MULHERES
29/06/2015 10:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

A cabala é para todos, não apenas para Madonna e outros famosos

O maior professor de cabala de Londres receia que o fato de celebridades terem seus nomes ligados a essa disciplina milenar pode fazer com que ela pareça um modismo, diluindo a importância de sua contribuição para as pessoas comuns.

Marcus Weston, que há mais de dez anos estuda e ensina cabala no London Kabbalah Centre, disse ao HuffPostUK:

“Quando alguém fala em cabala, a primeira reação que se ouve é ‘Madonna’ e ‘pulseirinhas de fita vermelha’. As pessoas não falam dos 4.000 anos de impacto social da cabala, do fato de ela ter sido estudada por Platão e Aristóteles, Newton e Galileu, Jesus e Maomé. Essa tag de ‘celebridade’ faz com que ela pareça um modismo e corre o risco de diluir a cabala.”

A dedicação de Madonna chamou a atenção pública para a cabala

Apesar disso, Marcus entende muito bem por que astros e estrelas como Madonna, Demi Moore, Naomi Campbell, Mick Jagger e outros se rendem à cabala, descoberta originalmente quatro milênios atrás em um livro de três páginas que prometia um código de sabedoria e a chave para o entendimento da natureza da espiritualidade universal.

“Sempre rio dessa coisa das celebridades”, fala o professor. “A maioria das pessoas acha que fama e riqueza são um verdadeiro conto de fadas. Rimos das celebridades, curtimos os tombos delas e assim nos sentimos melhor ou pior com a nossa própria sorte. Mas as coisas que acompanham a fama podem gerar grande destruição.

“Pensamos que a vida dos famosos é maravilhosa, mas por trás daquelas cortinas se escondem muitos problemas, muita escuridão. E muita felicidade é construída externamente, baseada no reconhecimento e na popularidade. Para quem depende dessas coisas, é uma vida inconstante, e em algum momento da vida a pessoa tem que encarar a realidade, ela enxerga a fachada, percebe que alguma coisa está faltando. É nesse momento que as pessoas começam a buscar outra coisa, e essa busca leva muitas até nós.”

Marcus dá uma aula no centro Kabbalah em Londres

Apesar da atração que a cabala exerce sobre muitas celebridades, Marcus faz questão de destacar que ela tem alguma coisa a oferecer a todas as pessoas, não apenas aos famosos, e diz não se surpreender pelo fato de a disciplina ter visto sua popularidade crescer tremendamente nos últimos 12 meses.

“As pessoas nos procuram por inúmeras razões diferentes. Algumas vêm trazidas por um amigo. Algumas pessoas querem ampliar sua compreensão. Algumas são curiosas. Outras acham que é uma comunidade incrível. Há quem goste de se voluntariar. Cada pessoa tem razões diferentes, e essa é a natureza da comunidade da cabala: o ecletismo. Temos muitas pessoas voltadas à mesma coisa, então é um lugar onde as amizades se constroem de modo orgânico.

Mais de 90% das pessoas chegam através de um amigo. Isto daqui é uma bola de neve que não para de crescer.”

Estou me referindo à cabala vagamente como uma “disciplina”, mas o que é exatamente a cabala e o que ela envolve? Parece ser algo muito amplo.

Marcus explica: “Algumas aulas são de relações práticas de negócios, outras incluem a quiromancia mística; algumas são profundas, buscando textos da antiguidade para explicar a vida moderna. Algumas são pessoais, sobre beleza, algumas são baseadas em textos antigos, que explicamos, mostrando sua relevância prática para o dia a dia.

É apenas uma hora por semana e lhe dá alguma coisa sobre a qual refletir durante a semana. Então, por exemplo, em vez de olhar para a pessoa do escritório que você detesta, você pode acabar olhando dentro de você mesmo para entender a razão dessa reação.

A lição de casa é um discurso internalizado, encontrar sua responsabilidade para a semana – alguma coisa mais filosófica, que possa ser aplicada a alguma coisa em sua vida.”

Ariana Grande usa a fitinha vermelha da cabala no pulso, uma proteção contra a inveja e o mau-olhado

Mais ou menos qual é o custo? “Tentamos reduzir os custos ao máximo. A aula inicial é gratuita e o primeiro curso dura dez semanas. Sai por cerca de £7 (35 reais) a sessão.”

E o que é a cabala, numa definição resumida?

“Não é uma disciplina religiosa, mas espiritual”, diz Marcus. “A cabala pode acompanhar a fé ou pode ser independente dela, levando insights práticos para ajudar as pessoas a aproveitar a vida melhor, olhando em seu interior. É um sistema de estudos que ajuda a pessoa a assumir mais controle de sua vida, a ajuda a comportar-se melhor nos relacionamentos, lhe dá um sistema para indagar o sentido da vida, ajudando-a a alcançar maior sucesso.”

Como sabemos, algumas organizações de autoaperfeiçoamento adoram reivindicar status religioso, merecido ou não. Mas Marcus faz questão de destacar que a cabala não é uma igreja.

“O que nos diferencia de uma igreja é nossa ênfase sobre o desenvolvimento pessoal, ao invés da crença igual para todos. A cabala promove a autoconsciência, a consciência comunitária e a liderança global, levando você a empreender uma jornada muito pessoal.”

Sempre existe o medo de que uma organização como essa, que oferece algo tão diversificado e altamente aberto a interpretações, além de contar com seguidores que são celebridades brilhantes, possa propiciar um certo sentimento de superioridade entre aqueles que deveriam liderar. Não posso falar por todos os que conduzem a cabala, mas a humildade de Marcus é nítida e perceptível, especialmente quando descreve sua própria trajetória, que o levou do ambiente endinheirado da City londrina para a sala de aula onde o encontramos.

Em suas próprias palavras, ele tinha chegado a um beco sem saída.

“Eu tive sorte. Alguém me falou: ‘Você é tão ágil com seu intelecto, mas vive em guerra com pessoas, concorrentes, empregadores. Talvez haja alguma coisa em seu interior que você precise superar.’

O conceito era intrigante. Fui a uma aula de cabala e fiz uma reviravolta nos meus relacionamentos e meu trabalho. Comecei a trabalhar como voluntário, e em pouco tempo tive que fazer uma escolha.

Tive que optar entre ganhar muito dinheiro e ajudar muitas pessoas. E, desde aquele dia, não olhei mais para trás. A cada dia eu sinto que estou transformando alguma coisinha no mundo e encontrando pessoas de todos os setores da sociedade.”

Conversar com Marcus é algo que acalma profundamente, então posso imaginar como suas aulas devem ter um efeito tranquilizador. Mas acho que talvez ainda demore um pouco para a palavra “cabala” transcender por completo sua ligação com Madonna e sua pulseirinha vermelha.

Ah, eu quase ia esquecendo de perguntar: para que serve a pulseirinha vermelha? É uma prova de que a pessoa é membro de elite desse clube universal?

Marcus dá risada: “Não é uma etiqueta, é o contrário – a pulseirinha combate a inveja e o mau-olhado”.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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