ENTRETENIMENTO
31/08/2015 15:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

Os 25 anos de 'Os Bons Companheiros', o filme que mudou o cinema gângster para sempre

Los Angeles, verão de 1990. Não há um único assento vazio para a pré-estreia do primeiro filme sobre gângsteres de Martin Scorsese desde Caminhos Perigosos, lançado 17 anos antes. Na sala lotada estavam o badalado produtor Irwin Winkler, de Rocky e Touro Indomável, a produtora executiva Barbara De Fina e o presidente do conselho da Warner Bros., Robert A. Daly. Os projetores entram em ação. Baixam-se as luzes. Um coquetel molotov está prestes a ser jogado em uma plateia insuspeita. E o fogo ardeu já na primeira frase: “Desde que me conheço por gente, eu sempre quis ser um gângster”. “As pessoas começaram a correr para fora do cinema como se houvesse um incêndio”, lembra Winkler. “Contamos 38 pessoas só na cena em que o personagem de Joe Pesci, Tommy DeVito, esfaqueia o corpo de Billy Batts no porta-malas do carro. Não é que a exibição tenha sido ruim. Ela foi desas­tro­sa.” Conforme o festival de humor negro, caos, golpes de faca, tiros, raiva, socos e escândalos regados a cocaína foram se desenhando na tela, outras 32 pessoas deixaram o cinema.

Nas entrevistas da época, Scorsese descrevia Os Bons Companheiros como um “filme caseiro sobre a máfia”. E se comparado a O Poderoso Chefão: Parte III, de Francis Ford Coppola, lançado no mesmo ano, o filme parecia mesmo atrás. Não tinha o apelo nem levava no título o nome de Mario Puzo. Com a exceção de Robert De Niro, também não contava com um elenco de nomes grandiosos – O Poderoso Chefão tinha Al Pacino, Andy Garcia e Diane Keaton. Vinte e cinco anos depois daquela noite, Os Bons Companheiros reina como o capo di tutti capi, reconhecido por críticos e pelo público como indiscutivelmente um dos maiores filmes de gângsteres – se não o maior – da história do cinema. “Todos os dias desconhecidos me lançam algumas das falas do filme”, conta Ray Liotta, intérprete do personagem principal Henry Hill.

A saga de Os Bons Companheiroscomeçou em 27 de abril de 1980, quando o gângster Henry Hill foi preso acusado de envolvimento com o tráfico de narcóticos. Mas, em vez de passar tempo na cadeia, ele entregou seus bons companheiros e entrou para o programa de proteção à testemunha. Hill tinha uma história a contar e Nicholas Pileggi, um repórter veterano, sabia como contá-la. Seis anos depois, em 1986, foi publicado Wise Guy, um relato impressionante da ascensão e queda de um homem da máfia. A obra conquistou excelentes críticas e rapidamente virou best-seller, chamando a atenção de Hollywood. “Um dia recebi duas mensagens dizendo que Marty Scorsese havia me telefonado”, conta Pileggi. “Pensei que fosse algum amigo me sacanenando.” Wise Guy documentava um mundo que Scorsese conhecia bem. Afinal, ele havia crescido em um apartamento no bairro de Little Italy, na Manhattan dos anos 1950, em Nova York. “As coisas talvez tivessem acontecido de forma diferente na vida de Marty se ele fosse um garoto mais forte”, comenta Michael Ballhaus, diretor de fotografia de Os Bons Companheiros.

E assim o processo se iniciou. “Quando Marty e eu começamos a trabalhar no roteiro, passamos a decompor a obra. Eu ficava na máquina de escrever e ele atuava”, conta Pileggi. “Tínhamos ouvido aqueles personagens durante toda a nossa vida, então os diálogos surgiam naturalmente.” Quando a versão final surgiu, era um dos roteiros mais animadores de 1986, e naturalmente os novatos de Hollywood acharam o papel de Henry Hill irresistível. Tom Cruise, Sean Penn, Aidan Quinn e Alec Baldwin foram apontados como possíveis escolhas. E então surgiu Ray Liotta, que havia feito o papel do ex-namorado de Melanie Griffith no sucesso Totalmente Selvagem. “Achei Ray incrível naquele filme e tive a sensação de que ele entenderia o mundo que eu tentava retratar”, afirma Martin Scorsese.

Liotta revela um momento importante na sua escolha para o papel. Em setembro de 1988, ele e Scorsese estavam em Veneza para o Festival Internacional de Cinema em meio à polêmica de A Última Tentação de Cristo, lançado aquele ano. Grupos religiosos ameaçavam boicotes e levantes e, em outubro de 1988, fundamentalistas cristãos bombardearam no cinema Saint Michel, em Paris, durante uma exibição. “Nós nos encontramos em um hotel em Veneza. Ele estava cercado de seguranças. Desci até o lobby, encontrei uma pequena abertura na multidão e estendi a mão na direção dele. O guarda-costas me empurrou, e eu disse: ‘Só quero falar ‘oi’ para ele’. Pelo que entendi, quando Marty percebeu minha reação tímida ao guarda-costas – eu não gritei ‘tire suas mãos de mim’, não sou assim –, ele achou que eu funcionaria no papel de Henry Hill. Henry não era agressivo. Ele observava, esperava e deixava todos fazerem seus trabalhos.”

