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28/05/2015 10:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:13 -02

Polícia Federal e Ministério Público Federal fazem buscas no Rio e investigam papel de brasileiros na corrupção da Fifa

Montagem/Estadão Conteúdo

As operações e processos deflagrados nos Estados Unidos e na Suíça por conta da corrupção na Fifajá geraram os primeiros reflexos no Brasil. Na noite desta quarta-feira (27), policiais federais e procuradores participaram de uma ação de busca e apreensão em uma empresa que já esteve ligada ao empresário J. Hawilla, brasileiro que se declarou culpado às autoridades americanas. E, ao que parece, é apenas o início da investigação de corrupção por aqui.

A firma Kefler do empresário Kleber Leite, ex-presidente do Flamengo e sócio da empresa, foi alvo dos policiais no Rio de Janeiro. Ele afirmou que "não tem nada a esconder" e culpou Hawilla, dono da Traffic, pelo envolvimento de seu nome na investigação do FBI que prendeu cartolas do futebol. Por volta das 18h, sete agentes da Polícia Federal (PF) e dois procuradores do Ministério Público Federal (MPF) estiveram na sede da Kefler, localizada no bairro de Botafogo, na zona do sul do Rio, com um mando de busca e apreensão. Eles ficaram até às 20h40 recolhendo documentos, computadores e até o telefone celular de Kleber Leite.

"Chegaram com mandado de busca e apreensão, e o que solicitaram foi tudo entregue a eles. Mostrei o cofre, abri toda a empresa pra eles. Estou inteiramente à disposição porque não há nada a esconder. O que foi solicitado a eles foi entregue, inclusive meu telefone celular", disse Leite cerca de 50 minutos depois, em conversa com jornalistas em um dos escritórios da empresa. Ele estava acompanhado dos advogados Michel Assef e Michel Assef Filho.

De acordo com o Ministério da Justiça, a operação faz parte de um pedido de cooperação feito pela governo dos Estados Unidos, que investiga um grande esquema de corrupção envolvendo membros da Fifa. Mais cedo, na Suíça, dirigentes da entidade foram detidos, entre eles, o ex-presidente da CBF José Maria Marin. A Klefer é responsável por negociar contratos de transmissão de jogos para a CBF.

Segundo o empresário, ele só está sendo investigado devido a um acordo que fez com Hawilla por conta dos direitos da Copa do Brasil. De acordo com ele, a Kefler assumiu os direitos da competição em janeiro, mas foi procurada pela Traffic - que detinha os direitos até dezembro - para participar do novo acordo, que é válido até 2022.

"Houve um apelo dele (Hawilla) para mim, no sentido que a Traffic pudesse continuar nesse processo, que a situação da empresa dele era delicada. Eles tinham poucas situações de propriedade no momento. Como nossa relação é antiga, e fica um pouco de afinidade disso, de relação até de ordem familiar, reuni aqui os sócios e todos concordaram em abrir essa possibilidade para a Traffic, o que foi feito", explicou Leite.

"A atitude, do depoimento da pessoa em questão (Hawilla), eu jamais poderia esperar. Essa própria competição, que é a única relação que nós temos, poderia não estar sendo dividida hoje com a Traffic. Está por uma concessão nossa. Me causa espanto que isso possa ter partido dele, até porque mais do que ninguém ele sabe como se age e como se trabalha aqui", comentou o empresário.

Ainda no Rio, é esperada uma visita dos policiais federais e procurados à sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), também cumprindo mandados de busca e apreensão. Em nota enviada ao Brasil Post, o MPF informou que “não se manifestará sobre o assunto” e que “eventuais acordos de cooperação internacional tramitam sob sigilo, sob pena de prejudicar o andamento das investigações”.

Já a CBF divulgou que vai "reanalisar todos os contratos ainda vigentes e remanescentes de períodos anteriores", mais precisamente aqueles firmados durante a gestão de Ricardo Teixeira (1989-2012) à frente da entidade. Por ora, Marin foi afastado do cargo de vice-presidente da CBF. Já Teixeira, até a tarde desta quarta, não tinha seu nome envolvido no escândalo. Amigos próximos dizem que estava na Europa. Teixeira tem duas residências: uma no Rio e outra no Uruguai. Ele deixou Miami, onde se refugiou em 2012, há pelo menos um ano.

Linha histórica do poder no futebol brasileiro remonta aos anos 70

Para entender as relações entre CBF, a empresa Traffic e José Maria Marin é preciso recorrer ao surgimento de Ricardo Teixeira no futebol brasileiro e todas implicações que vieram a seguir. Teixeira apareceu em 1989 quando venceu as eleições à presidência da CBF, apadrinhado por João Havelange, então o dono do universo do futebol na condição de presidente da Fifa desde 1974. Teixeira era genro de Havelange. Nada mais natural do que por alguém da "família" para continuar no poder.

Eleito presidente da CBF, Teixeira encontrou a entidade sem caixa. Na campanha, ele havia assumido compromissos com federações estaduais e clubes e precisava de recursos para pagar a conta. A saída foi recorrer a dois amigos, os ex-repórteres esportivos J. Hawilla e Kleber Leite, que começavam a crescer no mundo dos negócios do marketing do esporte. Hawilla era dono da Traffic e Kleber, da Klefer. Os dois se tornaram parceiros no negócio de venda de placas de publicidade nos estádios. Foram ao mercado e conseguiram arrancar da Pepsi-Cola um investimento de US$ 1 milhão (R$ 3 milhões em valores atuais) para a CBF.

