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03/07/2015 16:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

A crise no País não é responsabilidade da Dilma, diz Lula

Montagem/Estadão Conteúdo

Diferente da postura crítica que vinha adotando em relação à administração da sucessora e afilhada política, Dilma Rousseff (PT), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu nesta sexta-feira, (03) em defesa da presidente da República em discurso realizado na 5ª Plenária Nacional da Federação Única dos Petroleiros (FUP).

"A crise no País não é responsabilidade da Dilma", disse Lula, responsabilizando o cenário externo pelas dificuldades que o Brasil enfrenta na área econômica.

Segundo ele, a presidente irá “arrumar o Brasil”. O petista também recomendou a presidente que adote a mesma estratégia dele na crise do escândalo do mensalão e viaje o País.

"É isso que Dilma vai fazer, ela conviveu comigo durante muito tempo e sabe que nas horas difíceis não há alternativa a não ser encostar a cabeça no ombro do povo e conversar com ele.”

Inflação

Ao falar sobre a economia brasileira, o ex-presidente disse que acompanha "certo pânico das pessoas com a perspectiva da inflação chegar à casa dos 9%" - a inflação corrente de doze meses, até o mês de maio, está em 8,47%, e a expectativa, segundo a última pesquisa Focus, é que o índice feche 2015 em 9%. Para Lula, apesar de muita gente ganhar com a elevação deste índice, a alta da inflação acaba prejudicando quem vive de salário.

"Tem gente que ganha muito, mas o trabalhador, não." E, dirigindo-se à plateia formada por petroleiros, voltou a defender a afilhada política: "Tenho certeza que Dilma tem obsessão em trazer a inflação para o centro da meta, e ela está tomando as atitudes certas para isso." E lembrou que, quando assumiu o seu primeiro mandato, depois do governo do ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso, herdou uma inflação de 12%.

Eleições 2014

Lula culpou a oposição por não querer aceitar o resultado das urnas, nas eleições presidenciais de outubro do ano passado.

"Ganhamos as eleições numa disputa aguerrida e agressiva, a sociedade brasileira deu a vitória à presidenta Dilma e nossos adversários parecem que não querem aceitar o resultado até hoje. Ninguém perdeu mais eleição do que eu e todas as vezes acatei o resultado, eles resolveram não acatar. Nunca vi tanta agressividade à instituição Presidência da República como estou vendo agora", disse.

Ainda na defesa de Dilma, Lula frisou que jamais viu tanta agressividade dirigida a ela. "Achei sempre que o problema era comigo, por ser nordestino e sem diploma universitário. Nunca vi tanta agressão como a que a companheira tem sofrido. Peço a Deus para ela não perder a tranquilidade.”

Agenda positiva

Lula reconheceu, em outra parte do discurso, que o País vive tempos difíceis, mas garantiu que a presidente irá arrumar o Brasil, citando a agenda positiva que a presidente da República vem adotando desde o mês passado, como o acordo com a China, a viagem aos Estados Unidos, os investimentos em infraestrutura. "Além de outras medidas que ela vai anunciar em breve, como mais três milhões de casas do Minha Casa, Minha Vida (MCMV), e o Pátria Educadora, um programa revolucionário para este País.”

O ex-presidente insistiu que a presidente adote a estratégia de ir às ruas e disse que ele mesmo também prepara uma agenda, com ajuda da equipe de seu instituto, para viajar pelo País. Ele disse que ficar em gabinete em Brasília "esperando" serve apenas para ouvir reclamações e pedidos de políticos.

"A Dilma, diante de todas as coisas que ela tem que fazer, tem que priorizar andar por esse País, tem que botar o pé na estrada, em vez de ficar na televisão e na internet ouvindo pessoas falando mal dela", afirmou.

Em outro momento o petista reconheceu que este será um ano difícil. "Por isso o País precisa da mobilização dos petroleiros", disse, reiterando que, além da mobilização dos trabalhadores, o governo Dilma e seus ministros também precisam sair às ruas para conversar com o povo. "É isso que Dilma vai fazer, ela conviveu comigo durante muito tempo e sabe que nas horas difíceis não há alternativa a não ser encostar a cabeça no ombro do povo e conversar com ele.”

Criador e criatura

Na defesa do ajuste fiscal promovido pela gestão Dilma Rousseff, Lula defendeu mais uma vez a afilhada política. "Estou convencido que Dilma será motivo de orgulho até o final do mandato dela. Ela ajudou a construir este meu sucesso, devo muito à companheira Dilma. Se nosso governo enfrenta problemas, temos de dizer que ela não está sozinha e que ela tem que fazer o melhor governo porque o País precisa disso", disse, emendando que uma das maiores qualidades da sucessora é ter chegado sem mágoas à Presidência, depois de ter sido torturada aos 20 anos.

No final do discurso, sem citar diretamente o projeto do senador tucano José Serra (SP), que revoga a obrigação de a estatal ser a operadora única e ter participação mínima de 30% na exploração do pré-sal, Lula disse que é preciso defender a empresa e mostrar ao País que não é preciso trazer empresas estrangeiras para fazer o que a estatal sabe fazer de melhor.

Petrobras

Além de defender Dilma e conclamar os petroleiros a fazerem o mesmo, Lula disse também que é fundamental defender a própria estatal. "A Petrobras não é só corrupção, é uma empresa respeitada mundialmente e muito importante." Ele comparou a situação da Petrobras com times de futebol brasileiros. "Uma empresa desse tamanho é que nem o Flamengo, está ruim agora, mas tem recuperação. Ou que nem meu Vasco, que está ruim, mas pode melhorar", afirmou.

Lula disse ainda que uma empresa "do tamanho da Petrobras" não pode ser associada à palavra crise. "Uma empresa que tem o potencial que tem a Petrobras devia ter uma placa de 'proibido usar a palavra crise'. Essa empresa tem o futuro garantido.”

Lava Jato

Para Lula, há um vazamento seletivo de investigações policiais e ele tem endereço certo: ou é para pegar alguém ou para pegar algum partido político. Sem citar diretamente a Operação Lava Jato, que investiga esquema de corrupção na Petrobras e se o PT recebeu dinheiro de propina em suas doações, o ex-presidente petista disse: "Denunciei isto em dezembro para o Ministério da Justiça, a pessoa só pode ser chamada de ladrão quando ficar provada (a culpa), não se pode criminalizar uma pessoa antes de ela ser julgada.”

Maioridade penal

E, falando da polêmica em torno da PEC que reduz a maioridade penal no País, Lula se posicionou contrário à medida, assim como o governo. "É uma irresponsabilidade querer jogar nas costas de meninos de 16 anos a responsabilidade de coisas que os governos estão deixando de fazer. Não se acaba com a violência colocando moleques na cadeia.”