os casos de ataques verbais e físicos contra estrangeiros no metrô, e, em um caso especialmente asqueroso relatado, nazistas urinaram publicamente sobre as crianças de uma família de refugiados.

Centenas de nazistas fizeram protestos diante de abrigos para refugiados em Heidenau, na Saxônia, chegando a gritar com Angela Merkel quando a chanceler visitou um dos abrigos, xingando-a de “traidora de seu povo”, um termo especialmente vil de propaganda nazista.

É chocante que algo assim possa acontecer na Alemanha. Porque isso não tem nada a ver com a nação que muitos de nós vivenciamos diariamente. Isso não condiz com o ambiente cosmopolita das cidades maiores, como Hamburgo, Berlim, Colônia e Munique.

Esse ódio aberto e cada vez mais declarado aos estrangeiros é um fenômeno sobretudo das cidades pequenas – lugares com alto índice de desemprego, oportunidades limitadas e um cenário de direita perigoso, em que os agressores são protegidos por outros. Um dos suspeitos em um ataque recente, em que um abrigo para refugiados foi incendiado, é bombeiro. Um pouco mais tarde, ele mesmo ajudou a apagar as chamas.

Há anos a mídia e os políticos subestimam a força que conquistou o movimento de direita em algumas partes da Alemanha.

Eles passaram por cima do fato de que cidades pequenas nos Estados que faziam parte da Alemanha oriental são “culturalmente controladas quase inteiramente por extremistas de direita”: com murais ao estilo do período nazista, referências ao local de nascimento de Hitler e um clima de medo exacerbado pelos extremistas de direita. Nessas cidades, a cultura da direita domina tudo, desde a escola de ensino médio até a marcenaria.

Mas também ocorrem ataques contra abrigos de candidatos a asilo no sul e leste do país. Portanto, a radicalização de partes da sociedade alemã não é um fenômeno exclusivamente alemão oriental. O Escritório Federal para a Proteção da Constituição entende isso como uma ameaça, uma nova forma de terrorismo de direita.

Às vezes, tudo o que quero é despertar deste pesadelo. Será que este é realmente o país onde quero criar meu filho? É um país que eu não conhecia até agora. Minha mulher é britânica de origem indiana. Ela veio para cá e foi acolhida calorosamente por todos, como aconteceu com milhares de outros imigrantes. Em nossa vida, essa outra Alemanha, a Alemanha feia, não existia antes.

Agora um grupinho insatisfeito jogou de escanteio um acordo cultural amplo: a aceitação do fato de que, por ser um dos países mais ricos do mundo, a Alemanha tem a obrigação moral de ajudar pessoas necessitadas.

Isto é algo do qual precisamos falar. Quarenta por cento dos refugiados que vêm para a Europa vêm para a Alemanha. Segundo estimativas recentes do governo, serão 800 mil pessoas este ano. Isso é igual ao número de pessoas que vivem em Frankfurt. Muitos alemães estão com medo disso.

Muitos destes “cidadãos preocupados”, como eles gostam de se chamar, não estão preocupados com os refugiados. Estão preocupados com eles próprios. Eles têm medo do declínio econômico, medo da pobreza na velhice. Têm medo de que alguma coisa lhes será tirada.

E agora encontraram a razão desse medo: refugiados que vêm para a Europa para lhes arrancar os últimos euros e benefícios.

Os pregadores do ódio e os partidos da extrema-direita, que até agora geralmente voavam por baixo dos radares, fazem uso desse medo. Eles encontraram seu público. Utilizam a Internet para atiçar as massas assustadas. Disseminam artigos falsos sobre refugiados, que supostamente molestam garotas escolares alemãs e depois exploram nosso sistema social. De acordo com estes disseminadores do ódio, os políticos e a imprensa mentem; logo, eles, os disseminadores, constroem sua própria realidade. Seguindo sua lógica doentia, existe uma “vontade do povo” que justifica a violência contra cidadãos estrangeiros. Assim, não apenas estamos vivendo uma das piores ondas de terror de direita desde a Segunda Guerra Mundial, como também um aumento da propaganda xenofóbica cruenta.

Para que fique muito claro: esse pessoal é uma minoria. Não existe na Alemanha nenhum partido anti-imigrante forte, como há na Dinamarca ou na Suécia. Mas isso pode mudar se a minoria perigosa e vocal se fortalecer, diante da ausência de oposição.

A maioria dos alemães vem há muito tempo assistindo a tudo e mal conseguindo acreditar no que vê. Como a chanceler Angela Merkel, que há muito tempo demais vem guardando silêncio sobre esses ataques contra candidatos a asilo, muitos esperavam que a raiva passasse, como se fosse um temporal forte. Pelo contrário. O silêncio da maioria atuou como agente combustível.

De repente, a minoria ficou se sentindo como maioria. No início, poucas pessoas ergueram as vozes para falar nesta discussão acalorada. O Huffington Post Alemanha foi um dos primeiros órgãos de mídia a tomar uma posição clara: em uma reportagem grande, 200 políticos, atores, professores universitários, estudantes e aposentados declararam:

“Sejam bem-vindos, caros refugiados. Estamos felizes por vocês estarem aqui.”

Quem ousar tomar o partido dos refugiados ficará conhecendo bem o lado brutal deste país. Fomos fustigados com e-mails, mensagens de Facebook e telefonemas. As mensagens falavam em “ralé suja”, “câmaras de gás” para resolver o problema dos refugiados, dizendo que os refugiados só levarão “violência e doenças” ao país.

Mas agora, finalmente, o movimento contrário está tomando forma.

Estudantes, atores, gerentes, blogueiros e políticos estão recolhendo doações de roupas, envolvendo-se no trabalho de encontrar alimentos e remédios para os refugiados e usando as mídias sociais para fazer oposição à estupidez nazista, com mensagens contundentes.

Eles enxergam a situação como aquilo que ela é: um desafio extremo para todos nós.

Mesmo os tabloides desfazem mitos sobre refugiados. Dois anos apenas atrás eles envenenaram o ambiente, divulgando “verdades” questionáveis sobre imigrantes.

Mas isso só pode ser o começo. A seguir, teremos pela frente um enorme desafio de integração desses refugiados. Angela Merkel já se deu conta disso. Na coletiva de imprensa da segunda-feira, ela comparou o trabalho de integração dos próximos anos com o esforço investido na “reconstrução da Alemanha oriental”, após a reunificação da Alemanha.

Nos próximos meses e anos teremos que reintegrar duas minorias ao mesmo tempo: por um lado, há os refugiados que estão conosco no longo prazo, e, por outro, os “cidadãos preocupados”, representantes da cultura do medo.

É provável que o segundo grupo seja aquele que crie mais dificuldades.

É um desafio histórico. O modo como lidaremos com ele vai decidir o rumo que este país vai seguir. Tudo se resume à seguinte pergunta: a Alemanha quer continuar a ser o país alegre da Copa do Mundo, aquele em que muitos de nós gostaríamos de viver?

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Alemanha e traduzido do alemão.

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