COMPORTAMENTO
10/07/2015 10:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Piper Kerman, autora de 'OITNB', e os problemas causados pela solitária nas prisões femininas dos EUA

Evan Agostini/Invision/AP
Writer Piper Kerman, left, and actress Taylor Schilling attend PaleyFest: Made In NY -

"Passei 13 meses presa no sistema federal... O máximo de tempo que me jogaram sozinha em uma cela foram quatro horas e no final dessa experiência eu já estava quase subindo pelas paredes da pequena cela."

Foi assim que a autora de Orange Is The New Black, Piper Kerman, começou seu depoimento, em fevereiro de 2014, na audiência do Subcomitê de Assuntos Judiciais do Senado sobre o confinamento solitário. Ao contrário do seriado, Kerman nunca ficou realmente na solitária durante a sua estadia na Instituição Correcional Federal, em Danbury, Connecticut. Apesar disso, ela testemunhou muitos dos efeitos devastadores do confinamento solitário e pediu que a comissão mudasse a prática do governo de usar a solitária como punição.

O testemunho de Kerman é especialmente relevante se você assistiu à terceira temporada de Orange Is The New Black, na Netflix. Na nova fase, várias personagens são enviadas ou ameaçadas de serem enviadas para as Unidades Habitacionais de Segurança (SHU, na sigla em inglês) – em outras palavras, para a solitária - lançando luz sobre o uso indevido do confinamento e os terríveis efeitos mentais e emocionais nos prisioneiros.

(Alerta de spoiler!!) Sophia Burset é enviada para a SHU para a "sua própria proteção" depois de ser agredida por ser transexual. Angie Rice foi enviada para a SHU depois de ser acidentalmente libertada e aparecer com cara de morta. Na segunda temporada você assiste Piper endoidecendo lentamente depois de passar um mês na solitária.

Em seu depoimento, Kerman discutiu sobre o impacto devastador da solitária nas mulheres confinadas em prisões por todo o país. Ela mencionou três principais razões pelas quais a reforma no confinamento solitário é necessária: o efeito traumático que tem sobre a saúde mental dos prisioneiros, a forma que a solitária às vezes é usada para encobrir casos de prisioneiras que são agredidas sexualmente por guardas e o impacto negativo disso sobre elas e seus filhos, quando o direito de visitação é revogado, por estarem na solitária.

Desde este testemunho de 2014 foram feitas algumas reformas no uso da solitária como punição para os detentos. A cidade de Nova York acabou com o confinamento solitário para presos com menos de 21 anos de idade e proibiu a solitária para qualquer pessoa com doença mental ou portador de deficiência.

Embora a cidade de Nova York tenha feito progressos, a maioria das prisões em todo os Estados Unidos ainda usa o confinamento solitário para rebaixar, humilhar e devastar os prisioneiros. Em um dia comum há cerca de 80.000 presos em regime de isolamento nas prisões do país.

"Ao contrário das comunidades tipo colmeia, comuns nas prisões, o isolamento de 24 horas deixa você em uma cela de seis por oito [pés], por semanas, meses ou até mesmo anos."

"Muitas infrações menores podem mandá-lo para a solitária. Depois eles podem mantê-lo lá por quanto tempo quiserem, sob quaisquer condições que eles escolherem", disse Kerman à comissão. "Ao contrário das comunidades tipo colmeia, comuns da prisão, o isolamento de 24 horas deixa você em uma cela de seis por oito [pés], por semanas, meses ou até mesmo anos. E isto é improdutivo para os indivíduos, para as instituições carcerárias e para as comunidades fora dali, para onde 97% de todos os presos retornam."

Em seu depoimento, Kerman apontou as diferenças entre as experiências de homens e mulheres na solitária, incluindo o fato das presidiárias serem muito mais propensas a sofrer de doenças mentais do que os detentos. 75% mulheres nas prisões dos EUA têm histórico de doenças mentais e jogá-las em confinamento solitário só agrava os efeitos negativos da doença".

"Há exemplos flagrantes de confinamento solitário que foram usados como desculpa por guardas para esconder o terrível e sistêmico abuso sexual sob seu comando."

Ela também falou sobre a forma como o confinamento pode ser usado para encobrir o assédio sexual e a agressão de prisioneiras por guardas. "Há exemplos flagrantes de confinamento solitário que foram usados como desculpa por guardas para esconder o terrível e sistêmico abuso sexual sob seu comando", disse ela. "A terrível ameaça do isolamento faz com que as mulheres tenham medo de denunciar abusos e serve como um poderoso desincentivo para pedir ajuda ou justiça."

No final do seu testemunho, Kerman resume porque está lá: "O isolamento deve ser utilizado apenas quando um prisioneiro é uma ameaça à sua própria segurança ou a dos outros - não durante a gravidez ou quando sofrem de doenças mentais ou por denúncias de abusos." Amém a isso.

Tradução: Simone Palma

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.