MULHERES
17/07/2015 22:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

O que acontece quando o álcool domina sua vida – e rouba suas memórias

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Existem detalhes cruciais que estão faltando no novo livro de memórias de Sarah Hepola, Blackout (Apagão, em tradução livre) – mas foi justamente isso que a levou a escrevê-lo.

Em seu livro, lançando em junho, a autora — que edita ensaios para o site de entretenimento Salon.com — discute sua longa, complicada e às vezes devastadoramente simples relação com o álcool.

Essa relação começou cedo (tomou os primeiros goles de cerveja aos 7 anos) e desbravou um destrutivo caminho por várias décadas de sua vida.

O livro é um processo de educação íntima, não apenas em sua história pessoal, mas também sobre os perigos dos “apagões” induzidos pelo álcool, ou “períodos de perda de memória de eventos que ocorreram quando uma pessoa estava bebendo”, que Hepola chama de “ameaça que se esconde bem à sua frente”.

Quando sofria de amnésia alcóolica, Hepola explica, ela podia estar interagindo com o mundo conscientemente — mas, depois, não se lembrava de nada do que havia acontecido.

Uma vez, por exemplo, despertou de um apagão enquanto transava com uma pessoa que não reconhecia: “É como se o universo tivesse me jogado dentro do corpo de outra pessoa.

Na vida de outra pessoa. Mas parece que estou gostando. Estou fazendo todos os sons corretos.”

“As pessoas podem ser surpreendentemente funcionais durante um apagão”, ela escreve. “É um ponto que vale a pena destacar, já que o equívoco mais comum sobre o apagão é confundi-lo com o desmaio, quando se perde a consciência depois de muita bebida.

Mas, em um ‘apagão’, a pessoa não está nem um pouco quieta ou imóvel... No dia seguinte, seu cérebro não tem nenhuma marca de [suas] atividades, é quase como se não tivesse acontecido.” (Os apagões podem ser parciais ou completos.)

Conversei com Hepola, uma ex-colega de trabalho, sobre o hábito de beber, a imagem sobre o próprio corpo, a política do consentimento e o que fazer caso conheça alguém com o problema.

Você mencionou que ignorava materiais educativos sobre beber em excesso — como um panfleto de um centro de saúde estudantil, na faculdade — porque eles simplesmente não pareciam realistas. Com sua experiência, acredita que exista uma melhor maneira de educar as pessoas sobre esses assuntos?

Não sei. Fico pensando: será que é uma pergunta que eu realmente deveria estar respondendo?

Porque não mergulhei a fundo nos panfletos educativos atuais que existem por aí. Estou comentando sobre algo que vi quando tinha 19 anos.

Como bebia e era esnobe, tinha alergia aos materiais educativos, ponto final.

Então não posso nem dizer se eles realmente serviam para mim, porque não estava escutando. Não tinha ouvidos para aquilo.

Mas seja lá por qual motivo, as histórias de outras pessoas conseguiram vencer a barreira da minha negação. Simplesmente estavam contando sobre suas vidas e eu “ah cara, eu também.

Eu também. Deus, eu fiz isso. Ah, isso sou eu”. Você começa a ver as maneiras pelas quais as histórias delas se sincronizam com as suas.

Uma coisa que você discute e que me fascinou é o complicado tema sobre consentimento e álcool.

Você diz que, na sua vida, “o álcool frequentemente tornou a questão do consentimento muito obscura”. Há uma maneira mais honesta e produtiva para falar sobre isso em público – ou é simplesmente muito difícil lidar com isso?

Acho que vou saber a resposta para essa pergunta nos próximos meses. (Risos). Então há um pouco de TBD [sigla em inglês para To Be Determined, que significa “a ser definido”] nessa resposta.

Quando você está elaborando uma política, e quando está tentando provocar uma mudança social, é melhor falar em termos muito claros, entende? Tenho essa frase no livro: “Ativismo pode desafiar a nuance, mas o sexo a exige”.

E isso não tem a ver apenas com sexo! Tem a ver com todos os aspetos da vida humana.

Pontos de discussão política não se colocam ordenadamente ao lado do comportamento humano. Sabemos disso.

É um momento interessante, porque tivemos uma conversa sobre consentimento que nunca tinha visto na minha vida.

Tenho 40 anos, e todos esses anos nos quais me acabei até o ponto de ter um apagão, até cair das escadas, saindo com caras apenas por uma noite, não consigo me lembrar – não estou dizendo que isso nunca aconteceu — de um amigo, uma pessoa ao meu lado, ou qualquer um dizendo “você estava muito bêbada para consentir isso?”.

Simplesmente não me lembro de ter tido esse tipo de conversa.

Para mim, em termos de consentimento, existem essas linhas muito claras. Quando uma mulher desmaia, existe uma linha muito clara que você não deve ultrapassar.