Com Ray Liotta como Henry, o elenco começou a se formar. Para o papel de Karen Hill, a esposa explosiva e mimada, Scorsese escolheu a dedo entre as concorrentes, que incluíam Melanie Griffith, Ellen Barkin e até mesmo Madonna. No fim, ficou com Lorraine Bracco, ex-modelo que havia deixado sua marca no thriller Perigo na Noite. Para o papel do agitado Tommy DeVito, baseado em Tommy DeSimone, da família Lecchese, Scorsese chamou Joe Pesci, que havia sido indicado ao Oscar como melhor ator coadjuvante por Touro Indomável. Frank Vincent foi selecionado para fazer Billy Batts, embora inicialmente tivesse se candidatado a outro papel. O papel de Paul Cicero ficou com Paul Sorvino. “Eu queria tanto trabalhar com Marty que fui vestido de gângster”, conta o ator. “Quando leio um roteiro, sei como atuar quando chego à décima página. Nesse caso, eu não sabia o que fazer. O papel exigia uma letalidade que eu jamais havia expressado. Certa noite, olhei no espelho para ajustar a gravata e fiquei tão assustado com meu rosto que cheguei a dar um pulo.”

Scorsese terminou a seleção de elenco com os promissores Illeana Douglas, Debi Mazar, Samuel L. Jackson e Michael Imperioli ao lado de nomes como Vincent Pastore, Tony Sirico, Chuck Low, Tony Lip e Frank Adonis. Não era um elenco estrelado. Por isso, não é de se surpreender que o estúdio tenha se recusado a autorizar o filme até os cineastas conseguirem um astro renomado para o papel de Jimmy Conway. Mentor de Hill no filme, o personagem era inspirado em James Burke, que na vida real era íntimo da família Lucchese e arquitetou o roubo das joias em 1978 no aeroporto JFK e posteriormente o assassinato de seus parceiros nesse crime. Al Pacino foi o primeiro convidado, mas o astro de O Poderoso Chefão temeu ficar marcado. John Malkovich e Jon Voight também teriam recusado o papel. Por fim, o escolhido foi Robert De Niro, que já tinha trabalhado com Scorsese em Taxi Driver e Touro Indomável, e já era o nome de peso de que o estúdio precisava. “Marty e eu temos uma forma especial de nos comunicarmos. Com ele é assim: quanto mais você cria, mais entusiasmado ele fica. Isso torna a experiência agradável, não um trabalho.”

Essa dinâmica ficou clara para os atores no primeiro dia de filmagem. Scorsese usou seu roteiro com Pileggi como uma plataforma. “Eu, De Niro e Ray passamos uma cena. Quando terminamos, Marty comentou: ‘Muito bem’. E eu pensei: ‘Esse é o grande Martin Scorsese?’”, conta Sorvino. “Mas depois de 40 minutos a cena tinha crescido lindamente. Percebi que era melhor eu calar a boca.”

Foi assim que Joe Pesci contribuiu com o que muitos consideram o momento mais memorável do filme: a fala enlouquecida que começa com “você me acha engraçado?” filmada no restaurante Hawaii Kai, na Broadway. “Estávamos sentados conversando, com Marty ouvindo cada palavra, quando Joe contou uma história de alguém que lhe disse: ‘Você é um cara engraçado’”, lembra Liotta. “Marty falou: ‘Ótimo. Inclua isso’.” Manter o equilíbrio de fortes risadas pontuadas por violência inquietante e o linguajar autêntico das ruas exigiria depois que os produtores tivessem de trabalhar contra a pressão do estúdio e dos censores. “Contamos os ‘fucks’. Foram 285 no total. Uma em cada duas palavras de Joe Pesci era ‘fuck’.”

Outra marca de Scorsese que impressionou os marinheiros de primeira viagem foi a obsessão do diretor pelos detalhes. “Marty dava o nó em minha gravata todos os dias, porque o nó tinha que ser dado de uma forma específica”, conta Liotta. Quando o personagem de De Niro precisou de relógios, um vendedor de antiguidades da Madison Avenue fechou a loja para recebê-lo. Para simular a cor exata dos olhos de Liotta, Christopher Serrone, que interpretou Hill quando jovem, usou lentes de contato italianas pintadas à mão. “Marty quer que seus atores sintam que estão em uma situação real, na qual tudo é autêntico”, conta Pileggi. “Quando você vê alguém comendo na tela, provavelmente é algo que a mãe e o pai dele prepararam.”

