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18/07/2015 01:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Cadê os aliados de Cunha? Um recesso para mapear os homens do presidente

Montagem/Estadão Conteúdo

O recesso do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), começou com uma missão: mapear os aliados e exigir fidelidade. Desde a noite de quarta-feira (15), o peemedebista articula uma estratégia de defesa e superação da crise. Ele avisou ao vice-presidente Michel Temer que não iria deixar barato o que ele chama de investidas do governo contra ele.

O problema é que a reação do Frank Underwood brasileiro não agradou aos companheiros. Alguns consideraram que ele personalizou o rompimento com o governo e não ouviu os correligionários. "Quando ele era líder, sempre ouvia cada parlamentar. Agora não tem mais tempo, acha que não precisa mais", lamenta um peemedebista.

Apesar dos prognósticos apontarem para um possível isolamento do presidente da Casa, os caciques do partido estão receosos em dizer o que realmente deve acontecer. “Vamos acompanhar os próximos capítulos”, disse um deles ao Brasil Post.

A frase dele foi repetida, inclusive, por deputados que não fazem parte do grupo de Cunha. “Ninguém sabe o que ele vai fazer, do que ele é capaz”, acrescentou um petista. O próprio líder do partido dele, Leonardo Picciani (RJ), não quis se pronunciar e tem dito que só vai conversar com a bancada sobre o rompimento de Cunha com o governo após o recesso.

Na coletiva que concedeu na sexta-feira (17) para anunciar o fim da aliança - sempre conflituosa - com o Planalto, Cunha apareceu acompanhado de quatro deputados, mas nenhum cacique.

Os mais próximos a ele evitaram declarações públicas; o PMDB logo em seguida divulgou uma nota, acertada com o governo, informando que a decisão de Cunha era pessoal. O Planalto também soltou um comunicado no qual ressaltou que o PMDB é parte da chapa vitoriosa nas eleições.

Os governistas apostam que essa sensação de isolamento aliada ao recesso resultará na perda de força de Cunha.

Entre os deputados, o raciocínio não é tão simples. Há quem ressalte que Cunha tem um poder de persuasão muito grande. “Dizem que ele ajudou financeiramente na campanha de muita gente. Essas pessoas estão ao lado dele e também se sentem ameaçadas quando ele o é. Essa rede de fidelidade certamente será ativada”, avalia um deputado mais distante de Cunha.

Independentemente da opinião dos aliados, o peemedebista já colocou a estratégia de independência em pauta e anunciou a criação de quatro CPIs, duas delas que desagradam ao governo. Uma vai investigar o BNDES e a outra, fraudes nos fundos de pensão.

“Aloprados”

Embora o governo espere que Cunha se fragilize, os petistas acredital que terão um semestre mais duro na Câmara. A avaliação é que recado aos soldados da presidenteDilma Rousseff respingue ainda mais forte na Casa. Na coletiva, Cunha não mediu palavras: “Tem um bando de aloprados no Planalto que vive de criar constrangimento”.

A declaração é uma resposta ao que ele chama de plano “orquestrado pelo governo” para fragilizá-lo. Cunha acredita que ministros da presidente aliados ao procurador-geral da República forçaram ações contra ele.

Uma delas seria fazer com que o ex-consultor das empreiteiras Toyo Setal e Camargo Corrêa, Julio Camargo, fizesse acusações contra ele. Em depoimento de relação premiada, divulgado na quinta-feira (15), Julio disse que foi pressionado por Cunha a pagar US$ 10 milhões de propina, sendo que US$ 5 milhões foram diretamente para o bolso do presidente da Câmara.