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19/06/2015 19:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

Mania de arrancar cabelos ou cutucar a própria pele é mais comum do que se imagina

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Praticar comportamentos repetitivos focados sobre o próprio corpo, como roer unhas, puxar a própria pele ou enrolar os cabelos no dedo, podem ser sinais de que você é perfeccionista. Mas como saber quando o hábito está indo longe demais?

Nada menos que um em cada 50 adultos, ou até 4% da população, sofre de tricotilomania – a compulsão de enrolar o cabelo em um dedo ou puxá-lo até quebrar.

A informação é da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos. As estatísticas relativas à dermatilomania – a obsessão por puxar ou arrancar a própria pele – são menos conhecidas.

A assistente social clínica Laura Lokers, co-fundadora do Centro de Tratamento de Ansiedade e TOC de Ann Arbor, Michigan, estima que entre 2% e 5% da população apresente algum tipo de comportamento repetitivo focado sobre o corpo.

Para enxergar esse número em perspectiva, vale lembrar que o transtorno do espectro do autismo afeta uma em cada 68 crianças, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

“A verdade é que é mais difícil conseguir cifras confiáveis sobre a dermatilomania, principalmente porque muitas pessoas escondem sua mania, dizendo que sofrem de problemas dermatológicos”, disse Lokers.

“Como ‘não, não. Eu não fico mexendo com minha pele, o problema é que tenho acne grave’. Ou ‘não, é que eu tenho eczema muito forte’.”

A dermatilomania é um transtorno altamente estigmatizado e pouco compreendido.

Por esse motivo, e apesar de milhões de pessoas sofrerem de um transtorno voltado sobre o próprio corpo, muitas pessoas não percebem que seu comportamento está descontrolado e nem sequer sabem que ele tem um nome.

Lokers explicou: “As pessoas que as cercam simplesmente dizem ‘por que você não para e pronto?’.”

É claro que não é tão fácil assim. Existem pouquíssimas fontes de apoio às pessoas que apresentam comportamentos repetitivos focados sobre o corpo (mas o Trichtillomania Learning Center é uma), e até agora não surgiu nenhum tratamento eficaz à base de psicotrópicos.

Segundo o Science of Us, os resultados dos testes clínicos feitos com Prozac, o medicamento mais testado para essa finalidade, foram inconclusivos.

E, considerando que é um transtorno tão comum, existem poucos terapeutas comportamentais especializados em tricotilomania, e menos ainda em dermatilomania.

Conversamos com Laura Lokers para saber mais.

The Huffington Post: A tricotilomania e a dermatilomania estão ligadas ao transtorno obsessivo-compulsivo?

Sei que foram reclassificadas recentemente e incluídas no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Lokers: Elas foram classificadas como transtornos relacionados ao TOC.

Portanto, não são TOC, mas achamos que, neurologicamente falando, um pouco daquela incapacidade de parar de arrancar os cabelos ou puxar a pele, mesmo quando a pessoa quer muito parar, parece fazer parte da categoria obsessiva-compulsiva.

Antigamente eram conhecidos como transtornos de controle de impulsos, mas essa era uma categoria descartável. A tricotilomania e a dermatilomania não se enquadravam nela, para começar.

Existe uma relação entre ansiedade e comportamentos repetitivos focados sobre o corpo? Qual é a relação?

A pergunta é interessante porque a ansiedade pode ser um gatilho importante para essas obsessões, mais ou menos como é o caso do transtorno de Tourette. Constatamos que quando as pessoas estão estressadas, seus tiques se agravam.

Mas também vemos pessoas que não sofrem de ansiedade nenhuma e que apresentam esses comportamentos quando estão entediadas ou até quando estão dormindo. Por isso não se tratam de transtornos de ansiedade.

Às vezes esses comportamentos são incluídos na categoria da automutilação, como cortar-se, e isso é um equívoco total. Não há evidências nenhumas disso, mas, infelizmente, é a visão de algumas pessoas.

Não é que exista alguma ansiedade profunda e que se essa ansiedade for resolvida o comportamento vai desaparecer. A maioria das evidências realmente indica que os comportamentos têm base cerebral.

Eu costumo roer as unhas quando fico estressada. Qual é o ponto a partir do qual a pessoa deveria buscar tratamento?

O mais importante a levar em conta é a intensidade e frequência do comportamento. Se você está estressada e uma vez por mês observa que está roendo as unhas um pouco mais por alguns dias, não deve ser um problema grave.

Mas se observa que isso acontece todos os dias e que você está se provocando lesões graves – inflamações, cicatrizes, esse tipo de coisa --, o comportamento está indo longe demais.

A maioria das pessoas acaba procurando tratamento porque há um custo social que vai ficando pesado. As pessoas ficam constrangidas com a aparência de sua pele, suas unhas ou seu cabelo. Às vezes elas sofrem infecções e outras complicações médicas.

Na verdade, um efeito colateral de longo prazo dessa condição é a síndrome do túnel carpal causada por puxar a pele repetidamente. Não é algo que se imaginaria de cara, mas é fruto de um comportamento repetitivo que se arrasta há anos.

Acho chocante que quase não existem apoios para o tratamento desse problema, considerando como ele é comum. Não há uma única escola de medicina nos EUA que inclua o tratamento de comportamentos repetitivos focados sobre o corpo como parte de seu protocolo padrão.

Ando vendo vídeos incrivelmente explícitos compartilhados nas mídias sociais sobre pelos encravados e pessoas apertando espinhas (veja aqui, por sua própria conta e risco). Assistir a esses vídeos pode ser qualificado como uma forma de dermatilomania?

Se a pessoa ficar assistindo aos vídeos ao ponto de não conseguir parar e de isso estar atrapalhando suas atividades cotidianas, isso pode ser descrito como comportamento compulsivo. Mas se for esse comportamento apenas, sem que elas estejam mexendo na própria pele, eu diria que não é dermatilomania.

Um dos aspectos mais interessantes da dermatilomania, a meu ver, é o fato de ser universal. Todos nós já tivemos um cravo ou espinha e pensamos “vou arrancar!”. Mas quem tem dermatilomania não consegue desligar esse impulso.

Já vi algumas pessoas quase tentando obrigar-se a substituir o mexer com a própria pele por assistir aos vídeos. Pensando “se eu assistir aos vídeos, eu mesmo não vou fazer”. Na realidade, porém, o que pude ver é que, quanto mais elas assistem aos vídeos, mais querem fazer. Portanto, essa estratégia não ajuda.

Essas pessoas não conseguem deixar seus entes queridos em paz, especialmente seus parceiros: se o parceiro tem uma espinha, elas ficam loucas de vontade de apertar.

Na semana passada atendi uma paciente que me procurou principalmente por essa razão: queria se tratar porque seu namorado não aguentava mais.

Não apenas ela apertava e mexia com a própria pele, como estava começando a fazer isso com ele. Na minha experiência, isso acontece com mais frequência que a criação de uma obsessão por esses vídeos.

A entrevista foi editada e condensada.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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