Se fizer isso, é agressão sexual. Mas o que tenho notado lendo muito sobre o assunto, e acompanhando essa história, e escrevendo sobre minha própria história — e venho falando sobre isso há anos — é a fusão que existe entre o desmaio e o apagão.

Sim. Acho que muitas pessoas não sabem a diferença.

Não têm a menor ideia. E estou falando de amigos meus que trabalham em revistas renomadas, pessoas que conhecem a história da Roma antiga. E não sabem a diferença entre o desmaio e o apagão.

Como eu fazia parte de uma cultura da bebedeira e isso fazia parte da minha vida, eu sempre soube — desde quando tive um apagão aos 12 anos. Foi quando descobri o que significava “apagar”. E nunca pensei que aquela fusão estava acontecendo, e que estava acontecendo de uma forma tão abrangente.

Conversei com mulheres que, quando acordavam, não conseguiam se lembrar do que tinha acontecido na noite anterior, e a reação imediata era “estava drogada; colocaram algo na minha bebida”.

E é possível, mas acho que umas das coisas que estavam faltando, no meu entender, era o quanto o beber em excesso causa apagões, especialmente para mulheres.

Sim. Só fui saber de muitos apagões depois que li seu livro.

O livro tem uma lista com alguns números sobre a quantidade de álcool no sangue que traz a média dessa proporção: um apagão fragmentário [parcial] acontece com 0.20 e um en bloc [completo], em média, com 0.30.

Bem, são níveis muitos altos, mas o que gostaria de ter enfatizado mais no livro é que funciona de forma diferente para cada um, e algumas pessoas têm um limite mais baixo.

Onde quero chegar sobre tudo isso é: “Olha, estamos tendo essa conversa importante, necessária, fascinante, difícil sobre consentimento. Bom.

Aqui está algo que acredito que possa enriquecer a conversa”. Precisamos entender esses termos —“apagão” e “desmaio” — um pouco melhor, para que possamos melhorar a conversa.

“É uma situação ruim depender do álcool para ser aceito, porque então você passa a fazer coisas inaceitáveis.

Outro ponto que você explora — relacionado a sua perda de peso — é a aceitação do próprio corpo. Você acredita que o último movimento cultural de aceitação e amor ao corpo pode realmente forçar as pessoas a provocar uma mudança?

Um dos motivos pelos quais eu bebia muito quando saía com homens era porque me sentia profundamente desconfortável com meu próprio corpo. Profundamente desconfortável. E por isso o álcool se tornou uma maneira de afogar as vozes críticas. Mas, então, se você bebe muito, o álcool reduz seu discernimento e suas inibições.

Quando eu saía daquilo e estava sóbria, analisava: por que bebi tanto? Um dos motivos era porque nunca me senti confortável com meu corpo. E precisava me sentir confortável com meu corpo.

Veja, o movimento de aceitação do próprio corpo, em sua mais pura forma, não tem a ver com “você tem de ser desse jeito e aceitar”; e sim com “você pode amar seu corpo em qualquer tamanho”.

A pergunta é: que tamanho é esse, e deveria ser desse tamanho? Seu tamanho pode ser diferente do meu.

Correto. E pode ser diferente do seu tamanho no momento — sem precisar ser um “tamanho de supermodelo”.

Com certeza! Perdi 23 quilos, mas ainda tenho de aceitar que nunca vou ter o corpo da minha amiga atriz com 1,80m. O que precisava fazer por mim mesma era encontrar o corpo com o qual me sentia confortável, considerando os parâmetros que tenho.

E, aliás, o feminismo nunca fez isso por mim, o movimento de aceitação do corpo nunca fez isso — isso foi simplesmente o que eu fiz, provavelmente porque não queria enfrentar o difícil esforço da mudança.

Apenas decidi, comecei a ser da forma que quero, e você precisa me aceitar. Não havia encarado a difícil tarefa de me aceitar; estava sempre me embebedando para me aceitar, mas trazendo uma nova vergonha.

É uma situação ruim depender do álcool para ser aceito, porque então você passa a fazer coisas inaceitáveis.

Estava muito desconectada do meu corpo. Estava muito desconectada dos riscos emocionais do sexo. Estava muito desconectada de “realmente estou com fome?”; como compulsivamente e engulo meus sentimentos da mesma maneira que bebia meus sentimentos.

Tive que aprender a tolerância de me acomodar nos meus próprios sentimentos incômodos — e então você começa a pensar “que tipo de vida quero construir para mim mesma?”.

Obviamente, não acho que exista um modelo que sirva para todo mundo, mas realmente acredito que muitos de nós conhecemos pessoas que sabemos que podem ter um problema — e honestamente não sabemos o que dizer. Você tem algum conselho para alguém que está pensando em conversar com um amigo sobre seus problemas com a bebida?