Mas os membros do elenco de Scorsese nem sempre eram tão entrosados quanto parecia no filme. Embora o “Jovem Henry” Serrone se lembre de ter sido “colocado sob as asas de todos”, em especial de De Niro, Liotta às vezes se sentia excluído. “A relação entre De Niro e eu era inexistente”, conta. “Eu via De Niro e Pesci como meus irmãos, então era duro quando, depois do ensaio, perguntava: ‘Quer sair para comer algo?’ E ele dizia: ‘Não’.” Liotta enfrentou outros desafios durante essa época. “Minha mãe estava com câncer, e eu estava no trabalho quando me telefonaram para contar que ela havia morrido. Fiquei emocionado. Marty veio ao meu trailer e me acalmou.”

Os colaboradores de Os Bons Companheiros também contam histórias desgastantes de jornadas de 18 horas filmando, às vezes em até três localidades diferentes num mesmo dia. Um dos pontos mais intrincados da obra foi gravado no lendário clube noturno Copacabana, em Manhattan. A cena, um encontro romântico entre Henry e Karen, ostenta um travelling de três minutos. “A ideia era que o público acompanhasse Henry em seu mundo para entender por que Karen ficou tão encantada por esse cara”, explica Ballhaus. “Para garantir o movimento, tivemos que mudar a entrada do clube, então, o que você vê no filme não é verdadeiro. Literalmente arrancamos as paredes enquanto a câmera se movimentava.” Mas talvez o mais bizarro fossem os membros da máfia que perambulavam pelo set. “Quando estávamos prestes a filmar alguma coisa, Marty trazia alguns caras e perguntava: ‘É assim que se faz?’”, conta Ballhaus. “Eles sempre diziam: ‘Não, é muito pior’. Ouvi conversas que divagavam se havia matéria cerebral e sangue suficientes. ‘Devemos acrescentar um pouco mais de cérebro à cena?’ Aquilo era demais para mim. Eu ia para casa e vomitava.”

Scorsese e companhia encerraram a produção em dezembro de 1989. Armados com um filme completo, a equipe de filmagem enfrentou aquela pré-estreia e viu o filme ser lançado em apenas 1 070 salas, e não as 2000 previstas. “Os outros cinemas ficaram com Dança com Lobos”, conta Pileggi.

Mesmo assim, o lançamento de Os Bons Companheiros no Museu de Arte Moderna de Nova York atraiu celebridades como Madonna, Christopher Reeve, Chevy Chase e Brooke Shields. Henry Hill também esteve presente. A resposta do público foi otimista, e os críticos fizeram suas resenhas. No Chicago Sun-Times, Roger Ebert, um dos maiores críticos norte-americanos, declarou se tratar de um filme sobre crime organizado melhor do que O Poderoso Chefão. O reconhecimento, no entanto, não veio no circuito de prêmios. Scorsese recebeu o Leão de Prata por melhor direção no Festival Internacional de Cinema de Veneza, mas perdeu o Oscar de melhor diretor para Kevin Costner. Só Joe Pesci ganhou, como melhor ator coadjuvante.

“Se Marty tivesse feito Os Bons Companheiros em 2015, teria vencido o Oscar”, afirma Pileggi. “Daqui a alguns anos, quando Wall Street começar a desmoronar e muitas das convicções que temos sobre a bolsa de valores forem deixadas de lado, O Lobo de Wall Street será mais bem aceito. O personagem de Leonardo DiCaprioé Henry Hill com uma caneta.”

Pileggi, Scorsese, De Niro e Pesci trabalharam juntos de novo no policial Cassino, em 1995, mas, 25 anos depois, Os Bons Companheiros continua sendo o padrão-ouro para todos os filmes e séries de TV sobre gângsteres que vieram depois. Muitos críticos acreditam que o filme é o melhor de Scorsese até hoje, e Pileggi atualmente está criando o roteiro do que espera ser o terceiro filme junto com o diretor. E quanto a Henry Hill? Liotta encontrou-se com ele várias vezes ao longo dos anos. “Um dia recebi um telefonema para me encontrar com ele e com seu irmão em uma pista de boliche em Studio City, na Califórnia”, conta. “Henry disse: ‘Eu vi o filme. Obrigado por não me fazer parecer desprezível’. Tive vontade de falar: ‘Você denunciou seus amigos, porra! É claro que é desprezível.’” No fim, Hill provavelmente não deve ter gostado das circunstâncias nada espetaculares de sua morte, em 12 de junho de 2010, um dia após seu aniversário de 69 anos. Depois de tudo o que passou, morreu em um hospital. O coração não aguentou o tabagismo e a comida italiana. Não foi jeito de um bom companheiro morrer.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: