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10/06/2015 20:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Esquiva Falcão: O boxeador que desistiu do sonho olímpico para viver do esporte

Reprodução/Facebook

“Imagina se eu fosse, sei lá, advogado com esse nome? Não ia rolar. Eu nasci para fazer o que faço.”

Esquiva Falcão Florentino está sentado na cozinha da casa em que mora, em Las Vegas, nos Estados Unidos. Aos 25 anos, o capixaba de fala rápida e sorriso fácil tornou-se conhecido em 2012, depois de ganhar uma medalha de prata inédita no boxe para o Brasil, categoria peso médio, na Olimpíada de Londres. Um ano depois, no entanto, percebeu que fama era tudo o que realmente tinha conquistado com o boxe – e resolveu que queria mais. Deixou o boxe olímpico e a chance de disputar uma medalha de ouro no Rio de Janeiro em 2016 para se profissionalizar – para se disputar uma olimpíada é preciso ser pugilista amador e não estar no circuito de lutas pagas. Assinou um contrato com uma gigante promotora de luta, a Top Rank, que tem em seu quadro Manny Pacquiao (que faz agora em maio a luta mais cara da história contra Floyd Mayweather Jr. – as bolsas de ambos, juntas, chegam aos 300 milhões de dólares). Já com o dinheiro da assinatura do contrato, conseguiu comprar uma casa na região metropolitana de Vitória, onde a família mora. Agora, Esquiva sonha com o título mundial. Sonho bastante possível – e tem muita gente investindo nisso. Esquiva Falcão é um exemplo como poucas vezes se viu no esporte brasileiro, especialmente em um esporte de combate, de como um futuro campeão pode ser construído.

Matéria-prima

“Não há campeão mundial que não tenha no currículo trabalho árduo e talento. Porém, não falta atleta talentoso e ralador sem um título mundial”, diz Alexandre Matos, jornalista especialista em lutas do site MMA Brasil. “É preciso uma senhora retaguarda para chegar ao topo do mundo.” Mas de que, afinal, é composta essa retaguarda? Não se faz um campeão sem, claro, uma matéria-prima de qualidade. E esse quesito Esquiva tem de sobra. É filho de Touro Moreno, alcunha de Adegard Câmara Florentino, ele próprio um pugilista e lutador de vale-tudo desde jovem. Hoje, aos 78 anos, é um verdadeiro personagem. Tem outros 17 filhos (15 vivos), está no terceiro casamento, treina todos os dias, faz lutas contra boxeadores de 30 anos, diz o que passa em sua cabeça – foi assim em 2013, quando polemizou ao criticar a reforma de sua casa e da academia feita no programa Caldeirão do Huck, na Globo. Foi do pai a ideia de batizar o garoto com o nome Esquiva. Como no boxe os córneres (treinadores e auxiliares, que ficam ao lado do ringue na luta) estão proibidos de dar instruções aos seus atletas, Touro achou que chamar o filho de Esquiva seria uma forma de driblar a regra e mandá-lo esquivar-se (movimento de desviar de um golpe) quando bem quisesse – para todos os efeitos, ele estaria dizendo o nome do filho. O destino do moleque foi traçado na maternidade.

É falando sobre isso que Esquiva ri em sua cozinha. Ele conta que nem se lembra desde quando treina boxe. “Minha mãe brinca que, quando ela vinha me dar o peito pra mamar, eu já usava ele como saco de pancada”, brinca. O pai construiu um ringue em casa com blocos de cimento e, em vez de saco de pancadas, os quatro pugilistas da família (além de Esquiva, o irmão Yamaguchi, medalha de bronze na mesma Olimpíada de Londres em outra divisão de peso; Thomas Edson, 23 anos, e Estivam, 18) tinham uma bananeira para treinar os socos.

