ENTRETENIMENTO
15/08/2015 19:50 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Dançarinas burlescas aposentadas provam que erotismo não tem idade

Divulgação

La Savona, Indianapolis Indiana 2012

É preciso um espírito corajoso – em qualquer idade — para posar para a câmera coberta somente por penas, lantejoulas e saltos brilhantes. Fazer isso depois de ter se aposentado, no entanto, requer uma certa combinação de confiança, libertação, fogo e sensualidade que muitos de nós mortais conhecemos apenas no mundo da imaginação.

Em sua série Legends, a fotógrafa Marie Baronnet retrata ex-artistas do mundo burlesco dos Estados Unidos em toda sua glória quase nua. Embora aspectos da atitude das artistas burlescas, bem como partes da aparência física delas tenham mudado ao longo do tempo, a inegável faísca de erotismo permanece, seduzindo o espectador com uma pegada estranhamente magnética.

Baronnet foi inspirada a embarcar no projeto depois de entrevistar e fotografar a artista americana Dixie Evans, ícone do mundo burlesco, falecida em agosto de 2013. A sessão de fotos levou Baronnet a expandir o projeto e buscar outras antigas estrelas burlescas espalhadas pelo país. “Fui levada pelo desejo de trabalhar outra vez na representação das mulheres, mulheres com mais idade, normalmente não retratadas com toda sua audácia e feminilidade”, disse Baronnet. “Também estava descobrindo e investigando suas histórias assim como um etnólogo [pesquisa] sobre indivíduos de uma tribo rara.”

Bambi Jones, Henderson Nevada 2012

Derivada do italiano, a palavra burlesco ou burla significa piada ou ridículo e pode se referir tanto a paródias literárias quanto dramáticas fazendo caricaturas de obras mais sérias. Nos Estados Unidos, o termo se refere a um formato de show de variedades específico, frequentemente incorporando elementos de comédia provocativa e strip-tease. Mas a tradição sempre foi muito além do que tirar a roupa.

Stephanie Blake, Simi Valley 2013

“O burlesco americano é uma autêntica forma de arte”, explicou Baronnet. “É tão moderno e contemporâneo quanto político, uma mistura inteligente de tradição popular e avant-garde social. É uma comunidade forte onde todos os gêneros são misturados e celebrados.” Da mesma forma, as mulheres do burlesco americano são igualmente autênticas. “Essas mulheres foram pioneiras, usando sua arte para conquistar a independência para si mesmas e para outras minorias. Eram ativistas naturais da causa feminista, conscientemente para algumas, nem tanto para outras. Mas eram todas ‘espíritos livres’ de coração, e muito ousadas para sua época”, continuou.

“Para aquelas mulheres, o burlesco é um mundo imaginário próprio, o que na minha visão representa um domínio genuíno de expressão artística, assim como a pintura ou o cinema. Elas inventaram a ‘performance’ moderna no palco em interação direta com seu animado público, conectando carne e alma humana, dançando com elegância e insinuação, vestindo (ou não vestindo) figurinos de alta costura, improvisando coreografias com música ao vivo. Glamour e imaginação eram derramados sobre os espectadores.”

Baronnet usou suas habilidades investigativas para rastrear possíveis personagens, encontrando ajuda na acolhedora comunidade burlesca ao longo do caminho. A fotógrafa colaborou com suas modelos em um conceito de imagem, elaborando atitude, ambiente e figurino específicos para cada uma. “Mais uma vez, essas mulheres eram criativas e audaciosas; são artistas por natureza, por isso não tinham medo das minhas proposições fotográficas. Com cada uma, a sessão era uma aventura que nos levava além do habitual clichê 'pin-up' [estilo sensual].”

As imagens variam de divertidas a contemplativas, com algumas personagens aparecendo totalmente sem roupa enquanto outras vestem biquínis deslumbrantes, cintas-ligas e espartilhos. Parcialmente nostálgicas e parcialmente atuais, as fotos capturam os múltiplos tons do passado e do presente que compõem o ser humano.

“Elas veem a si mesmas como são hoje, e como eram ontem”, disse Baronnet. “Nunca tentei fazer com que parecessem muito mais jovens; era parte do acordo e elas concordaram, sem medo da realidade. É um momento fotográfico onde o passado encontra o presente, um refletindo no outro, onde afirmo que é importante que mulheres mais velhas possam ser retratadas como bonitas, espirituais, inspiradoras.”

No final de tudo, “Legends” retrata uma linhagem particular de heroínas americanas, ao mesmo tempo que nos proporciona algo para almejar em nossa velhice. Nas palavras de Baronnet: “Não há idade para ser mulher e para estar viva, e isso é erotismo.”

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.