Obrigada por perguntar isso. Me solidarizo com as pessoas que estão nessa situação. Eu não estava nessa situação; estava do outro lado da cerca.

Era uma pessoa com a qual minhas amigas estavam preocupadas, e estavam comentando minha situação — não porque estavam fofocando, mas porque estavam preocupadas, e isso é o que as mulheres fazem: elas conversam.

Acho que o primeiro impulso quando você tem essa situação é cortar a pessoa da sua vida. “Não vou lidar com aquela pessoa porque aquela pessoa provoca o caos” – entendo isso.

E, de certa forma, você está dizendo algo para essa pessoa. Mas se essa pessoa é muito íntima, e se você se preocupa com ela, então acho que poderia dizer: — não algo como “você está bebendo muito”, porque frases acusatórias como essa apenas fazem o outro reagir como um porco espinho — “Estou preocupado com você.

Tenho te observado e parece que você não está bem. Essas histórias que você está me contando não têm mais graça”.

Isso teve um grande impacto para mim. Eu contava aquelas histórias e todo mundo ria e me sentia uma heroína.

E quando meus amigos pararam de rir... porque, você sabe, o riso é uma forma de cumplicidade; quer dizer “estou nessa com você”. Quando meus amigos pararam de rir, me senti como “nossa, isso não é tão legal como antes”.

Meus amigos reagiram de maneira diferente ao que estava acontecendo. Alguns deles nunca falaram sobre isso e se calaram, preocupados.

Alguns nunca me cortaram da vida deles, em nenhuma hipótese. Tive amigos que fizeram coisas do tipo – ouve minhas confidências todos finais de semana e está tentando ser enfermeira, padre e mãe ao mesmo tempo e chegou um ponto que teve de dizer “não dá mais”.

E tive uma amiga que deu um passo social atrás, e basicamente parou de me convidar. Em vez de simplesmente não me convidar, ela poderia apenas ter escapulido lentamente da minha vida e eu poderia ter permanecido num estado de negação e pensado:

“Quer saber? Ela é super ocupada, é atriz; está em Los Angeles com seu marido, não vou me preocupar com isso. Não tem a ver comigo” — ela me deu um grande presente ao dizer, e vou reproduzir o que disse: “Isso na verdade tem a ver com você; tem a ver com seu comportamento. Estou preocupada com você. E está difícil estar perto de você neste momento”.

E isso é um grande presente que você pode dar a alguém. Mas não quer dizer que vão virar para você e dizer “obrigada! Estava esperando alguém me confrontar sobre meu problema com a bebida!”.

Eles vão ficar na defensiva, se sentirão ofendidos. Me senti traída. E todos meus amigos bebiam — por que estavam me dizendo que não é certo, quando eles podiam beber?

O que é um problema fundamental que os alcóolatras precisam enfrentar: algumas pessoas podem manter o álcool em suas vidas porque conseguem moderá-lo, mas eu não conseguia.

O que você diria para as pessoas que estão prestes a desistir depois de 30 dias? Lendo seu livro, me pareceu talvez o período mais difícil para você.

Com certeza.

Existe algo que teria te ajudado se tivesse escutado, ou que você diria para os que estão nesse estágio agora?

Estava com muito medo de que minha vida tivesse acabado. Isso soa muito dramático. Mas acho que quando você está nessa situação, se sente dramático.

Pensei que minha vida amorosa tivesse acabado, porque de maneira alguma eu conseguiria ter relações íntimas com alguém sem beber. Pensei que minhas amizades tinham acabado, porque o álcool tinha sido uma forma de vínculo.

E o que acontece com o viciado ou com a viciada que está nessa situação é que, a primeira semana ou mês, no meu caso, ano, são tão ruins que você continua tendo recaídas – o que aconteceu comigo por dois anos até o momento em que parei de beber.

E o que eu gostaria de compartilhar é: se você conseguir atravessar pelo menos aquele primeiro mês difícil, ou dois meses, ou o que seja, te prometo, é muito melhor estar desse lado.

Todas minhas amizades se fortaleceram depois que parei de beber — porque quando você se atreve a dizer a verdade para as pessoas que são próximas, e você se atreve a mostrar seu coração para elas, isso é um ato de confiança, e as pessoas, se forem suas amigas — e as minhas eram —, respondem a isso. Respondem com amor.

Não quero me vangloriar sobre onde estou agora. Não tem a ver com isso. O que é importante para mim é que pensei que minha vida tinha acabado e, na verdade, esse capítulo inteiro da minha vida estava apenas começando.

Havia muita coisa melhor do outro lado da sobriedade. É como a frase que coloquei no livro: Pensei que a sobriedade era a parte chata, mas a sobriedade é a reviravolta do enredo.

Esta entrevista foi editada e resumida.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.