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12/07/2015 03:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Pressão nas redes que fez deputados mudarem opinião sobre idade penal constitui novo cenário político no País

Fim da noite do dia 30 de junho. Com 303 votos a favor, 184 contra e três abstenções, a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos no Brasil não passou na Câmara dos Deputados. Vinte e quatro horas depois, um texto alterado do mesmo tema é aprovado com 323 votos a favor, 155 contrários e duas abstenções. O que fez 21 deputados mudarem de ideia? Negociações nos bastidores, com certeza. Mas não foi só.

Além dos 21 que eram contra a redução e, no dia seguinte, votaram a favor dela, outros sete deputados mudaram os seus votos – três que se abstiveram no dia 30 votaram a favor no dia 1º de julho; dois antes a favor votaram contra na segunda votação; um a favor e outro contra no dia 30 se abstiveram 24 horas depois.

Nessa aritmética, as redes sociais representaram peso considerável. E é só o começo, segundo especialistas ouvidos pelo Brasil Post.

“Teve um caso curioso aqui no Espírito Santo em que um deputado do PSB gravou um vídeo, se posicionando contra a redução da maioridade penal, e no dia seguinte gravou outro vídeo, explicando porque votou a favor. Nesse meio tempo, ele foi alvo de uma reação muito violenta dos seus seguidores. É um exemplo do que muitos deputados viveram, tendo de responder aos seus eleitorados, algo que fez muitos deles mudarem de opinião”, disse Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Pesquisa sobre Internet e Cultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

O deputado citado por Malini é Paulo Foletto. E os vídeos postados pelo parlamentar não deixam dúvidas – pelo menos no que diz respeito a mudar de opinião.

O primeiro, contra a redução...

#SegurançaO Plenário da Câmara dos Deputados rejeitou, na madrugada desta quarta (01), o texto da comissão especial...

Posted by Paulo Foletto on Quarta, 1 de julho de 2015

... o segundo, a favor dela.

#SegurançaO Plenário da Câmara dos Deputados aprovou, na madrugada desta quinta-feira (2), um novo texto que reduz a...

Posted by Paulo Foletto on Quinta, 2 de julho de 2015

Outros parlamentares da oposição, como deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP) também sofreram fortes críticas. “Todos sabemos que a redução não vai diminuir a violência, e eu não poderia votar a favor simplesmente para tirar a sensação de impunidade que existe hoje na sociedade”, disse. Tal discurso, porém, não evitou que a tucana modificasse o seu voto.

PEC 171Por conta da rejeição do projeto de redução da maioridade apresentado na Câmara dos Deputados na terça-feira,...

Posted by Mara Gabrilli on Quarta, 1 de julho de 2015

Para quem acredita que a situação ocorrida nesse caso é única, um alerta: o que é dito, curtido e compartilhado nas redes sociais está cada vez mais no radar dos políticos brasileiros, sejam aqueles bastante ativos, sejam aqueles que nem sequer um perfil atualizado possuam nas principais redes (Facebook, Twitter e Instagram). O caso da maioridade penal expõe um quadro mais imediatista – e com pensamento centrado no curto prazo.

“As redes sociais estão aí para o resto das nossas vidas. Elas são hoje como o ar que respiramos. É um dado da democracia, sobretudo se lembrarmos que movimentos como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street e as Jornadas de Junho floresceram através delas. Fora a pressão difusa das redes, com ofensas por exemplo, há um acompanhamento de estruturas e grupos, existe um estímulo de participação mais orgânica. Entretanto, as redes são extremamente despolitizadas, geram conflitos e, ideologizadas, acabam assustando os políticos”, avaliou o cientista político do Insper Fernando Schüler.

Para o cientista político da Unicamp Valeriano Mendes Ferreira Costa, o caso envolvendo a mudança de posição de deputados sobre a redução da maioridade penal mostra não só uma alteração da dinâmica entre político e eleitor, mas também a possibilidade de "pegar carona" com a opinião pública. “Há claramente uma maioria favorável à redução da maioridade penal, então criou-se um clima, e os deputados puderam ceder mais facilmente”, comentou.

‘Sobrecarga política interativa’

Fábio Malini, da UFES, intitula aquilo que faz um político mudar de opinião via redes sociais de "sobrecarga política interativa". O termo representa o abalo emocional causado no parlamentar com base naquilo que seus seguidores e eleitores estão comentando sobre ele.

“Isso faz com que, muitas vezes, ele tenha que rever suas posições. Alguns são mais suscetíveis do que outros, e aí você tem o uso demagógico das redes sociais, quando alguém fala que mudou de posição para ir ao encontro do que o povo queria”, explica Malini.

