Homem na Agulha: Porque não tem nada de errado em ser homem e fazer tricô e crochê

Duas agulhas e uma ideia na cabeça: reaproximar os homens do bordado.

A primeira vez que Thiago Rezende se dedicou às linhas e lãs foi durante um trabalho para a faculdade de artes visuais, pouco mais de seis anos atrás. O crochê só viria em março de 2012, por conta de uma exposição de design em que ele participou no SESC Pompeia, na zona oeste de São Paulo. Daí para criar o projeto Homem na Agulha e sair por aí com aulas práticas – que ele gosta de chamar de intervenção – foi tudo muito rápido.

O Thiago é esse aí da parte inferior da foto. E esse "tapetão" é uma das obras dele

Contestar a imagem de que a atividade é feminina não estava no pacote inicial. A ideia era explorar o trabalho manual e usá-lo para criar arte e peças de decoração.

Mas olhares desconfiados surgem quando Thiago Rezende retira as agulhas enormes da sacola, se senta numa praça e passa fazer os pontos das peças.

Ele jura que nunca passa disso. Em geral, mesmo os homens, sentem-se à vontade com a função com poucos minutos. “Em Jacareí, teve um dia com dez homens por lá. Em meia hora eles pegaram o jeito e perceberam que é gostoso. Que é uma bobagem ficar com isso de ‘atividade para homem’ e ‘atividade para mulher’”.

No começo, o tricô era uma coisa meio solitária para o Thiago

Pode parecer coisa nova, mas Thiago não inventou a roda. O espanto é parte de um componente cultural. Se a imagem mais comum para boa parte das pessoas é a da avó bordando, é bom lembrar que ainda há muitos lugares onde são os homens os artesãos. Bordar era, aliás, coisa para homem inicialmente. Segundo a revista portuguesa Magazine, a coisa é bem antiga:

Ninguém sabe como ou onde surgiu o tricô, apesar de as peças mais antigas – datadas de 1200 d.C. e feitas em ponto meia, um dos mais básicos – terem sido descobertas no Egito, entrelaçadas com a ajuda de agulhas de osso ou madeira. Já nessa altura eram os homens que tricotavam, usando o fio que as mulheres produziam manualmente com a roca de fiar.

O Luiz (dir) chegou para dar um novo gás no Homem na Agulha

Luiz Cambuzano é amigo de Thiago de longa data. Os dois trabalharam juntos em exposições no SESC anos atrás. Mas agora perambulam juntos para divulgar o trabalho e o bordado. Santo André, São Paulo e Jacareí já foram visitadas. Outras tantas cidades estão por vir. Em Portugal, por exemplo, os homens já começaram a quebraram essa barreira. Por que não funcionaria aqui? E ao que parece, a atividade é terapêutica e capaz de beneficiar corpo e a mente.

O Brasil Post conversou com os dois homens da agulha sobre um pouco disso tudo:

Brasil Post: Como é que funciona o trabalho e de onde veio a ideia?

Felipe: O Thiago começou a ser chamado para fazer intervenções. A gente chama de intervenção essa uma ação de tricotar num determinado lugar. Porque as pessoas não tem hora para chegar nem para sair. Também não tem exatamente o que aprender. A pessoa dispõe o tempo que ela tem. Se a pessoa já souber (tricô ou crochê), pode chegar e fazer no tempo que ela tiver. Se não souber, a gente ajuda, ensina, conversa... Tenta fazer ela entender e se interessar. Como esse material que as pessoas criam durante a intervenção, produzimos um objeto. Mas é um objeto mais artístico mesmo. Não é um roupa, uma colcha, um tapete.

O Thiago tem agulhas do tamanho de cabos de vassouras. A ação performática é feita para chamar a atenção mesmo. Também tem o fato de ser homem. Isso sempre chama a atenção das pessoas e o desejo de discussão em torno desse trabalho.

De onde nasceu a ideia e o nome do projeto? Tem um certo estigma que diz que tricotar é coisa de mulher?

Thiago: Aprendi a fazer crochê e tricô e acabei me especializando em crochê porque ele é mais versátil. Dá para criar desde formas tridimensionais até trabalhos planos. Mas foi estranho até para mim. Já era artista plástico e me formei em 2009. Trabalhava e tudo. Só em 2012, quando comecei a fazer um pouco de crochê. Experimentava os pontos e eu mesmo me achava estranho segurando aquela agulha. É tido como uma coisa muito feminina. Depois me acostumei a aprendi a usar bastante no meu trabalho. E passei a inserir o crochê e o tricô na minha produção de arte.

E como é para os homens que se aproximam de vocês?

Thiago: Hoje percebo que para as pessoas é o mesmo que aconteceu comigo. Primeiro é estranho, mas depois eles percebem que não tem influência alguma. Eles percebem que a gente não está brincando de fazer crochê. Uma coisa que sempre falo nas intervenções é o quanto é cultural. Se você nasce numa cidade que o homem faz tricô você não pensa nisso. Antes, o homem fazia o crochê e a mulher fazia o fio. Depois isso foi mudando, mas ainda há cidades com muitos artesãos. Se você cresce numa cidade dessas não é novidade nenhuma. Mas em São Paulo ainda tem essa coisa do estigma.

A arte segue como uma base importante no processo todo

E vocês já ouviram alguma bobagem? Foram vítima de algum tipo de preconceito?

Thiago: Nunca sofri preconceito de forma nenhuma. Até porque tenho uma cara mais marrenta, de mau (risos). Em Jacareí, tivemos uma intervenção com dez homens por lá. Em meia hora eles pegam o jeito e percebem que é gostoso e que é uma bobagem ficar com isso de “atividade para homem” e “atividade para mulher”.

E o que vem por aí? Para onde vai o Homem na Agulha?

Thiago: A marca existe desde 2012 (são feitos objetos e ítens de decoração, que vão de capas para abajur a pequenos animais de lã). As intervenções começaram no ano passado. Existe um interesse masculino. Vários amigos dizem que querem aprender. O próximo passo é criar um grupo para ensinar essas pessoas. Um grupo só com homens. Se criar um grupo unissex vai ter cara que não aparece, que se envergonha. Se ficar só marmanjos as pessoas ficam mais confortáveis. A ideia é essa. Juntar 15 pessoas e fazer uma tarde no parque ou um happy hour. Sair, tomar um pouco de cerveja e ensinar a bordar.