Esquiva tem outra característica que, se não é essencial para a formação de um campeão, é a tal cereja do bolo – uma história difícil, de infância miserável em Jacaraípe, bairro de Serra (ES), de ter que começar a trabalhar ainda criança, de quase não ter o que comer. Fez sua primeira luta contra o irmão Thomas. Como prêmio pela vitória, foi treinar em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, com apenas 14 anos. Foi nessa época que calçou pela primeira vez um par de luvas. Chegou ao clube AD São Caetano a convite de Servílio de Oliveira, primeiro (e único até então) medalhista de boxe olímpico brasileiro – é dele o bronze dos Jogos de 1968. O irmão Yamaguchi havia ido um tempo antes. Servílio tinha ouvido falar dos filhos de Touro Moreno, garotos de muito talento, e ofereceu hospedagem e treinamento de boxe olímpico aos dois. Esquiva aproveitou, melhorou sua técnica, mas, depois de chegar a uma semifinal de um torneio do qual só lutadores maiores de 18 podiam participar, ele, com 16, teve a menoridade delatada. E voltou para Serra.

“Nessa época, dei um tempo no boxe. Era adolescente e queria curtir com meus amigos, sair nos fins de semana. Treinar mesmo, que era bom, não queria”, conta o pugilista. Esquiva acabou resgatado de uma futura vida errante ao ser convidado pelo treinador Raff Giglio para participar de um projeto social no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro.

“Como gostava muito de funk e queria conhecer o Rio, juntei o que curtia com minha profissão e aceitei a proposta. Treinava de manhã e à tarde e dormia na academia. O Raff trazia meu café da manhã, almoço e janta.”Nos dois anos lá, tudo começou a dar certo: voltou a competir, foi à final do Campeonato Brasileiro de Boxe de 2008 e acabou convocado pela seleção. “Ele é um lutador muito bom, tem bastante talento”, diz o jornalista Eduardo Ohata, especializado em boxe e comentarista da ESPN. “O que o ajudou muito e que foi um diferencial em relação a brasileiros de gerações anteriores que ‘bateram na trave’ foi a participação dele no World Series of Boxing, competição da Aiba [International Boxing Association] com uma mistura de regras amadoras e profissionais.” A WSB funciona em esquema de franquias: cada país participante tem uma equipe, que pode ter de dois a quatro pugilistas (de desconhecidos a medalhistas olímpicos) em cada uma das dez categorias. Assim, os atletas têm a oportunidade de treinar e morar em outros países. “A participação dele na WSB propiciou seu convívio com treinadores internacionais e com bons atletas estrangeiros, o que só contribuiu para sua evolução técnica”, argumenta o jornalista.

O dia 11 de abril foi dia de trazer a oitava luta pra conta.Foram 6 rounds de muita determinação, vontade, foco, ...

Posted by Esquiva Falcão on Domingo, 12 de abril de 2015

Industrialização

Esquiva Falcão é hoje um nome. Mas está no processo para se tornar uma marca. Por trás disso tem muita gente grande. A começar pela Top Rank, uma das duas maiores promotoras de lutas de boxe do mundo (a outra é a Golden Boy, equipe de Oscar De La Hoya). “Ouvi falar dele pela primeira vez logo depois da Olimpíada de Londres. E me perguntaram se não estávamos interessados nele. Assistimos a algumas lutas, vimos seu cartel e dissemos que é claro que estávamos”, conta Bob Arum, o dono da Top Rank. “A empresa queria alguém que pudesse se destacar na América Latina”, diz Sérgio Batarelli, ex-lutador e promotor do International Vale-Tudo Championship (IVC), que revelou nomes como o do astro de MMA Wanderlei Silva, e é agora empresário do pugilista capixaba. Representante da Top Rank no Brasil, Batarelli contatou Esquiva durante um mundial do qual ele participava no Cazaquistão – pelo Facebook! “Disse pra ele: ‘Dá um Google para ver quem eu sou’. Queria que ele fosse para Las Vegas para conversar com o pessoal da Top Rank. E ele deu um voto de confiança e voou para lá.” O negócio foi fechado quando Esquiva descobriu que só na assinatura do contrato ganharia mais do que havia recebido até então em sua carreira inteira. “Já tinha conseguido uma medalha, um feito inédito, para o Brasil. Pensei: ‘Agora preciso cuidar da minha família’”, diz o pugilista. “O pessoal de Bob Arum então leva Esquiva para treinar no CT da empresa, em Vegas, coloca o rapaz para trabalhar com o lendário técnico argentino Miguel Díaz, integrante do Hall da Fama do Boxe, e o deixa em contato com craques como Miguel Cotto, campeão mundial dos médios”, diz Alexandre Matos. Para viabilizar a ida do boxeador para Vegas, outra gigante entrou em ação, por intermédio de Batarelli. A Paris Filmes, maior distribuidora de filmes no mercado nacional, resolveu virar investidora da carreira de Esquiva Falcão. “Estamos todos entre amigos”, diz Sandi Adamiu, diretor de expansão e acionista da empresa. “A Paris Filmes se envolveu com Batarelli em 1996, quando ele, sempre envolvido com luta, ajudou a fazer a promoção do filme O Grande Dragão Branco”, lembra ele.

