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06/06/2015 10:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Hiperpoliglotas: Conheça mitos, pesquisas e dicas de quem não tem barreiras para se comunicar

recombiner/Flickr
Or, Oh Broca, where art thou?

Você já deve ter ouvido falar nos poliglotas. São as superpessoas que conseguem falar quatro ou mais idiomas.

Mas, desde 2003, o linguista britânico Richard Dick Hudson popularizou um termo que definiria melhor alguns poucos poliglotas que se comunicam em mais de seis idiomas: os hiperpoliglotas.

Não. Não é uma gourmetização do termo original.

Há um propósito na criação do novo nome. Segundo o linguista, uma pessoa pode falar de 50 a 100 línguas - mas o padrão da sociedade é que o máximo de idiomas aprendido seja seis. "Se soubéssemos como essas pessoas lidam com esse adendo intelectual aparentemente impossível, o restante de nós poderia aprender com eles", Hudson explica.

E se seis idiomas já é uma média impressionante, algumas pessoas levam a brincadeira a sério MESMO e aprendem uma quantidade impressionante ao ponto de entraram para a história por conta disso.

Da esquerda para a direita: Emil Krebs, um diplomata alemão que se comunicava impecavelmente em 65 idiomas. Lomb Kató, uma das primeiras tradutoras simultâneas no mundo, era húngara e dominava 16 idiomas. Giuseppe Mezzofant, um famoso cardeal italiano, cujo biógrafo conta que tinha conhecimento de 40 e 72 línguas.

Um outro exemplo, que é inclusive alvo dos holofotes da mídia internacional até hoje, é o brasileiro Carlos do Amaral Freire. Ele é linguista, tem 83 anos e sabe 135 idiomas. "Em pelo menos 30 sou fluente, mas já publiquei traduções em mais de 60 idiomas. Se eu estudar por mais ou menos 24 horas consigo recuperar alguma outra mais esquecida", ele conta.

Até hoje, Freire aprende duas línguas por ano. "O problema para o poliglota é, além de aprender, não esquecer. Além das duas novas, reviso de cinco a 10 idiomas por ano. Agora estou aprendendo laociano, de Laos. Você conhece? É parecido com o tailandês."

Freire nasceu na fronteira com o Uruguai e aprendeu espanhol desde cedo pela convivência com nativos. Na época em que ia à escola também teve que aprender as línguas obrigatórias da grade: latim, francês e inglês. Em paralelo a isso, no mesmo período, o jovem Freire se dedicava a outras, como italiano e esperanto. "Saí do ensino fundamental falando umas cinco ou seis línguas", conta ele.

Conforme cresceu, além do gosto por aprender novos idiomas, Freire também descobriu uma grande paixão pela literatura. Uma coisa impulsionou a outra e isso o ajudou a aumentar seu leque: "Eu não conseguia me conformar em ter que ler clássicos da literatura espanhola como Cervantes, ou da literatura russa, como Dostoiévski, em traduções para o português. Então no ginásio fiz um curso científico de clássicos e depois ingressei em duas faculdades simultaneamente: de línguas neo latinas e línguas germânicas. Ah! E antes de entrar na faculdade também já tinha começado a estudar árabe."

Com essa habilidade, Freire ganhou bolsas em universidades por todo o mundo, e viajou para estudar e aprender cada vez mais idiomas. Afora isso, também lecionou em muitos outros. "Minha última missão foi na ex-Iugoslávia. Lecionei o primeiro curso de português na universidade que trabalhei, que era uma das maiores de lá".

Ele conta que a primeira coisa que faz quando começa a estudar um novo idioma é procurar nativos para praticar. Para ele, conhecer a cultura do que se está estudando também faz toda a diferença.

Quando perguntado qual língua ele considera a mais difícil, de todas as que aprendeu, ele responde que não é possível medir isso. "Todas as línguas são difíceis, não é um dom, uma vocação. Não é nada além de esforço e uma tremenda disciplina."

Pesquisas, mitos e senso comum

"Sou muito velh@ para aprender outros idiomas"

De fato, alguns estudos como o das linguistas canadenses Patsy Lightbown e Nina Spada, apontam a chamada Hipótese do Período Crítico, na qual a melhor idade para aprender idiomas é até a fase da puberdade. As fases seguintes têm mais problemas na pronúncia e lentidão para aprender uma nova gramática.

