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17/07/2015 22:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Por que as pessoas em situação de rua em São Paulo não querem ir para abrigos mesmo durante o inverno?

Nos últimos dias, o inverno deu as caras na cidade de São Paulo. Porém, pra quem dorme pelas calçadas e pelos viadutos, ele é ainda mais impetuoso. De acordo com o Censo da População em Situação de Rua divulgado este ano, existem 15.905 pessoas vivendo nessas condições pela capital.

A maioria está nas regiões da Sé e no bairro da Mooca. Principalmente os homens, que correspondem a 82%. Dentre tantos números, o mais preocupante é saber que cerca de 7.335 pessoas rejeitam os centros de acolhida oferecidos pela prefeitura e continuam dormindo nas ruas mesmo quando o frio é de bater os dentes.

Conversamos com quem vive em situação de rua e as reclamações parecem pontuais: os abrigos são impessoais e o tratamento nem sempre é dos melhores. Mas o que mais parece incomodá-las são os horários de entrada e saída – que costumam ser às 16h e às 6h ou 7h, respectivamente.

Priscila, há oito anos na rua, dá sua opinião: "Lá, tem hora certa de levantar. Na calçada, a gente levanta a hora que quer".

Isabel Bueno, coordenadora de Proteção Social Especial, explica que as regras são necessárias nos centros de acolhida, mas que podem ser mais rígidas ou mais flexíveis, dependendo do local.

"Tem limite de horário pra entrar. Não dá pra toda hora ter alguém chegando porque a pessoa que está em repouso é incomodada."

Atualmente, dez mil vagas são oferecidas pela prefeitura. Mas podem aumentar de acordo com a demanda, principalmente em época de inverno.

O padre Julio Lancelloti, da Pastoral de Rua da Arquidiocese de São Paulo, problematiza a situação e acredita que esses encaminhamentos são muito burocráticos.

"O discurso oficial tem resposta pra tudo. Está tudo solucionado, está tudo encaminhado. A vida das pessoas é mais complexa. Não é tão simples assim."

Conhecido não só pela militância política, mas também pelo sólido trabalho social que há anos realiza com a população de rua, ele acredita que as medidas ofertadas são raciocinadas em cima de quantidade, e não de diversidade. Ele cita o fato de casais hetero ou homossexuais não poderem dormir juntos nunca, já que os quartos são sempre separados.

A impessoalidade dos abrigos e o desejo de ter alguma intimidade são outros motivos pelo quais a rua parece ser mais confortável, diz Lancelloti:

"Uma grande busca que eles tem é por moradia. Ter o seu próprio lugar de aconchego, de sossego. É isso que não existe. O que existe são respostas massivas, de grande quantidade, que não respeitam a individualidade, a autonomia. Essas pessoas são consideradas sem autonomia."

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