A atual legislatura, recheada de pautas complicadas e polêmicas como a reforma política, a terceirização do trabalho e a própria redução da maioridade penal, pouco contribui para um cenário de decisões mais técnicas e pensadas. E isso não tem a ver somente com a rapidez com que alguns temas vêm sendo debatidos e votados – a oposição acusa os ritos do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de “atropelos” –, porém também com o acirramento das posições na sociedade brasileira.

“Cada vez mais as decisões são absolutamente emocionais. É preciso entender que as redes sociais são excelentes ambientes para produção do ativismo, mas não necessariamente para a democracia. Não tem como pegar uma régua e medir a qualidade das redes. A opinião pública é sim um modo de medir os anseios da população, porém, por outro lado, você precisa qualificar o debate. A falta disso tem se tornado a casa de pequenos fanáticos”, afirmou Malini.

CRÔNICA DA DERRUBADA PEC 171 (MAIORIDADE PENAL).Eu adoro grafos temporais, porque, nas redes sociais, seguem as dinâ...

Posted by Fábio Malini on Quarta, 1 de julho de 2015

Fernando Schüler também vê tais “posicionamentos fanáticos” como uma forma de excluir aqueles que pensam diferente, impossibilitando qualquer diálogo nas redes sociais. O resultado é o crescimento de campanhas difamatórias, as quais podem exercer diferentes tipos de pressões sobre a classe política. É exatamente o risco de viralizar “pelas razões erradas” que faz com que políticos tomem o caminho mais fácil, imediatista – e pouco recomendado.

“Um deputado deve sim ter acesso à opinião pública, mas não pode se subordinar ao zumbido das redes sociais ou das ruas. É muito ruim [haver] essas mudanças da noite para o dia; vivemos em um País de 120 milhões de eleitores. É um problema para a democracia... Para evitar isso seriam necessários ‘filtros institucionais’, até porque essa história de ‘ter a maioria’ é perigosa, veja que Hitler teve a maioria em determinado momento na Alemanha. Nas redes, as pessoas são enviesadas, por isso o Congresso deve ter pautas e demonstrar a sua independência”, disse.

Era dos direitos

Se a polarização de crenças políticas nas redes sociais trouxe opiniões, calúnias, informações com recortes com interesses difusos, e até o fim de amizades, um elemento une todos, independentemente da preferência: vivemos a era dos direitos, um filhote das Jornadas de Junho, de acordo com Fábio Malini. É o que toda a população quer e vem demonstrando, a sua maneira, em protestos nas ruas ou em postagens nas páginas.

“Existe uma necessidade de reflexão sobre como as redes vêm sendo utilizadas como instrumento demagógico, com determinadas verdades. É legítimo deputados usarem seus canais para reforçarem suas opiniões. Quando estão contra a parede, eles tendem a mudar de posição, o que pode se voltar contra eles a médio e longo prazo, quando forem novamente candidatos. Há pouco cálculo político hoje. Quanto ao ódio nas redes, vejo dois recados bem dados: em 2013, a população deixou claro que não quer uma política restritiva dos seus direitos, ela quer sim a amplitude dos seus direitos. E segundo, a população optou pela Dilma (Rousseff) nas eleições porque, no seu entender, era o projeto que mais dava amplitude de direitos à população. Mesmo nesse atual momento de crise, a população está sinalizando para onde ela quer ir”, analisou o professor da UFES.

Para o cientista político do Insper, um problema com essa população da "era dos direitos" não está no fato dela demonstrar força quanto ao que quer, mas sim possuir a devida profundidade naquilo que pede. Um exemplo dado por ele envolve os atos do dia 15 de março, voltados contra o governo federal e contra o PT. De acordo com Fernando Schüler, muitas dúvidas pairaram no ar no que ele define hoje como uma “democracia instável”.

“O eleitor sempre será tecnicamente mais alienado, porque é racional para ele ser relativamente alienado. O custo para ele captar a informação é elevado. Além disso, ele acredita que seu voto vale pouco entre milhões, e não acredita na sua capacidade de influência. Mas é claro que vivemos um momento de conflitos, a agressividade aumentou e as sociedades estão mais participativas. Mas veja aqueles mais de 1 milhão que foram às ruas no dia 15 de março. Eles tinham algum programa? Pediam o impeachment, mas tinha conhecimento jurídico? O indivíduo hoje está mais empoderado, pode se organizar mais facilmente, mas ao mesmo tempo tornou o poder mais instável”, afirmou.

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