NOTÍCIAS
02/06/2015 20:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Entenda os interesses geopolíticos dos EUA para investigar a Fifa

Montagem/Reuters

Acusações de corrupção, extorsão e outros negócios ilegais não são novidade na história da Fifa. Por que, então, os Estados Unidos resolveram iniciar uma investigação sobre a entidade apenas agora? A resposta pode estar mais relacionada a uma disputa geopolítica do que ao futebol em si.

Tudo começou em 2010, quando o Reino Unido perdeu para a Rússia a licitação para sediar a Copa do Mundo de 2018. O então presidente da Federação Inglesa de Futebol, David Triesman, afirmou no ano seguinte que Ricardo Teixeira, da CBF, e outros três dirigentes da Fifa pediram suborno para votar na Inglaterra como sede.

No final de 2014 surgiram denúncias de que o presidente russo Vladimir Putin teria dado um quadro de Picasso a Michel Platini, presidente da UEFA, como agradecimento pelo voto na Rússia.

Ainda em 2010 também aconteceu a licitação da Copa de 2022. Os Estados Unidos estavam na disputa, mas se viram "trocados" pelo Catar. O representante do país árabe, Mohamed bin Hammam, mais tarde foi expulso da Fifa por ter comprado votos ao tentar se eleger para a presidência da entidade em 2011 e supostamente utilizar a mesma tática na licitação que escolheu o Catar.

"Isso serviu de material para iniciar a investigação do FBI. Os Estados Unidos e a Inglaterra perderam a sede e a questão geopolítica - contexto de relação tensa entre Estados Unidos e Rússia, especialmente depois da anexação da Crimeia em 2014 - foi ganhando força", avalia Maiara Folly, pesquisadora do Instituto de Relações internacionais da PUC-Rio.

Não por acaso, a investigação que levou às prisões de executivos da Fifa tiveram início no ano de 2011. Segundo Folly, "esse tipo de investigação custa muito dinheiro". Porém, até agora a participação de norte-americanos no caso da Fifa é muito pequena, o que leva a um questionamento dos reais interesses dos EUA.

Também existe uma pressão interna nos Estados Unidos para que se boicote a Rússia. Treze senadores assinaram uma carta informal enviada a Fifa, solicitando que o país asiático não recebesse os jogos em 2018.

A federação norte-americana de futebol chegou a declarar que "caso a Rússia não possa receber a Copa de 2018, os Estados Unidos querem o evento".

A copa da Rússia

Para a Rússia, a realização da Copa do Mundo de 2018 é estratégica, pois seria uma forma de se afirmar no contexto global utilizando o chamado “soft power” (poder brando) para tentar angariar prestígio e capital político internacional.

Folly avalia que "para a Rússia é muito importante sediar esse tipo de evento porque agora o país está isolado". Ela destaca que a Copa está sempre presente na mídia do país. "A propaganda na Rússia é muito grande".

Além disso, os Jogos de Inverno de Sochi, que deveriam ter esse papel em 2014, acabaram ofuscados pela própria anexação da Crimeia, frustrando os plano do Kremlin em melhorar a imagem internacional do país por meio do esporte.

Depois das prisões de dirigentes da Fifa, Putin saiu em defesa de Joseph Blatter e chegou a acusar os Estados Unidos de "tentarem impor sua jurisdição a outros Estados".

O líder russo também têm seus interesses em jogo, uma vez que a gestão Blatter vai de encontro a seus objetivos . "As confederações votam em bloco. O único [bloco] que votou contra Blatter foi a Europa, porque desde que ele entrou, países africanos e asiáticos começaram a sediar copas", explica Follly.

LEIA MAIS:

- Blatter também é investigado por FBI, diz ABC News

- 'Renúncia do Blatter reforça necessidade de investigação', diz Renan

- Geopolítica da FIFA