“Realmente acreditamos que esquiva tem potencial para ser campeão”, diz o chefão Bob Arum

Sandi, que era criança, virou aluno de full contact, uma modalidade de luta, de Batarelli – hoje é faixa preta dele. “Um dia, treinando, ele me falou sobre o Esquiva, que teria uma oportunidade com a Top Rank. Eu achei incrível e sugeri que ficássemos sócios. Adiantei um dinheiro para eles viajarem e o contrato que eles assinaram valeu mais de dez vezes esse valor inicial.” O CEO da Paris Filmes, Marcio Fraccaroli, se empolgou com a história e resolveu também ser investidor. “Como temos um conhecimento grande de marketing e business, colocamos a estrutura da empresa à disposição deles”, conta Sandi. Além disso, há outros parceiros grandes na empreitada, como a Netshoes, gigante de e-commerce, e a marca de roupas e materiais esportivos Soul Fighter.

Venda

É neste ponto – o que nos encontramos agora – que entra na história uma outra pessoa, a grande responsável pelo processo de “vendagem” de Esquiva Falcão: Hebert Mota. Produtor musical e artístico, Hebert é pessoa do bastidor, um sujeito low-profile que durante anos trabalhou – e foi extremamente bem-sucedido – para transformar Anderson Silva em uma marca. Quando os dois se conheceram, em 2009, Anderson já era campeão dos médios do UFC fazia alguns anos, mas ainda conseguia andar tranquilamente por shoppings em São Paulo sem ser reconhecido. Foi Hebert quem o ajudou a se transformar em um fenômeno de mídia e de marketing e a ganhar milhões com patrocinadores. Os dois começaram a romper pouco depois da fratura horrorosa sofrida no fim de 2013, que deixou Anderson de molho por um ano – e bem antes do escândalo todo do doping –, por puro conflito de ideias. Enquanto Hebert queria transformar Anderson em um ídolo maior do que o próprio esporte, o atleta disse que queria parar de lutar para fazer filmes, depois voltou atrás, tomando decisões de carreira com as quais o produtor não concordava. Sem que Hebert quisesse, o infortúnio de Anderson Silva acabou mostrando a importância do gestor de imagem na carreira do atleta. O telefone começou a tocar ininterruptamente com pedidos de atletas e artistas para serem representados por ele. Hebert, que cuida da imagem de pessoas como Daniel Zukerman, do Pânico na Band, e do chef Alex Atala, negava quase todos. Mas aceitou o do staff de Esquiva.

“Vi que ele tem toda uma estrutura por trás, além da questão atlética. Isso dá uma tranquilidade”, conta. “Trabalhar a imagem de um atleta tem a ver com a ideia de se valorizar o produto que ele se torna além de sua habilidade direta. Com isso, o passe dele dentro do esporte sobe. E a exposição qualificada vai além até mesmo da capacidade dele de ganhar e perder um desafio ou um cinturão. Meu trabalho é valorizá-lo inclusive para quem não entende de boxe.” Hebert vai procurar parceiros comerciais e de mídia para viabilizar a carreira do atleta e fazer o nome – e, depois, a marca – Esquiva Falcão popularizar-se cada vez mais. “Ele tem apoio da família – agora sua mulher e filho foram morar Las Vegas –, empresas e investidores por trás, estrutura de comunicação, treinadores renomados, nutricionista, enfim, tudo para se concentrar apenas em seu negócio, que é trazer vitórias.”

