NOTÍCIAS
29/05/2015 08:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:13 -02

‘Batalha do Centro Cívico', 1 mês: Erros e escândalos de Beto Richa contribuem para o fortalecimento de movimentos populares no PR

Montagem/Reprodução Facebook

“29/04/2015 - Jamais esqueceremos”. É assim que a APP-Sindicato, entidade que representa os professores do Paraná, convoca uma manifestação nesta sexta-feira (29), em Curitiba, no mesmo palco onde 213 pessoas ficaram feridas durante uma forte repressão policial contra os docentes, há um mês. O ‘aniversário’, porém, permite pouco a se comemorar de um lado a outro dessa queda de braço entre o governo estadual e os servidores.

Somadas as duas greves deste ano, os professores já estão de braços cruzados há pouco mais de dois meses e não há nenhum indicativo que a paralisação irá terminar tão cedo. A mais recente proposta sinalizada pelo governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), ficou distante do mínimo solicitado pela categoria, que seria a reposição da inflação e um pagamento sem parcelamentos.

No Palácio Iguaçu, sede do governo paranaense, o desgaste da imagem de Richa e até da sua base aliada na Assembleia Legislativa (Alep) parece não ter fim. Se os parlamentares seguem pagando o preço por terem votado o polêmico ‘pacotaço’ que, entre outras medidas, permitiu ao governador ter acesso à ‘poupança’ acumulada por um fundo previdenciário de servidores, Richa ainda tem de lidar com escândalos – são pelo menos três bem graves.

Analistas consultados pelo Brasil Post acreditam que o ônus de toda a crise estadual, seja pela greve dos professores, o rombo nos cofres públicos ou a violência descabida da Polícia Militar há exatos 30 dias, só pode ser creditado ao governador do Paraná e suas decisões. “O que está ocorrendo é uma verdadeira comédia de erros políticos. É uma situação desnecessária”, avaliou o cientista político Sérgio Braga, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“Tentou-se fazer uma votação praticamente secreta (do pacotaço). Foi um erro estratégico. Os parlamentares também foram inoperantes ao aceitar votar o projeto menos de uma semana após absolver deputados investigados e aprovar reajustes salariais. Isso causou revolta. E depois, ele (Richa) errou ao nomear uma figura despreparada como o (Fernando) Francischini (ex-secretário de Segurança), que é conhecido pela truculência e usou o 29 de abril como ‘vingança pessoal’”, emendou Braga.

O cientista político da Uninter, Doacir Quadros, concordou com o colega da UFPR e não teve dúvidas ao afirmar que a violência policial contra os professores “foi o catalisador” da crise vivida pelo Paraná. “O governador já vinha realizando ações impopulares após a sua eleição no ano passado. Tudo isso culminou no 29 de abril. Parece que o governador se esqueceu que a legitimidade se dá todos os dias, inclusive após a eleição. A democracia é isso”, afirmou.

Alvo de uma ação que pede o seu impeachment, Richa parece seguir no rumo contrário ao que poderia pôr fim à crise: o diálogo. Em mais de uma oportunidade, primeiro poucos dias após a repressão e mais recentemente em algumas entrevistas, o tucano culpou “black blocs infiltrados” por “agredirem os policiais”, que apenas teriam reagido. Mas esse discurso não salvou Francischini ou o comandante-geral da PM, César Kogut, que caíram após a 'Batalha do Centro Cívico', como é chamado no Paraná o episódio.

Galeria de Fotos PM e os 'black blocs' no PR Veja Fotos

“O diálogo é o básico na política e é algo crucial neste momento. O governador precisa dialogar com as principais lideranças da sociedade civil e rever os seus posicionamentos, até porque esse 29 de abril ele irá carregar para sempre na sua vida política”, explicou Quadros. “O Beto Richa não tem o perfil autoritário, ele é mais negociador, mas se cercou de pessoas e decisões ruins”, completou Braga.

Para os professores e demais servidores do Estado, “as feridas continuam abertas”, literalmente em alguns casos, conforme disse ao Brasil Post o presidente da APP-Sindicato, Hermes Leão. Os analistas acreditam que a lição deixada sob o olhar da mobilização popular do funcionalismo ainda pode carregar um pouco do que foram as Jornadas de Junho, e que isso está amplamente ligado ao amadurecimento da democracia no País.

“Estive na campanha das Diretas Já (nos anos 80) e nunca vi tamanha repressão policial como a do dia 29 de abril. Foi um espetáculo dantesco contra quem quer o fim do privilégio aos marajás. A truculência não é o melhor caminho, e para piorar ele dobrou a aposta por mais visibilidade (...). A solução é negociar”, analisou Braga.

“Vários setores da sociedade civil estão amadurecendo e conseguem ver que, de uma maneira organizada, podem buscar os seus direitos. Junho de 2013 foi um divisor de águas, pois mostrou à classe política que a luta não era contra o Congresso Nacional, mas sim contra o comportamento dos políticos. No Paraná o governador parece estar não só contra os servidores, mas contra os setores da sociedade que os apoiam”, concluiu Quadros.

LEIA TAMBÉM

- Tortura e humilhação: Alunos e professores da UEL relatam terror vivido em Curitiba

- Richa é condenado por massacre de professores no PR. Pelo menos em julgamento simbólico

- Ação da Polícia Militar da era Beto Richa é criticada por especialistas e supera truculência do governo Alvaro Dias, há 27 anos

- Tucano que xingou professora diz que 'se orgulha' de atuação no PSDB

- #SomosTodosProfessores

- No meio do caminho da educação havia uma pedra

- Oposição quer derrubar liminar que permite mudanças na previdência do PR