COMPORTAMENTO
25/06/2015 10:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

Por que os homens não usam o sobrenome da esposa, na opinião dos que usam

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zoa saldanha

Nos dias anteriores ao seu casamento, em junho, Joshua Walker estava ocupadíssimo com a logística que normalmente antecede um evento desse tipo – como sentar para falar com o DJ e ajudar os amigos a planejarem a sua viagem de núpcias. Mas quando Walker conversou com o The Huffington Post, dias antes de encarar sua família e amigos no compromisso de uma relação para a vida toda, ele também estava tentando decidir se ele e sua noiva iriam, de fato, casar-se legalmente ao trocarem os votos.

Depois de várias conversas confusas com o cartório de Nebraska e com vários advogados, o casal estava contemplando dar uma escapada até o cartório na vizinha Iowa, após a cerimônia, onde seria muito mais fácil a papelada relacionada com o casamento.

Toda essa burocracia porque Walker, um mecânico de 28 anos, esperava fazer o que muitas mulheres fazem todos os dias no país: usar o sobrenome do seu cônjuge.

Como prova de que ainda é radical homens usarem o sobrenome da esposa, nós não precisamos ir muito longe, basta olharmos as centenas de manchetes que a atriz Zoe Saldana provocou ao anunciar que seu marido usaria o sobrenome dela, juntando-se a um pequeno grupo de celebridades do sexo masculino, como Shawn Knowles-Carter e Jack White. (Saldana mais tarde esclareceu que ela e seu marido tinham, os dois, usado os sobrenomes um do outro). As reações a essa notícia causaram comoção - uma mistura de elogios, incredulidade e zombaria - que pedem a pergunta: como é estar em um grupo tão pequeno de homens, neste país, que contrariam as tradições de nomes conjugais, tornando-se o Sr. Escreva-o-Sobrenome-da-Esposa-Aqui?

Há pouco dados, bons e concretos, sobre quantos homens nos Estados Unidos, de verdade, usam os sobrenomes de suas esposas, mas os especialistas dizem que é raro - tão raro que "qualquer pesquisa teria problemas para identificá-los", disse ao HuffPost Laurie Scheuble, professora de sociologia sênior na Universidade Estadual da Pensilvânia, que estuda o assunto.

Na ausência de números concretos, as pesquisas têm tentado capturar se as atitudes em relação ao nome de casado têm se tornado mais simples e reais.

Esmagadoramente não têm.

"Eu tenho realizado pesquisas sobre a escolha de sobrenomes desde a década de 80, e fiz uma pesquisa a cada 10 anos ou mais. Nos anos 80, eu recebia respostas muito arrogantes dos homens participantes à pergunta: "Você consideraria ‘acrescentar’ o sobrenome de sua mulher ao seu? Alguns eram realmente bastante rudes", disse Donna Lillian, linguista da Universidade Estadual dos Apalaches. "Em meados dos anos 90, talvez eles fossem menos hostis e em uma pesquisa de 2006, a mesma coisa. Mas você ainda podia contar, usando menos do que os dedos de uma mão, quantos homens - a partir de uma amostra de cerca de 3000 - expressavam ao menos a vontade de considerar a questão."

Em uma pesquisa, no mês de junho, com 1000 adultos entrevistados pela YouGov, para o The Huffington Post, apenas 7 por cento deles disseram que seria "ótimo" se o homem usasse o sobrenome da esposa quando ele se casasse; 30 por cento disseram que era "bom" e 40 por cento que era "um pouco estranho" - embora a pesquisa revelasse uma maior abertura à ideia entre os entrevistados mais jovens. Dezesseis por cento dos jovens entre 18 e 29 anos disseram que era ótimo que o homem usasse o sobrenome da esposa, em comparação com zero por cento de pessoas acima de 65 anos.

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Uma barreira que precisamos quebrar é simplesmente o desafio logístico associado ao homem que muda seu nome, razão pela qual Walker - que espera se tornar Erixon - ainda estava lutando para entender como mudar seu nome apenas alguns dias antes do seu casamento.