No entanto, um estudo israelense apontou exatamente o contrário: adultos podem se dar melhor na hora de aprender um novo idioma. Isso porque, ao serem ensinados sobre novas regras, os adultos as reconhecem mais facilmente, usam o que foi aprendido em novas situações e o fazem de maneira mais rápida. Ponto para a experiência!

"Não nasci para isso, não tenho esse dom"

Michael Erard, linguista e autor de um dos livros mais famosos sobre hiperpoliglotas, “Babel No More”, explica que hiperpoliglotas não nascem assim e nem se formam um. Eles nascem para serem formatados. É a chamada "Neural Tribe Theory."

Segundo essa teoria, as pessoas nascem com a capacidade de ser motivadas a aprender línguas estrangeiras. Essa capacidade é o que realmente importa, e ela depende grande parte das influências externas e do ambiente no qual a pessoa está inserida. Ou seja, se você nunca for exposto a outros idiomas, seja por filmes, músicas, ou aquela supermodelo romena que você admira, fica difícil ter um pontapé inicial.

Em entrevista ao Huffington Post ele explica que os hiperpoliglotas encaram o aprendizado de outros idiomas como uma missão, e também como uma identidade pessoal delas como aprendizes.

"Qual o melhor método para aprender?"

Isso é muito relativo. Benny Lewis, um famoso poliglota irlandês autor de "Fluent in 3 Months" é um exemplo excêntrico de como a língua estrangeira pode ser aprendida de forma inusitada.

De acordo com Lewis, que fala cerca de 10 idiomas e começou a aprender apenas com 21 anos, é possível aprender um idioma a cada três meses. Como? Mudando a atitude e simplesmente... falando! E, claro, praticando. Não importa o quão pouco você saiba da nova língua.

Parece clichê e simples demais para ser verdade, mas um bom exemplo que sintetiza o que Lewis quer dizer é a pergunta que ele fez ao dar uma palestra no TEDx em 2013 sobre seu livro: "Onde vocês acham que eu estava aprendendo melhor um idioma. Aqui... ou aqui?"

"Mas existe alguma dica infalível?"

Carlos Freire afirma "as 10 primeiras línguas são as mais difíceis de aprender. Depois você aprende um método próprio e segue sozinho". Ou seja: cada um descobre a maneira certa de praticar. Mas ele deixa algumas recomendações: para quem quer aprender um grande número de línguas, saber as que dão base facilita, como, por exemplo, o latim para línguas latinas. Outra recomendação é aprender frases em vez de palavras isoladas, porque isso ajuda a não esquecer.

Benny Lewis, pensando no seu método de sair falando sem dó, mesmo que não domine o idioma, recomenda que o aprendiz cometa, pelo menos, dois mil erros por dia. Ele diz que almejar o perfeccionismo no aprendizado de idiomas é um grande erro.

Luca Lampariello, dono do site The Polyglot Dream e famoso por falar 10 línguas diz que estuda impreterivelmente todos os dias. "Quando eu comecei a aprender um idioma, eu aprendia - não 'estudava' - só por 30 minutos por dia, mas eu fazia isso todos os dias", ele explica.

A escritora Susanna Zaraysky fala oito línguas e estudou 11. Ela é autora de "Language Is Music", e a dica dela é se cercar pelo idioma. Zaraysky viaja o mundo justamente espalhando o seu método: o de aprender novas línguas utilizando como principais ferramentas a mídia e música .

Tommy McDonald e Amir Ordabayev ficaram famosos na internet gravando vídeos falando vários idiomas. O primeiro recomenda aprender novas línguas em idiomas estrangeiros que você já saiba. Ordabayev recomenda aceitar o idioma como ele é em vez de se perguntar "por que funciona assim?" toda vez que aprende algo novo.

Na verdade, existem poucas pesquisas científicas ou estudos sobre qual o limite da humanidade de aprender, lembrar e usar diferentes línguas, o que faz dos hiperpoliglotas, por si só, um modelo de "experimento natural." Mas uma coisa é certa: eles estão aumentando em números, e, com a globalização, a tendência é que isso continue acontecendo.

O próprio Michael Erard, na mesma entrevista ao Huffington Post, afirma: "este é um fenômeno que tende a ficar cada vez mais visível."

Não há mais desculpas, certo?