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04/07/2015 19:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

10 coisas que você precisa saber sobre a crise grega

Christopher Furlong via Getty Images
ATHENS, GREECE - JULY 03: Supporters of the 'Yes' campaign attend a rally and listen to speeches at the Olympic Stadium in preparation for Sunday's referendum on July 3, 2015 in Athens, Greece. The 'Yes' and 'No' supporters in Greece are holding major rallies in Athens today ahead of Sunday's referendum on an international bailout terms. (Photo by Christopher Furlong/Getty Images)

A semana foi dramática para a Grécia. O prazo para pagar ao FMI uma parcela da dívida passou, e não houve acordo em uma tentativa de um novo pacote de salvamento. A Grécia está em terreno desconhecido.

Enquanto a Grécia e seus credores internacionais continuam a debater sobre os termos de um acordo, os gregos, preocupados, fazem fila diante de bancos fechados, sem ter certeza do que vai acontecer com seu dinheiro, sua moeda e seu país.

Eis dez coisas que você precisa saber para entender o que acontece na Grécia:

A crise começou anos atrás

O primeiro pacote bilionário de salvamento veio em 2010, meses depois de o país anunciar que não tinha mais condições de pagar suas dívidas. Determinados a salvar o país do colapso, o Fundo Monetário Internacional, os governos do países da zona do euro e o Banco Central Europeu – a chamada troika – ofereceram um total de 240 bilhões de euros em duas rodadas, em troca de uma série de reformas, incluindo cortes de gastos e aumento de impostos.

Embora os recursos tenham evitado um colapso financeiro do país e um possível abandono do euro, os gregos não viram uma recuperação completa da economia, e muitos foram duramente atingidos pelos cortes de gastos.

Em janeiro, o partido de esquerda Syriza chegou ao poder com promessas de renegociar as condições do empréstimo e de atenuar as políticas de austeridade. Enquanto isso, o prazos de pagamento dos pacotes de salvamento continuaram correndo.

E se agravou nos últimos meses

Em fevereiro, a Grécia e a troika concordaram em estender o financiamento emergencial por quatro meses e em renegociar as condições de pagamento das dívidas. Os negociadores gregos que participaram das conversas queriam desbloquear uma parcela de 7,2 bilhões de euros de que Atenas precisava para pagar 1,6 bilhão de euros devidos ao FMI em 30 de junho. Os credores, por sua vez, exigiram novas metas de superávit orçamentário e mais reformas para liberar o dinheiro.

No último fim de semana, as negociações travaram. O premiê grego, Alexis Tsipras, rejeitou a oferta final dos credores, mas pediu ao BCE uma extensão de emergência além do dia 30, para que a proposta dos credores fosse colocada a voto popular. O Banco Central Europeu recusou a ideia, e a Grécia anunciou que não teria condições de fazer o pagamento ao FMI.

Mas calma. O que aconteceu com o dinheiro do pacote de salvamento?

Embora as duas injeções de recursos tenham evitado um potencial calote grego, a maioria do dinheiro não foi para o país. Segundo o site grego Macropolis, somente 11% dos recursos foram usados em serviços governamentais.

Grande parte do dinheiro foi usada para pagar credores privados que tinham papéis da dívida grega e os mesmos credores que haviam emprestado dinheiro ao país.

“Na verdade foi mais um resgate de instituições financeiras do norte da Europa, que estavam expostas à Grécia”, disse ao The World Post Vicky Price, conselheira econômica chefe da empresa de análises Centre for Economic and Business Research.

A Grécia perdeu o prazo de terça-feira

Na terça-feira (30) à noite, a Grécia perdeu o prazo de pagamento de 1,6 bilhão de euros para o FMI, tornando-se o primeiro país desenvolvido a deixar de honrar seus compromissos com o fundo.

O FMI declarou que a Grécia estava atrasada no pagamento. Embora isso signifique tecnicamente um calote, a organização evitou oficialmente usar essa palavra – o que teria enviado um forte sinal de alerta sobre a Grécia para os países da zona do euro e para os credores.

O FMI também disse que consideraria o pedido de última hora da Grécia para estender o prazo, mas o processo deve durar várias semanas.

E tem mais dívidas a pagar

A Grécia ainda tem uma longa lista de dívidas que vão vencer nos próximos meses, e a perda do prazo do FMI sugere temores de que o país também não consiga pagar os outros credores.

Um dos próximos vencimentos é um pagamento de 3,5 bilhões de euros para o BCE, em julho. Os bancos gregos dependem do programa de empréstimos emergenciais do BCE para manter-se solventes, e o banco pode cortar a ajuda se a Grécia não honrar seus compromissos. O risco de calote se anuncia mais uma vez.

Mas um novo salvamento não está descartado.

A troika rompeu as negociações no final de semana, depois de Tsipras anunciar o referendo sobre os termos do programa de salvamento – pedindo que seus compatriotas votem “não”. Mas a contenda segue.

Embora a Grécia não tenha mais acesso a pacotes de salvamento depois do prazo vencido na terça, o governo ainda tenta fazer um novo acordo. Na quarta-feira (1), Tsipras disse que aceitaria o acordo com pequenas mudanças, mas a Alemanha respondeu que as concessões eram poucas e vinham tarde demais.

E não, a Grécia não vai sair automaticamente do euro

A tão-falada “Grexit” -- a saída do país da zona do euro – é um dos resultados possíveis da crise. Se os cofres do país ficarem vazios, pode fazer sentido para a Grécia voltar à sua moeda pré-euro, a dracma, e sair da zona do euro.

A Grécia também pode ser forçada a sair por outros líderes europeus, preocupados com o efeito cascata do caos econômico. Isso nunca aconteceu antes, e a zona do euro não tem regras explícitas para essa situação. Ainda está pouco claro como as coisas aconteceriam.

Mas há várias outras saídas possíveis. Pode haver um novo acordo de salvamento. A Grécia pode convencer outros credores a mantê-la solvente. Mesmo que o dinheiro acabe, a Grécia pode continuar na zona do euro, lançando uma moeda paralela ou notas promissórias, para fazer seus pagamentos domésticos.

Enquanto isso, a austeridade e a incerteza cobram um preço alto

A economia grega está destruída. Um milhão de empregos foram perdidos em seis anos. A economia do país encolheu mais de 25% entre 2009 e 2013. A Grécia agora tem as mais altas taxas de desemprego da União Europeia: uma em cada quatro pessoas está desempregada; metade dos jovens está sem trabalho. A Grécia também é o único país europeu em que houve queda no salário mínimo.

Esta semana trouxe mais caos

Na segunda-feira (29), os bancos e a Bolsa de Valores do país ficaram fechados, porque as autoridades temiam uma corrida aos bancos. Supermercados e postos de gasolina estão desabastecidos. Aposentados não receberam o pagamento de suas pensões.

E o futuro promete mais incertezas.

Os economistas alertam que sair da zona do euro pode significar uma inflação fora de controle . Continue ou não no euro, a crise econômica vai significar mais perda de empregos, pensões e economias, acabando com a confiança de longo prazo no sistema financeiro. Alguns analistas veem risco de tensão social e instabilidade política se a economia grega entrar em colapso.

É mais difícil prever o impacto no resto mundo. Embora a maioria dos economistas acredite que o impacto fique restrito à Grécia, a incerteza pode causar rupturas nos mercados financeiros e abalar a confiança no euro.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.