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29/05/2015 08:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:13 -02

‘Batalha do Centro Cívico', 1 mês depois: "Nem na ditadura militar vimos tanta truculência", relembra professor do Paraná

Reprodução/Facebook

Quem viveu não esquece. Não foi o primeiro ataque contra os professores na história recente do Paraná, mas a repressão policial do dia 29 de abril de 2015 ainda assombra os que estiveram no Centro Cívico, bairro de Curitiba onde fica a Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) e o Palácio Iguaçu, sede do governo estadual. Nesta sexta-feira (29), um ato espera reunir 100 mil pessoas no palco do massacre.

“Faremos uma marcha entre a praça 19 de Dezembro e a praça (Nossa Senhora de Salete) que batizamos de ’29 de Abril’”, disse ao Brasil Post o presidente da APP-Sindicato, Hermes Leão. O representante dos professores paranaenses trouxe à tona o que se lembra daquele dia, da organização da mobilização dos docentes antes da votação do ‘pacotaço’, até a busca por abrigo diante da chuva de bombas de gás lacrimogêneo.

O relato de Leão, que viveu o drama daquele dia, um mês atrás, você lê agora.

“Olha, hoje de manhã mesmo eu encontrei feridas abertas no sentido físico da palavra, e as feridas da alma para a categoria são uma marca que vai permanecer na história. Foi um grau de afronta e desrespeito à educação que não se esperava que acontecesse. Uma tragédia dessa natureza afetou muitas pessoas, tanto física quanto psicologicamente. Muitos ficaram doentes e ainda estão doentes, temos gente que não estava lá no dia e se sente mal hoje por isso.

Acho que foi pior (do que o ataque de 1988, na gestão Alvaro Dias). Foi um aparato ‘militaresco’, pronto para uma guerra ilimitada, com uso de helicóptero, algo sem precedentes. Não tinha como prever o episódio, ainda mais se levarmos em conta que na nossa Constituição diz que vivemos em um Estado democrático de direito. Nem mesmo na ditadura militar vimos tanta truculência.

O governador deu uma entrevista outro dia em que falou que ‘queríamos um cadáver’ naquele dia. É uma fala criminosa dele. Desde o dia 25 de abril, quando fizemos uma assembleia em Londrina (no interior do Paraná) e decidimos retomar a greve, já tomamos conhecimento que o governo tinha conquistado uma medida na Justiça e que começou a existir um planejamento da polícia, convocando policiais do interior para uma batalha campal. Fomos percebendo isso nos dias 25, 26, 27 de abril. No dia 28, pela manhã, houve o primeiro confronto com a polícia e já havia helicópteros apontando armas para nós, demonstrando uma postura (de Richa) para evitar que a votação do dia 29 (na Alep) fosse prejudicada.

O ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos Pepe Vargas ligou no dia 28 para o chefe da Casa Civil do Paraná, Eduardo Sciarra, se colocando para mediar o diálogo e fez um apelo, embora não tivesse autoridade para impedir nada. Depois ele nos ligou e disse que tinha conversado e que o Sciarra garantiu que o governo e a polícia não iriam recuar. O debate na Alep iria prosseguir, por isso um grupo de senadores veio de Brasília naquele dia. Houve uma reunião antes da votação, houve um apelo para que o projeto não fosse votado, mas o presidente da Alep Ademar Traiano (PSDB) foi taxativo de que ‘eles estavam sob proteção’ e ‘votariam a qualquer preço’. Tudo o que aconteceu foi um ato de vingança por fevereiro (quando professores ocuparam o plenário da Alep).

Depois de tudo o que aconteceu, o governador nunca se desculpou. Ele fez um balanço primeiramente culpando os manifestantes, depois fez outro dizendo que tinham acontecido exageros, e aí foi caindo por terra. De maneira surpreendente, ele voltou na semana passada à primeira versão, e todas as imagens mostram que não tinha nenhum black bloc. Todas eram pessoas conhecidas da sociedade, não eram adeptos da doutrina black bloc. Só se vê ataque da polícia.

O governador faz acusações que ele já vinha fazendo desde o fim da posse dele. Ele já usou essa de ‘desgaste político-partidário’ antes. Temos dito que nenhuma greve, tanto a de fevereiro quanto a de agora, com participação de 80% da categoria, sem uma pauta concreta, mesmo com apoio sindical, teria o apoio que nós estamos tendo. Essa massa não estaria reunida em conjunto só por desgaste político. O Richa tinha 80% de aprovação ao final de janeiro, agora a desaprovação é acima de 70%. É tudo pela mobilização, pela população indo para a rua.

Já tínhamos um movimento muito forte aqui no Paraná, a nossa categoria é unida e sempre busca a defesa dos nossos direitos, mas um episódio dessa proporção, que foi classificado como massacre pelos jornalistas, que repercutiu fora do Brasil, nos tornou ainda mais fortes para o embate. O que aconteceu também gerou um apoio muito forte da sociedade paranaense sobre a greve. Há um grau de apoio a nós e de indignação com um governo que tinha feito uma campanha que pregava a ampliação de direitos e, em um primeiro momento após as eleições, fez um ataque que provoca com certeza uma redução da qualidade do ensino no Estado. Tudo o que aconteceu foi um marco a mais, tivemos uma atuação muito forte em fevereiro, e o 29 de abril consolida uma ruptura eleitoral da própria parcela da população que votou no Beto Richa, assim como nesses deputados da base dele. Hoje eu acho difícil que qualquer um deles tenha condições de se deslocar em qualquer agenda pública numa boa.

Na nossa pauta tivemos avanços importantes: com a nossa greve, a primeira avaliação é que o reajuste para nós seria zero, por conta da crise nos cofres do Estado. Isso é um dado muito concreto. A greve que fizemos passa pelo tema da previdência e pelos reajustes salariais. Em pouco mais de 100 dias de governo, o governador, que tinha uma grande base de apoio, hoje só segura a maioria ‘na unha’, no limite mesmo, então consideramos isso também uma vitória política. A base de apoio que restou não tem condição política ou moral de aprovar nada.

Estamos aqui, com disposição para insistir na retomada das negociações. A Casa Civil interrompeu o diálogo com todos os servidores, e também não aceitamos que exista qualquer punição. Sabemos que diretores das escolas estão sendo ameaçados com processos administrativos, o governo vem agredindo o direito de greve. É aquilo: usa a fala de diálogo, mas se comporta como uma ditadura.”

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