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27/07/2015 23:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Biólogo desmonta - peça por peça - o quebra-cabeça criado pelos racistas

Não há dúvidas de que diferentes grupos de pessoas podem parecer muito diferentes uns dos outros. Mas, para antropólogos e sociólogos contemporâneos, a noção de que existem distintas “raças” de seres humanos, cada uma com atributos específicos, não faz muito sentido.

Essa lógica é compartilhada por biólogos como Marcus Feldman, da Universidade Stanford, que tem conduzido pesquisas pioneiras sobre as diferenças entre as populações humanas.

O HuffPost Science conversou recentemente com Feldman sobre raça e racismo. A seguir, trechos da entrevista:

O conceito de raça tem alguma validade científica? Ou os biólogos descartaram o termo?

Muitos biólogos substituíram o termo “raça” por “ascendência continental”. Isso porque grande parte da população mundial tem ascendência em mais de um continente. O resultado é uma nomenclatura hifenizada, que tenta especificar quais continentes são representados em uma ascendência.

Por exemplo, nosso presidente [dos Estados Unidos, Barack Obama] é tão europeu em sua ascendência quanto africano. Qual delas um observador escolhe enfatizar é arbitrário. Adversários de Obama abertamente o denigrem por sua ascendência africana. Mas ele é igualmente europeu.

Como o conceito de raça surgiu?

Provavelmente com a predileção de Aristóteles pela [teoria da] classificação. Porém, mais recentemente, com a classificação do [físico alemão Johann Friedrich] Blumenbach em 1775 de cinco raças humanas.

Como os biólogos veem hoje o conceito de raça e como essa visão mudou nos últimos anos?

Os biólogos geralmente concordam que, com dados suficientes sobre o DNA, é possível dizer que a ascendência de alguém tem mais probabilidades de incluir uma representação de um determinado conjunto de continentes. Os genes que contribuem para os fenótipos reconhecidos por nossos sentidos (por exemplo, visão e toque) e que definem as diferenças entre pessoas de diferentes continentes (normalmente chamadas de raças) ou de diferentes povos respondem por uma pequena proporção do genoma humano, talvez 10% a 15%. Esse é o significado do estudo do [biólogo Richard] Lewontin, publicado em 1972, e análises subsequentes da variação genética molecular em todo mundo.

Como os biólogos explicam as diferenças entre diversas populações de humanos?

Depende de que tipo de diferença. Diferenças de cor da pele, por exemplo, podem ser o resultado da ação de 40 genes. A altura pode envolver várias centenas de genes.

Por um lado, algumas diferenças podem existir devido a variações no tamanho original de uma população (por exemplo, a frequência relativamente alta de algumas doenças genéticas entre os judeus asquenazes poderia refletir as pequenas populações originais no leste europeu). Outras diferenças poderiam existir devido à seleção natural — por exemplo, a tolerância à baixa pressão de oxigênio das populações tibetanas e andinas. Outras diferenças são obviamente culturais — por exemplo, a preferência de alguns povos do Oriente Médio e Sudeste Asiático por casar-se com primos resulta em taxas maiores de doenças genéticas naquelas populações do que em outras.

Então por que evoluímos com uma aparência tão diferente uns dos outros?

Alguns genes são envolvidos em diferenças fenotípicas notadas a olho nu, e alguns estão envolvidos em fenômenos relacionados à musculatura. Muitas pessoas se focam nessas [diferenças], ignorando a grande maioria de genes cujas diferenças são insignificantes.

Gravura do artista britânico John Emslie (1839-1913) mostrando retratos de diversas partes do mundo e também diferenças regionais e raciais. Os retratos são agrupados sob os títulos asiáticos, australianos, europeus, polinésios, africanos e americanos e ilustram as percepções europeias em relação aos povos indígenas de cada área.

Em que proporção o DNA se diferencia de uma população para outra?

Cerca de 80% a 90% da variação genética ocorre dentro das populações, portanto a fração entre os povos é muito pequena.

Como resultado dos genes que carregam, as diferentes populações podem enfrentar diferentes vulnerabilidades — por exemplo, o risco de sofrer certas doenças. Há alguma evidência de que certas populações têm atributos físicos ou intelectuais específicos?

Como mencionei acima, algumas populações realmente mostram maiores frequências de algumas doenças. Essas diferenças podem existir devido ao aumento nas frequências de genes, que ocorreram por acaso em razão do tamanho pequeno ou da constituição de seus fundadores. Outras doenças podem ocorrer devido a escolhas culturais ou restrições sociais, tais como preferências alimentares ou pobreza. A última não é determinada geneticamente.

Animais têm raças?

Os biólogos usam o termo “raça” para descrever variantes de uma espécie que exibe diferenças ao longo de áreas geográficas. O termo fica confuso quando usado para subespécies e outros nomes. [O biólogo evolucionista Theodosius] Dobzhansky referiu-se a raças da mosca das frutas, e outros usam o termo para populações que têm diferenças cromossômicas, mas ainda podem se acasalar com êxito. Não está claro quais são os critérios exatos para essas raças.

Os humanos estão “programados” para desconfiar daqueles que têm uma aparência diferente da nossa?

"Programados” é geralmente um sinônimo para "determinado geneticamente". Quatro pernas nos cachorros em oposição a duas pernas em humanos é provavelmente genético, mas não há evidências para que eu aceite a xenofobia como genético.

Os humanos estão ficando cada vez mais parecidos?

Como a migração aumenta em todo o mundo, as características que antes permitiam que nossos olhos classificassem as pessoas ficarão, sem dúvida, indefinidas. Então a pequena fração das diferenças de DNA que variam entre os povos ficará ainda menor.

Então, do ponto de vista biológico, não parece fazer muito sentido usar o termo “raça”. Devemos parar de falar sobre raça e racismo no dia a dia?

Acho que [o termo] raça está ultrapassado e é muita vezes pejorativo, mas o racismo está vivo e (infelizmente) não tem diminuído. Acho que precisamos nos manter alertas em relação ao racismo e ter respostas prontas para quando ele mostrar sua feia cabeça.

Simone Palma

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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