"Há apenas alguns estados específicos que permitem que os homens usem a certidão de casamento para mudar seus nomes, e se o homem não vive em um desses estados, ele tem que passar pelo processo legal de mudança de nome, que é demorado e caro", disse Danielle Tate, fundadora e CEO da Miss Now Mrs. (“Srta. Agora Sra.”, em tradução livre), um site que ajuda os recém-casados no processo de mudança de nomes. Califórnia, Georgia, Hawaii, Iowa, Illinois, Louisiana, Massachusetts, Nova York e Dakota do Norte são os únicos estados que permitem que os homens mudem seus nomes usando apenas a certidão de casamento, disse ela, enquanto as mulheres podem mudar legalmente seu sobrenome, basta escrevê-lo na certidão de nascimento em qualquer dos 50 estados, sem "nenhum problema".

Mas os especialistas dizem que os obstáculos reais têm muito mais a ver com as expectativas de gênero entrincheiradas nas relações heterossexuais. Há pouca ou nenhuma representação na cultura pop sobre maridos que usaram os nomes das esposas, e apenas algumas celebridades têm chamado a atenção para a prática.

"Trata-se apenas de como socializamos homens e mulheres", disse Scheuble. "Quando pergunto aos meus alunos: ‘Quando você estava na escola secundária, você já praticava escrever o seu primeiro nome com o último nome da pessoa que você realmente gostava?’ Os homens riam de mim, mas as mulheres todas diziam: 'Sim, eu fazia isso.'"

"Usar o nome da esposa é uma violação às normas para os homens", continuou ela." As pessoas vão chamá-los de pouco viris e, na nossa sociedade, isso é um enorme insulto. Eu acho que a mudança vai ser muito lenta."

Walker, por exemplo, disse que embora muitas pessoas, para quem ele contou sobre sua decisão de tomar o nome de sua esposa, tenham sido muito abertas à ideia, ele definitivamente encontrou pessoas que questionaram o que isso dizia sobre as dinâmicas de poder no relacionamento.

"Eu ouvi piadas do tipo 'Ela é quem usa as calças?’”, disse ele “Ela tem as suas bolas na mão?”

"Não foi ela que se aproximou de mim e disse: 'Isto é o que está acontecendo. É assim que vai ser", continuou ele, acrescentando que ele sentia que era importante para sua esposa passar o nome da família dela para as gerações futuras. "Ela argumentou; eu tive a chance de dizer que não... quando eu enfrento hostilidades sobre isso eu penso que, 'por que? Por que isso é um grande problema? Isto não tem nada a ver com ninguém além de nós.’"

Uma mulher contou ao HuffPost sobre uma história - cujo marido recentemente tomou seu sobrenome depois de 13 anos de casados – ela pediu que apenas os seus primeiros nomes fossem usados, pois o casal ainda não tinha contado à família e amigos e se preocupavam com as reações.

"Não é que nós estivéssemos com vergonha, de jeito nenhum", disse Sarah, de 33 anos, explicando que ela tinha originalmente usado o nome do marido quando eles se casaram, nos primeiros 20 anos, mas ela nunca sentiu como se fosse realmente dela. Depois que ela voltou a usar seu nome de solteira, o marido decidiu - sem o conhecimento dela - que ele queria usá-lo também.

Apesar de Sarah e seu marido estarem felizes com o novo nome, pelo menos em parte pois eles acreditam que é mais emblemático na relação de igualdade, eles se sentem inseguros pois não sabem como os outros vão receber isso. O marido de Sarah inicialmente não contou a ela que estava mudando de nome porque ele queria que ela fosse capaz de dizer às pessoas que ela não o coagiu, mas no início ela não estava sequer ciente de seus planos. Sarah se preocupa com as patadas que ele vai levar, especialmente depois que um conhecido no Facebook, que ouviu falar sobre a mudança de nome, lhe perguntou se seu marido também planeja usar uma coleira de cachorro.

