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23/08/2015 10:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:24 -02

Se houver fatos contra Dilma, a UNE volta às ruas, diz líder

Rita Azevedo / Reprodução

Desde junho, a paulista Carina Vitral, de 26 anos, passou a dividir sua rotina entre aulas de Economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o acompanhamento de votações no plenário da Câmara dos Deputados e reuniões com o governo.

Corinthiana roxa (com direito a uma tatuagem discreta com o nome do time no antebraço) e fã de bandas latino americanas, Carina preside a União Nacional dos Estudantes (UNE), um dos movimentos sociais que fizeram coro, na última quinta-feira, contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A ideia, segundo Carina, era fazer um contraponto às passeatas realizadas no dia 16 de agosto, quando 790 mil pessoas protestaram contra o governo atual.

"Não é que as manifestações do dia 16 foram de ‘Fora Dilma’ e essa agora seja um ‘Fica Dilma'”, diz ela. “A passeata não é para defender o governo, mas para defender a legitimidade da democracia, de uma escolha do povo”.

Em São Paulo – cidade que teve a maior concentração – 40 mil pessoas participaram dos atos, segundo a Polícia Militar. A estimativa dos organizadores é que foram 100 mil pessoas.

Essa não é a primeira vez que a UNE participa de protestos que envolvem o impeachment de um presidente. Em 1992, a entidade defendeu a saída do presidente Fernando Collor de Mello do poder.

Hoje, atua numa situação oposta. “Não há indícios do envolvimento da presidente Dilma com corrupção. O dia em que [ela] se envolver, nós vamos para rua [defender o impeachment], mas não é o caso agora”.

Veja trechos da entrevista que Carina concedeu a EXAME.com.

EXAME.com: O que motivou a participação da UNE nas manifestações?

Carina Vitral: Queremos fazer um contraponto às passeatas do dia 16 de agosto [manifestações contra o governo Dilma]. Não no sentido de que as passeatas do dia 16 foram um “Fora Dilma” e essa agora seja um “Fica Dilma”, não é essa a polarização. Ela é um contraponto das ideias.

No dia 16, você via, além do “Fora Dilma” uma série de pedidos de retrocesso. É “Fora Dilma” porque não se aceita as cotas. É “Fora Dilma” porque não se aceita que uma universidade, como a PUC, tenha milhares de bolsistas. É “Fora Dilma” não pelo o que o governo errou, mas pelo que ele acertou.

A primeira das nossas motivações é a defesa da democracia. Nós da UNE, que já derrubamos um presidente da República através de um impeachment, sabemos que para um processo desse [tipo] é preciso ter um crime de responsabilidade.

Hoje não há qualquer índicio, qualquer acusação contra a presidenta Dilma. Se [a Dilma] for derrubada, teremos um golpe, não será um impeachment propriamente dito, que é um instrumento da democracia.

A passeata também quis divergir dos rumos que o governo tem tomado para resolver a crise econômica mundial.

É uma crítica clara e contundente ao ajuste fiscal - que afetou a área da educação ao cortar 10 bilhões de reais. Essas medidas acabaram prejudicando as bolsas de pós-graduação, os orçamentos das universidades federais e o Fies.

Entre os movimentos sociais há um consenso no discurso que será usado nas ruas?

As organizações que participam do ato são bem diversas. Isso é bem positivo. Se fosse para levar para as ruas só quem defende o PT, era só o partido convocar sua militância. Não cabe aos movimentos sociais defender as práticas de um partido.

Há muitos posicionamentos diferentes entre os organizadores, mas, mesmo entre os que são mais críticos, há a ideia de que é inegável os recentes avanços. Não reconhecer isso é negar a realidade.

Quais foram os principais acertos do governo Dilma? E os erros?

O governo é de contradições. Nele há erros e acertos. O maior acerto é do ponto de vista do acesso aos direitos. Seja economicamente - com o acesso à renda, ao emprego, ao consumo - ou na educação, com a democratização do acesso ao ensino. Isso é uma herança e a continuidade do projeto de governo do Lula.

Antes, as universidades eram vistas como “coisa de rico”. Só a elite conseguia frequentar, ou aquela família que se endividava toda para pagar a mensalidade. Agora temos bolsas do Prouni, do Fies. O governo também conseguiu democratizar o intercâmbio, com o Ciências sem Fronteiras, e o ensino técnico, com a ampliação dos institutos federais e do Pronatec.