Segunda-feira foi dia de trabalhar forte.#teamesquiva #boxe #8rounds #26dejunho #todosnatorcida @soulfighter @netshoes @parisfilmes

Posted by Esquiva Falcão on Segunda, 1 de junho de 2015

Balanço final

Por enquanto, Esquiva tem feito direitinho a lição de casa. Em oito lutas profissionais, acumula oito vitórias – a última em 11 de abril, contra o americano Omar Rojas, no Texas. Cinco delas terminaram por nocaute. “O próximo passo é Esquiva começar a enfrentar cada vez mais atletas experientes, para acumular vitórias significativas”, acredita Eduardo Ohata. “Enfrentar desafiantes ao título que foram derrotados ou ex-campeões é um ganho, porque essas lutas vão sempre ensinar algo.” A Top Rank é quem casa as lutas de Esquiva, com o aval de seu empresário. “No começo de uma carreira profissional, geralmente as lutas são casadas com atletas que têm uma ou mais derrotas em seu cartel ou que sejam estreantes. Elas servem para o boxeador ir ganhando experiência”, diz o comentarista da ESPN. Esquiva lutava boxe amador, muito diferente do profissional. “No amador, tem equipamento de proteção, luvas grandes e uma forma de pontuar diferente, em que o atleta tem que atingir partes permitidas do corpo do adversário”, diz o chefe Bob Arum. “No boxe profissional, vale a habilidade de destruir e machucar seu oponente.” Cada atleta tem seu tempo até desafiar o campeão pelo título. O supercampeão Oscar De La Hoya, por exemplo, lutou pelo cinturão em seu 12º combate. Floyd Mayweather, o atleta mais rico do mundo atualmente, disputou o título em sua 18ª luta. Ele, aliás, é um benchmarking de Esquiva: da mesma forma que o brasileiro, foi medalhista olímpico. Esquiva aí leva uma vantagem: Mayweather só ganhou o bronze nos Jogos de Atlanta, em 1996. O próximo desafio de Esquiva Falcão vai ser em 8 de maio, em Nova Jersey, contra o americano Paul Harness. Assim que o adversário é definido, Esquiva estuda o método de luta do oponente – vê, por exemplo, se ele é do tipo nocauteador ou se é mais técnico – e treina formas de anular o jogo dele e melhorar o seu. “Vai ser a primeira luta de oito rounds dele. Até então, elas eram de seis. Ele está atingindo um outro patamar”, diz Bob Arum. “Os treinos em Vegas estão ótimos porque tenho à disposição atletas de alto nível”, diz Esquiva. “Tenho parceiros com as mesmas características de meus adversários. E também faço sparrings para campeões mundiais, o que ajuda a evoluir.”

A meta da equipe é que o atleta seja campeão em 2016. “Esquiva é como uma ação da bolsa”, compara Sandi Adamiu. “Nosso investimento, que vai ser de 200 mil dólares em dois anos, é de médio a longo prazo.” O pugilista não fala em valores, mas as bolsas para as lutas de profissionais em início de carreira giram em torno dos 60 mil dólares – bastante se comparadas às dos lutadores de MMA, mas nada se pensarmos em Pacquiao ou Maywaether. O time é ambicioso. “O sonho é que, em dez anos, Esquiva seja do tamanho de Neymar. Ele vai ser o Mayweather brasileiro. Precisamos de ídolos. Ele vai mudar o patamar do boxe no Brasil.” O título mundial não é uma aposta apenas da equipe de Esquiva. “Ele pode ser campeão, pode cravar isso”, afirma Eduardo Ohata. “Sem precisar se preocupar com burocracias, a única preocupação dele é treinar e lutar. E, como talento não lhe falta, o futuro de Esquiva é promissor”, diz Alexandre Matos. O chefão da Top Rank endossa. “Realmente acreditamos que ele tem potencial para alcançar esse nível”, diz Bob Arum, o cara que promoveu algumas das maiores lutas da história, como as de Muhammad Ali e George Foreman. Se Esquiva fosse batizado hoje, talvez Touro Moreno escolhesse para o filho o nome Nocaute.

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