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18/06/2015 21:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

Carta secreta de Mário de Andrade é finalmente divulgada

Reprodução

A Casa de Rui Barbosa divulgou nesta quinta (18) a única carta do escritor Mário de Andrade enviada ao amigo Manoel Bandeira que era mantida em sigilo.

Como se esperava, o modernista trata do tema da homossexualidade no trecho inédito da carta, que data de 7 de abril de 1928. Com discrição, Mário de Andrade admite a seu destinatário a sua orientação sexual.

"Está claro que eu nunca falei a você sobre o que se fala de mim e não desminto. Mas em que podia ajuntar em grandeza ou melhoria para nós ambos, para você ou para mim, comentarmos que eu elucidar você sobre minha tão falada (pelos outros) homossexualidade? Valia de alguma coisa eu mostrar o muito de exagero que há nessas continuas conversas sociais?", diz o trecho inicial da parte até esta quinta mantida em sigilo.

Em outro trecho, conforme divulgado pela Época, Mário de Andrade é um pouco mais claro: "Mas si agora toco neste assunto em que me porto com absoluta e elegante discreção social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como tenho minha vida mais regulada que maquina de precisão) e se saio com alguém é porquê esse alguém me convida, si toco no assunto, é porquê se poderia tirar dele um argumento pra explicar minhas amisades platônicas, só minhas."

Especialistas na obra do modernista concluíram, a partir dos trechos, que Mário assumiu para o amigo sua homossexualidade de forma discreta. "A famosa carta proibida de Mário de Andrade saiu do armário - e isso não muda nada na imagem dele e na sua obra. Mas finalmente põe fim às murmurações em torno de uma questão que a pudicícia e a repressão só fizeram hipertrofiar", disse o biógrafo Humberto Werneck à Folha de S.Paulo.

Fim do sigilo

O trecho da carta foi divulgado por determinação da Controladoria Geral da União (CGU), atendendo a pedido do jornalista Marcelo Bortoloti, da Revista Época, via Lei de Acesso à Informação. Como relata O Globo, o documento chegou à Casa de Rui Barbosa em 1978, por meio de uma doação da família de Manuel Bandeira. O então presidente da instituição, Plínio Doyle, decidiu lacrar a carta para preservar a intimidade de Mário de Andrade, de quem era amigo, e a correspondência permaneceu em sigilo desde então.

(Com informações de Estadão Conteúdo)