Em relação às críticas, além do ajuste fiscal, vemos que ainda faltam reformas estruturais, como a universitária. Tivemos ganhos pontuais em diversas áreas. Uma série de avanços, mas nenhuma reforma profunda.

Com a instabilidade política atual não há o perigo da perda dessas conquistas?

Sim, corremos esse risco. A pressão que a gente faz é para que os programas sociais não acabem e que o ajuste seja algo passageiro. O que é postivo é que, mesmo num ano de crise, conseguimos 260 mil vagas no Fies, o que não é pouco.

Quando o Fies começou era 70 mil vagas. 260 mil é tudo o que existe nas universidades federais hoje. O Prouni demorou dez anos para conquistar um milhão de vagas. E 250 mil por ano significa muito. Agora deu uma estabilizada e deve voltar a crescer no pós-crise. O risco existe sim e nós estamos vigilantes para que esses avanços não retrocedam.

O que diferencia a situação de Collor, cujo impeachment foi defendido pela UNE, da vivida por Dilma hoje?

Primeiro tem a questão da legalidade. Naquela época existia o depósito de valores na conta da esposa do presidente, depois a história do Fiat Elba. Havia indicios fortes de corrupção e do envolvimento do governo.

Hoje não existe qualquer indício do envolvimento pessoal da presidenta Dilma. O comentário geral é de que, de fato, ela é uma pessoa muito íntegra, que tem diferenças em relação à conduta de muita gente por não se envolver nesse tipo de coisa.

O dia em que [Dilma] se envolver, nós vamos para rua, mas não é o caso agora.

Outra questão é que, do ponto de vista político, muita coisa avançou nos últimos anos. O projeto de governo dos últimos 12 anos tem o dedo dos movimentos sociais. Não na indicação de ministros, de membros do governo, mas na construção conjunta de projetos sociais. O ProUni, por exemplo, foi criado em reunião com a UNE.

Não reconhecer as vitórias desse governo é achar que nada que a gente lutou teve efeito. Só que a gente não vive de passado. A UNE não vai ficar agradecendo para sempre o que foi conquistado. A gente quer mais.

Hoje a UNE é ouvida pelo governo?

Sim. Um exemplo recente foi na reformulação do Fies. Claro que as coisas não são da forma que a gente gostaria. No último ano, não fomos ouvidos. Fomos contra uma série de procedimentos do MEC, que acabava prejudicando os estudantes.

Desde que assumi, comecei a dar declarações que a UNE queria, sim, opinar sobre o Fies. Um dia, o secretário executivo do MEC nos convidou para discutir o assunto. Achamos positiva essa reformulação do programa, exceto pelo aumento dos juros.

Como foi o encontro com a presidente Dilma no começo de agosto?

A reunião da presidenta Dilma com os movimentos foi, do ponto de vista do governo, para demonstrar um pouco a força da base social que sustenta o governo. Também havia, do nosso lado, uma cobrança.

É preciso lembrar o governo que é a ligação com os movimentos sociais que o fez chegar até aqui. Não a sua ligação com os banqueiros, a sua relação com os empresários ou com o agronegócio.

Como é a relação dos jovens hoje com as entidades estudantis. Ficou mais fácil convencê-los a ir para as ruas?

Nossa geração viveu uma ascensão de massas nas ruas nos últimos tempos. Muita gente foi para as passeatas de junho de 2013. Nós, da UNE, que somos uma indutora de passeatas aproveitamos bem isso. A ideia de ir para as ruas hoje encanta os jovens, mas não é tudo que os mobiliza.

As ideias de direita, por exemplo, não mobilizam o jovem. As ideias conservadoras estão em alta na sociedade, mas vejo que para a juventude é diferente. Se você olhar a passeata de domingo, não é uma passeata jovem. A média de idade é acima de 40 anos.

Mas parte da organização dos protestos contra Dilma é feita por um grupo de jovens, como o Movimento Brasil Livre...

Mas isso é forjado. Quem são essas pessoas? São lideranças que fazem postagens no Facebook e pegam onda na pauta. De fato, eles não mobilizam a juventude. Se você comparar as passeatas de junho de 2013 com a de domingo, de março ou abril, você vê que são distintas.

Os políticos que querem tirar o poder de Dilma fazem isso para melhorar a vida dos jovens, da sociedade como um todo? Não. Essa disputa de poder não nos encanta. A gente quer discutir um novo programa para o país.