Mesmo casais que seguem o caminho mais familiar do acréscimo de sobrenomes dizem que enfrentam críticas ocasionalmente. No quinto aniversário de casamento, Kurtis e Deidra Greene-Richards, ambos 35, juntaram oficialmente os seus nomes, em parte porque parecia estranho para os filhos terem apenas o sobrenome do pai, que de certa forma parecia sugerir que a história da família Kurtis era mais importante do que a de sua esposa.

"Quando eu comecei no meu trabalho, nós não tínhamos feito a mudança ainda, então a maioria das pessoas me conhece ainda como Richards. Só quando eles veem no meu perfil do LinkedIn é que começa a conversa. [As pessoas dizem:] 'Seu nome é com hífen? É interessante. Isso é muito legal – conta como foi", disse Kurtis. "Mas eu já lidei com pessoas que desafiaram a minha masculinidade. Eles diziam: 'Por que você usou o sobrenome da sua mulher? Os homens não fazem isso."

"E essa pergunta veio de uma mulher", acrescentou.

No entanto, a maioria dos casais entrevistados para esta reportagem informaram que eles também viveram pelo menos uma situação que os fez se sentirem como se fossem os primeiros a adotarem o que vai ser um dia uma prática comum (e Saldana mesmo usou o Facebook para expressar seus sentimentos de que os homens que usam os nomes das mulheres serão lembrados pelas gerações futuras como os homens que "defenderam a causa da mudança").

Quando Jessica Sheldon, 24, e Casey Arredondo, 27, enviaram os convites para seu casamento recentemente, eles anunciaram a intenção de criar um novo sobrenome, uma combinação de ambos os sobrenomes, pedindo aos convidados para comemorarem com eles por se tornaram "Mr. and Mrs. Arreldon." ("Foi muito importante para mim ter algo misturado", disse Jessica.)

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Convite de casamento de Jessica e Casey

Vários membros da família sentiram-se "hesitantes" sobre a mudança de nome, disse Casey, e vários membros de sua família não apareceram para o casamento por causa disso. Jessica acrescentou que as pessoas deram uma importância muito maior por Casey ter mudado o nome do que a mudança do nome dela.

"Mas os nossos amigos nos apoiaram mesmo, eles realmente nos apoiaram", disse ela. "E quando nós falamos com eles, nós descobrimos [que vários deles] tinham discutidos opções diferentes, do tipo, será que devemos hifenizar? Ou fazer com que o homem usasse o nome da mulher? Isso é legal porque há 30 anos nós sequer teríamos uma discussão. Foi bom perceber que, pelo menos, há discussões acontecendo, mesmo que os casais acabem escolhendo a opção tradicional."

A pesquisa do HuffPost/YouGov consiste de 1.000 entrevistas completas, realizadas entre 09 e 11 de junho, feitas com adultos americanos, utilizando uma amostra selecionada de um painel online, com consentimento prévio (opt-in) do YouGov, para coincidir com os dados demográficos e outras características da população adulta dos Estados Unidos.

O Huffington Post fez uma parceria com a YouGov para realizar pesquisas de opinião diariamente. Você pode saber mais sobre este projeto e participar de outras pesquisas de opinião nacional do YouGov. Os dados de todas as pesquisas do HuffPost/YouGov podem ser encontrados aqui. Mais informações sobre a metodologia da pesquisa estão disponíveis aqui.

A maioria das pesquisas relata uma margem de erro que representa alguns, mas não todos, os erros possíveis da pesquisa. Os relatórios do YouGov incluem um modelo de margem de erro, que se baseia em um conjunto específico de suposições estatísticas na amostra selecionada, em vez de usar a metodologia padrão para amostragem aleatória estatística. Se estes pressupostos estiverem errados, a margem de erro, baseada no modelo, também pode ser imprecisa. Clique aqui para obter uma explicação mais detalhada do modelo da margem de erro.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

(Tradução: Simone Palma)