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15/06/2015 11:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Com demissões, juros altos e mais taxas, bancos têm lucros recordes em ano de crise

Montagem/Divulgação

Os ajustes fiscais, cortes de investimentos, inflação alta e contração da economia nacional aparentam ser mera "marolinha" aos principais bancos do País, que apesar da queda do consumo e da restrição de crédito, têm obtido lucros recordes desde o ano passado.

Só em dezembro de 2014, os cinco maiores bancos do País (Santander, Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) obtiveram um lucro líquido (já livre de impostos e descontos) de, aproximadamente, R$ 60,3 bilhões -- crescimento de 18,5% na comparação com o ano anterior, de acordo com um estudo realizado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), em parceria com a Contraf-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro da CUT).

O maior lucro líquido foi do Itaú Unibanco, de R$ 20,6 bilhões. O montante é 30,2% acima do registrado em 2013 além de o maior percentual de crescimento entre os bancos pesquisados pelo Dieese. O Bradesco foi o segundo banco mais rentável, com lucro líquido de R$ 15,4 bilhões. O valor representa um crescimento de 25,9% em 12 meses e um recorde para a instituição.

O Banco do Brasil aparece em terceiro lugar, com lucro de R$ 11,3 bi e alta de 9,6% comparado a 2013; a Caixa, na quarta posição, atingiu R$ 7,1 bi e aumento de 5,5% e o Santander, na quinta posição, cresceu 1,8%, totalizando R$ 5,9 bilhões em 2014, ante 2013.

Tais resultados, somados aos de bancos menores, corretoras e de outras instituições financeiras, fizeram que o setor se tornasse um dos mais rentáveis da economia nacional e mundial

“Com exceção da Caixa, que apresentou queda na rentabilidade, os demais bancos mantiveram as margens e obtiveram ligeiro crescimento. A queda na rentabilidade da Caixa deveu-se, especialmente, ao forte crescimento do patrimônio líquido decorrente do aporte de capital já mencionado.”

Ou seja, neste ano, tempo de ajustes fiscais e taxa de juros alta, os bancos se mantiveram (bem) lucrativos. De acordo com a consultoria especializada no mercado de capitais Economática, o setor bancário foi o que mais lucrou no primeiro trimestre de 2015.

De janeiro a março, os 24 bancos de capital aberto somaram um lucro líquido de R$ 17,76 bilhões -- crescimento de 42,8%, ou acréscimo de R$ 5 bilhões, ante o primeiro trimestre de 2014.

Ainda segundo o estudo da Economática, o Banco do Brasil e o Itaú Unibanco foram as empresas de capital aberto mais lucrativas no período, seguidas pela Petrobras e pelo Bradesco. O Santander é a 12ª empresa que mais lucrou nos primeiros meses do ano.

Galeria de Fotos Bancos que mais lucraram no 1º trimestre Veja Fotos

Mas, de onde vem tanto lucro?

De acordo com o presidente da Contraf-CUT, Roberto von der Osten, foi-se o tempo em que os bancos lucravam quase que exclusivamente com operações de crédito. Apesar de o crédito ainda ser a maior fonte de ganhos, os bancos têm encontrado outras maneiras de aumentar suas receitas.

Tais estratégias adotadas nos últimos tempos para obter lucros astronômicos estão baseadas em três pilares: títulos do tesouro direto, redução de custos com pessoal e aumento dos preços de tarifas.

Títulos da Dívida Pública

Segundo o Dieese, as receitas com títulos e valores imobiliários (TVM) representaram a segunda maior fonte de ganhos dos bancos. Com sucessivas elevações da taxa básica de juros (Selic), as receitas com o TVM dos cinco bancos subiram, em média, 45,9% em relação a 2013.

O economista e conselheiro federal do Cofecon (Conselho Federal de Economia), Fábio Silva, explica que, a cada alta da Selic, estes papéis se tornam mais vantajosos, já que sua remuneração está atrelada à taxa e o risco do investimento é baixíssimo.

“Vemos hoje uma transferência de investimentos em benefício do lucro. Conforme os juros sobem, a inadimplência cresce e os títulos se tornam mais atraentes.”

Segundo ele, os bancos preferem aumentar suas receitas com títulos, que não representam risco, a concederem crédito a pessoas físicas e pequenos empresários, que podem não honrar com os pagamentos por razões como desemprego, inflação alta, orçamento curto e renda mais baixa -- que se agravam em tempos de crise como a de agora.

Outra fonte de renda dos bancos atrelada à taxa Selic são os depósitos compulsórios, que são recolhimentos obrigatórios junto ao Banco Central para controlar a liquidez das economias dos bancos e para assegurar que as instituições não vão movimentar todo o dinheiro de clientes, por exemplo, de poupadores.

Parte dos depósitos compulsórios é remunerada pela Selic, e devido ao crescimento da taxa, as receitas com estas operações subiram 32,6% entre dezembro de 2013 e dezembro de 2014.

