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06/07/2015 22:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Chris Mosier, o primeiro atleta transgênero da história a entrar para uma seleção americana

Zhen Heinemann

Chris Mosier compete no Campeonato Nacional de Duatlo, em St. Paul, Minnesota (Crédito: Zhen Heinemann)

Quando Chris Mosier saiu da segunda área de transição no Campeonato Nacional de Duatlo, em Saint Paul, Minnesota, em junho, sabia que tinha chances. Ele esperava esse momento havia anos. Depois de incontáveis horas correndo, pedalando e correndo, o objetivo estava a seu alcance. Ele estava perto de ser escolhido para a equipe nacional americana.

Era o momento com que sonham tantos atletas: a chance de representar seu país, de ser e estar entre os melhores. Mas havia algo ainda mais importante ao alcance de Mosier: ele estava prestes a se tornar o primeiro atleta publicamente transgênero selecionado para uma equipe nacional americana. Ele estava perto de provar o que muita gente considerava impossível – que um transgênero pudesse competir com os melhores.

Quando ele finalmente viu seu nome entre os selecionados, sua primeira sensação foi de alívio. O trabalho duro tinha sido validado. Todo o tempo e dedicação, legitimados. Ele tinha sido escolhido para fazer parte da equipe americana que disputaria o Campeonato Mundial de Duatlo de 2016, na Espanha, pedalando e correndo ao lado de outros homens que tinham dado tão duro quanto ele. “Consegui! Fui escolhido para o Team USA! Sonho de vida conquistado!”, escreveu ele na sua página do Facebook.

Mosier ficou em 37º lugar entre os 117 homens que participaram do duatlo de sprint, um evento parecido com um triatlo, mas com uma perna a mais de corrida, em vez de natação. Ele chegou em sétimo na categoria de 35 a 39 anos. Os primeiros oito colocados foram selecionados para a equipe dos Estados Unidos.

Mosier, 35, lutou para alcançar o objetivo. Seis ou sete dias por semana ele treinou até atingir os limites do seu corpo. Foi uma conquista suada, e ele queria que as pessoas apreciassem sua vitória como atleta, em primeiro lugar.

“Estou super empolgado como atleta por fazer parte da equipe americana”, disse ele depois ao The Huffington Post. “Desde que era muito jovem, tinha o sonho de ver meu nome num uniforme. Só que sempre imaginei um uniforme diferente.”

“Mas acho que também é importante como atleta transgênero, porque lembro da minha infância e da ideia de fazer a transição, pensando que isso jamais seria possível depois da transição”, disse ele.

“Lembro da minha infância e da ideia de fazer a transição, pensando que isso jamais seria possível depois da transição.”

Mosier começou a questionar sua identidade de gênero quando tinha quatro anos, como disse em entrevista ao The New York Times, num perfil publicado em 2011. Mas ele não tinha certeza do que significaria ser fiel a sua identidade de gênero em termos da carreira esportiva. “Quando considerei fazer a transição, não via homens trans atletas”, disse Mosier ao The Advocate, um importante site de notícias LGBT.

Em 2010, ele decidiu seguir adiante com a transição, apesar das reservas. Logo depois, começou a receber injeções de testosterona e tornou-se homem legalmente.

As dúvidas de Mosier em relação ao seu desempenho atlético depois da transição eram infundadas. Ele espera que sua história sirva de inspiração para crianças que questionam sua identidade de gênero. “A recepção [que tive na comunidade atlética] foi incrível”, disse ele. Mas ele sabe que é difícil. A comunidade transgênero ainda sofre com altos índices de violência e assédio. Quando Caitlyn Jenner saiu do armário em abril, a resposta foi positiva. Mas também houve muitas respostas terríveis na internet.

“Para Caitlyn Jenner ou [até mesmo] para um jovem de Nova York, um lugar que consideramos inclusivo, as pessoas trans têm de lidar com uma série de desafios”, disse ele. “Ser o seu eu autêntico exige uma coragem incrível.”

O mundo do esporte ainda intimida quem não é heterossexual ou têm identidade de gênero não-conformista. Uma pesquisa publicada no mês passado apontou que 73% das pessoas acreditam que esportes não são um ambiente seguro ou acolhedor para gays, lésbicas e bissexuais (questões relacionadas aos gêneros não foram discutidas).

“[Espero que] os jovens se vejam espelhados nesse nível e sabiam que não precisam parar de praticar esportes [só] porque estão pensando em fazer a transição. Você pode ser seu eu autêntico e competir.”

“Ser o seu eu autêntico exige uma coragem incrível.”

Mosier não é só atleta. Ele é um defensor de atletas transgênero como ele. Ele fundou o TransAthlete.com, um site dedicado a educar e ajudar atletas trans, e é diretor executivo da GO! Athletes, uma rede de apoio para atletas LGBT. Ele sabe que a comunidade de atletas transgênero precisa de apoio e dedica sua vida a garantir que esse apoio nunca esteja em falta.

“Atletas transgênero ou atletas de gênero não-conformistas – acho que muitos deles abandonam o esporte porque as barreiras de inclusão são tão grandes a partir de um certo ponto”, disse ele. “Mas, se as pessoas conseguem vencer esse obstáculo, há espaço para elas no esporte.”

Há sinais de progresso. Este ano, Schuyler Bailar, recrutado pela Universidade Harvard como mulher, anunciou sua transição e vai entrar no time masculino no ano que vem.

“É importante ter em mente que todo mundo já nasce diferente.”

Uma das maiores discussões que envolvem atletas transgênero é a questão sobre a participação deles em competições contra aqueles que têm a mesma identidade de gênero. Mas Mosier acredita que o debate ignora uma verdade óbvia. Ninguém nasce igual. Todo mundo é diferente, com vantagens inerentes um em relação ao outro.

“Os humanos nascem com várias habilidades”, disse Mosier. “Temos homens muito altos que vão para a NBA, e temos Michael Phelps e sua enorme envergadura, que lhe dá uma vantagem sobre os outros [nadadores]. Nascemos com essas vantagens e acho que as pessoas não levam em conta que existe uma grande variação nas habilidades dentro de um mesmo gênero. As pessoas usam a compleição física como desculpa para impedir que os trans participem de certos esportes ou compitam dentro de certos gêneros.”

“As pessoas precisam ter em mente que todo mundo tem composição genética diferente, que [por exemplo] há mulheres cisgênero que têm mais testosterona que mulheres transgênero”, continuou ele. “É importante ter em mente que todo mundo já nasce diferente e que os trans deveriam poder competir em esportes.”

Ainda existem barreiras potenciais para a participação de Mosier no mundial da Espanha. Ele recebe injeções de testosterona, como muitos homens trans, e tem de fazer vários testes para garantir que seus níveis do hormônio não são muito maiores que o de um homem típico. Antes de competir com a equipe americana, a Agência Mundial Anti Doping vai ter de autorizar sua participação no evento.

“O site [da agência antidoping] não tem informação nenhuma sobre a inclusão de trans”, disse ele. “Se eles usarem as regras do Comitê Olímpico Internacional... não poderei competir. E será mais um round da história.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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