MULHERES
25/07/2015 10:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Morte de professora da UFSCar 11 dias após dar à luz gera debate sobre parto humanizado

Reprodução/Facebook

A professora de enfermagem da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Mariana de Oliveira Fonseca Machado, de 30 anos, morreu na terça-feira (21), em São Carlos, no interior de São Paulo. Foi o trágico desfecho após 11 dias de internação, após a docente, especialista em Saúde da Mulher e vice coordenadora do curso de enfermagem da universidade, dar à luz a uma menina.

Defensora do parto humanizado, Mariana havia decidido ter o bebê em sua casa. Para isso, ela contratou uma doula (assistente da mulher), foi acompanhada por uma obstetra, e tentou por 48 horas dar à luz, mas não conseguiu pois teria apresentado dificuldades e precisou ser levada para a Casa de Saúde e Maternidade de São Carlos, onde passou por uma cesariana. A criança nasceu saudável, no dia 11 de julho.

Entretanto, o quadro clínico de Mariana se agravou depois da cesárea. A Casa de Saúde divulgou nota afirmando que o parto foi realizado “sem nenhuma intercorrência”. “No entanto, no processo pós-cirúrgico, devido ao quadro clínico da paciente, foi encaminhada à Unidade de Terapia Intensiva -UTI Adultos”, onde permaneceu internada até dia 18, “quando foi transferida, a pedido da família, para o Hospital de Base (HB) de São José do Rio Preto”.

“Ela teve hipotensão (queda da pressão arterial) no pós-operatório, que é um dos sinais de choque hemorrágico. Os médicos decidiram pela relaparotomia (abertura da incisão) para exploração cirúrgica. O útero de Mariana foi retirado. Ela sofreu uma parada cardíaca e, logo depois de reanimada, outra parada cardíaca”, disse um médico ao jornal Diário da Região.

A transferência de Mariana para o HB de São José do Rio Preto aconteceu a pedido do marido dela, um médico anestesista. Segundo o HB, ela deu entrada “em estado muito grave” em 18 de julho, e veio a falecer na última terça-feira. O HB informou que a família não permitiu divulgar a situação clínica da paciente, cujo estado de saúde foi deteriorando no decorrer dos dias de internação.

A causa da morte será confirmada em 60 dias após a conclusão dos exames de necropsia pelo Instituto Médico Legal (IML) de São José do Rio Preto, para onde o corpo foi levado. Mariana foi enterrada na cidade de Patrocínio, no interior de Minas Gerais, onde moram seus familiares, que não quiseram falar sobre o caso.

Críticas sobre o ‘sensacionalismo’

A notícia de que Mariana havia morrido por conta da tentativa de parto humanizado causou revolta entre quem a conhecia. A começar pela doutora em obstetrícia Jamile Bussadori, que acompanhava a tentativa de parto humanizado. Ao jornal Diário da Região, ela disse que vai aguardar a autorização da família da amiga e colega na UFSCar para falar sobre o caso. Em sua página no Facebook, Jamile escreveu: “Pensem antes de sair compartilhando fatos inverídicos e preconceituosos!!! (sic)”.

No fim da tarde desta sexta-feira (24), a UFSCar soltou uma nota em que confirmou a tentativa de Mariana de realizar o parto em casa. De acordo com o comunicado, a cesárea no hospital ocorreu “sem incorrências”, e a enfermeira pôde, inclusive “pegar sua filha no colo e amamentá-la”. Contudo, complicações levaram ao trágico desfecho. A nota critica ainda o tom dado ao caso após a morte de Mariana.

“Infelizmente, preconceitos em relação ao parto natural e a ‘cultura de cesariana’ brasileira, associados à falta de responsabilidade no compartilhamento de informações nas redes sociais e na mídia, levaram a divulgações equivocadas sobre o caso”, diz o comunicado.

Veja a íntegra da nota:

“Nota de Esclarecimento - Manifestação do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos

Professora Doutora Mariana de Oliveira Fonseca-Machado, enfermeira obstetra, mestre e doutora pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP, era docente e pesquisadora da área da Saúde da Mulher do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos. Com base em seu conhecimento e acompanhamento médico durante o pré-natal, que evidenciou uma gestação sem intercorrências, aguardou a evolução para um parto natural.

Assim, a Prof.ª Mariana entrou em trabalho de parto no sábado, dia 11 de julho, estando acompanhada por profissional capacitado durante todo o processo. Para continuidade do trabalho de parto, encaminhou-se ao hospital no início da noite do mesmo dia, chegando ao local em perfeito estado de saúde. Algumas horas depois, Mariana foi submetida à cesariana, tendo a oportunidade de pegar sua filha no colo e amamentá-la.

Posteriormente, foi encaminhada ao quarto junto com sua filha e, poucas horas depois, iniciou um quadro de complicações, que resultou no trágico desfecho. Infelizmente, preconceitos em relação ao parto natural e a "cultura de cesariana" brasileira, associados à falta de responsabilidade no compartilhamento de informações nas redes sociais e na mídia, levaram a divulgações equivocadas sobre o caso.

Dados científicos indicam que a cesariana aumenta o risco de morte materna em 3-5 vezes, comparada ao parto normal. Dentre todas as causas de morte materna a hemorragia é a mais frequente delas.

Em solidariedade à família da professora Mariana, o Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos manifesta seu profundo repúdio às manifestações sensacionalistas veiculadas. Como instituição dedicada à promoção de conhecimento, convidamos toda a comunidade à reflexão e colaboração para que a verdade deste triste episódio seja esclarecida, contribuindo para a melhora do cuidado à saúde das grávidas do Brasil.”

Em seu blog no jornal O Estado de S. Paulo, a jornalista Rita Lisauskas lamentou o que chamou de “comemoração do status quo” ao saber da morte da enfermeira após a tentativa de parto humanizado.

“Cada vez que uma mulher morre depois de tentar um parto em casa, o status quo comemora. Mesmo que haja uma família sofrendo, uma criança órfã. Assim foi quando foi divulgado hoje que a enfermeira Mariana de Oliveira Fonseca Machado, 30, Professora Doutora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, morreu dez dias depois de… uma cesariana. Sim. O filho dela nasceu depois de uma cirurgia. Mas as manchetes afirmaram que ela morreu depois de 48 hs tentando ter um filho em casa. E embora haja poucas informações sobre a causa da morte de Mariana, a UFSCAR, Universidade Federal de São Carlos, manifestou-se sobre a morte da professora da instituição e esclareceu que Mariana chegou ao hospital para o parto em “perfeito estado de saúde.”

Caso semelhante na Austrália

O caso de Mariana em São Carlos se assemelha ao da fotógrafa australiana Caroline Lovell, de 36 anos, defensora do parto domiciliar, que morreu após o nascimento de sua segunda filha, em sua casa, em Melbourne, na Austrália. Caroline, que estava na companhia de parteiras, também chegou a ser levada para o hospital e, assim como Mariana, não resistiu. A filha de Caroline, nasceu saudável.

(Com Estadão Conteúdo)

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