Corte de despesas com pessoal

O corte de despesas com funcionários, por fechamento de vagas e rotatividade daqueles que ganham salários maiores, também ajudou no orçamento dos bancos. Segundo Osten, o Contraf conseguiu, ao longo de 11 anos, um aumento real dos salários de 20,7%, mas pouquíssimos bancários ganharam esse aumento no período. Ele explica:

“O que acontece é o seguinte: conseguimos ganhos reais no salário todos os anos mas, no mesmo período, os bancos demitiram funcionários que estão há mais tempo na empresa, e por reajustes, ganham acima do piso da categoria. A rotatividade aumenta justamente entre estes bancários e as instituições contratam novos, pagando o mínimo que a lei permite.”

Nos primeiros quatro meses deste ano, os principais bancos brasileiros admitiram 10.410 pessoas e demitiram 12.545, o que significa um saldo negativo de 2.135 postos de trabalho. Neste meio tempo, o salário médio dos demitidos foi de R$ 5.845,74, enquanto o de admitidos foi de R$ 3.501,69 -- queda de 40,10%.

A saída do HSBC no varejo brasileiro deve impactar ainda mais o mercado de trabalho. O banco anunciou no começo desta semana o fim das operações no Brasil, que aconteceria até 31 de dezembro do ano que vem. Por aqui, o banco mantém 853 agências, com 21.479 funcionários. Em reunião com a Contraf, no entanto, os representantes do HSBC disseram que o anúncio foi mal compreendido e que não haverá demissão em massa de bancários no Brasil.

"O HSBC precisa dos funcionários para entregar o banco em boas condições. Não vejo preocupação em reduzir quadros no Brasil, pois temos preocupação em apresentar o grau de maturidade e eficiência da equipe", disse o diretor de RH, Juliano Marcílio.

Outra forma de reduzir o pessoal, segundo o presidente da Contraf, está justamente nas "facilidades" que os bancos oferecem aos clientes, como pagamento de boletos, contas e depósitos feitos em caixa eletrônico, internet baking ou até no aplicativo do seu celular. Além disso, hoje há 450 mil estabelecimentos, como supermercados, lotéricas e agências dos Correios, onde é possível pagar contas.

“O pagamento presencial [feito na agência bancária] não chega a 20%. Os bancos não pagam salários para você pagar suas contas sozinho -- e ainda lhe cobra por isso.”

Aumento das tarifas bancárias

Os preços das tarifas e pacotes de serviços bancários têm passado por um “boom” nos últimos anos. Segundo o Idec (Instituto Brasilero de Defesa do Consumidor), em apenas um ano, os preços dos serviços avulsos chegaram a aumentar 136% e, os de pacotes, aumentaram 75,2% -- quase dez vezes acima da inflação do período, que foi de 7,7%, segundo o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo).

O Idec explica que, mesmo considerados abusivos, os aumentos das tarifas não são controlados pelo Banco Central, que por sua vez, limita-se a dizer que "cada instituição estabelece seu reajuste em função da sua estratégia operacional e mercadológica."

De fato, as instituições têm incrementado ganhos operacionais mediante o crescimento das receitas com prestação de serviços bancários e tarifas bancárias, ainda mais depois dos ajustes exigidos para atender ao Acordo de Basileia III.

Segundo o Dieese, as receitas médias do Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e Santander com esses serviços e tarifas aumentaram 10,9% entre 2013 e 2014 e somaram mais de R$ 104 bilhões. A maior variação foi do Itaú, de 15,3%.

Crédito: quando mais precisamos, cadê ele?

Em um ano de desaceleração econômica, bancos reduziram o ritmo de oferta de crédito em relação aos anos anteriores. De acordo com o Banco Central, o saldo das operações de crédito no País chegou a R$ 3,06 trilhões em abril, crescimento de 0,1% ante mês anterior e 10,5% em 12 meses. Segundo o BC, a perda de fôlego do crédito está ligada ao aumento da Selic e à menor oferta de crédito dos bancos.

“Com o risco de inadimplência, os bancos ficam mais receosos e dificultam financiamentos imobiliários e de veículos, assim como restringem oferta de crédito para pequenos empresários e pessoas físicas”, conta o economista da Cofecon, Fábio Silva .

“Justamente quando a sociedade precisa de crédito, para a economia continuar girando, os bancos diminuem o volume de empréstimos e aumentam os juros”, reitera Roberto, da Contraf.

“Numa situação ideal, os bancos deveriam ajudar a desenvolver a economia local, já que eles são uma concessão pública e, como tal, deveriam retribuir de alguma forma para a sociedade. Mas o que vemos é que os bancos objetivam lucros e apenas isso.”

Outro lado

Procurados pelo Brasil Post no dia 8 de junho, o Santander, Itaú, Bradesco, Caixa e Banco do Brasil não quiseram comentar sobre a reportagem. O Banco do Brasil também foi questionado sobre as altas tarifas praticadas pelos bancos, mas também não comentou até o fechamento desta matéria.

A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) também não quis se pronunciar sobre o tema.

O HSBC se limitou a mandar um link com informações públicas sobre o banco.