Com esse dinheiro, Teixeira quitou as "dívidas" que tinha com seus eleitores. Grato à dupla Hawilla e Kleber, Ricardo Teixeira passou a operar os contratos de marketing da CBF com os dois pupilos. A primeira grande operação foi o contrato com a Nike, firmado em 1996. Na época, era o maior contrato de patrocínio de uma empresa de material esportivo com uma entidade de futebol - a bagatela de US$ 200 milhões (R$ 600 milhões em valores atuais).

Hawilla, mais do que Kleber, foi um dos principais articuladores na negociação com a Nike. Ganhando assim mais prestígio com Ricardo Teixeira. Hawilla ampliou sua parceria com o futebol estendendo seus vínculos com a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), agora nos negócios dos direitos de transmissão da televisão dos principais campeonatos do continente.

Para não ficar de escanteio, em especial na Argentina, Hawilla fez da Traffic sócia da Toneyos y Competencias, empresa argentina que reinava absoluta na venda dos direitos de televisão. Estava criada a T&T Sports Marketing, responsável pelos direitos da Copa Libertadores e Copa América. Kleber Leite não acompanhou seu velho amigo J. Hawilla nessa empreitada.

Por desavenças nos negócios, Kleber perdeu espaço na CBF de Ricardo Teixeira. Hawilla continuou presente e ampliando sua teia. Virou parceiro do Grupo Águia, de Wagner Abraão, então um amigo de Teixeira. Esse Grupo Águia é o encarregado das viagens e hospedagens da CBF (cartolas e seleção brasileira) há 30 anos. Está nesse mercado desde 1982. Hawilla e Abraão montaram uma sociedade e compraram por US$ 40 milhões (R$ 12 milhões em valores atuais), da suíça Match Hospitality, os direitos exclusivos da venda dos ingressos vips e corporativos da Copa do Mundo de 2014.

Enquanto isso, José Maria Marin, então vice-presidente mais velho da CBF, já havia assumido o trono na presidência da CBF, com o afastamento de Ricardo Teixeira, em 2012, envolvido em escândalos de corrupção tanto na CBF quanto na Fifa. Quando Marin de fato assumiu a cadeira de Teixeira, Hawilla já não tinha ligação direta com a CBF. Seus negócios eram mais com o Grupo Águia, de Abraão, o mesmo que vendeu um luxuoso apartamento na Barra da Tijuca a Marco Polo Del Nero, pouco antes de o cartola virar presidente da CBF, no último dia 15 de abril.

Fora da CBF, a Traffic, de Hawilla, abriu espaço para a volta de Kleber Leite, com sua Klefer. Marin e Del Nero passaram a se entender melhor com Kleber que, não por acaso, comprou os direitos de televisão da Copa do Brasil no período de 2015 a 2022. Os direitos pertenciam à Traffic até 2014. A Copa do Brasil faz parte das investigações da FBI e Justiça Americana no escândalo da Fifa deflagrado nesta quarta-feira. J. Hawilla, por acordo de delação premiada, devolveu cerca de R$ 400 milhões à Justiça Americana.

Defesa de Marin e repercussão internacional

Peça-chave na engrenagem que se investiga no Brasil, a multinacional americana Nike confirmou que foi procurada por autoridades dos Estados Unidos que investigam o escândalo de corrupção que abalou a Fifa nesta quarta-feira. A fornecedora de material esportiva não é patrocinadora da entidade, mas tem vínculo com federações, como a CBF, para patrocinar diversas seleções nacionais.

A empresa norte-americana afirmou que está cooperando com as investigações, mas não deu detalhes sobre quais suspeitas recaem sobre a famosa marca. Há suspeita de irregularidades no contrato da Nike com a CBF. De acordo com a investigação americana, a Nike teria pago uma propina de US$ 40 milhões (cerca de R$ 127 milhões) em uma conta na Suíça para fechar um contrato com a CBF para patrocinar a seleção brasileira. Segundo o levantamento, o acordo avaliado em US$ 140 milhões (R$ 445 milhões) rendeu em pagamentos paralelos e depositados no paraíso fiscal alpino.

As duas empresas que teriam recebido o dinheiro seriam a Traffic Sports International Inc. e a Traffic Sports USA Inc. -, que estão sediadas na Flórida (EUA). Ambas são citadas pela Justiça americana. Os suíços já indicaram que contas foram bloqueadas. Mais cedo nesta quarta, Marco Polo Del Nero, atual presidente da CBF, se recusou a comentar o contrato da Nike. Del Nero, por enquanto, parece mais preocupado em defender Marin e a CBF.

Falando no ex-presidente da CBF, ele está preso em uma ‘prisão exemplar’ da Suíça e “passa bem”, segundo informaram autoridades suíças na manhã desta quinta-feira (28). No Brasil, o presidente do PTB no Estado de São Paulo, o deputado estadual Campos Machado, emitiu comunicado oficial na tarde de quarta para defender Marin, presidente de honra do PTB Esporte.

"Desconheço os motivos pelos quais o ex-governador e ex-presidente da CBF, José Maria Marin, foi detido na manhã de hoje, em Zurique, na Suíça, mas posso afirmar, desde logo, pelo que conheço da sua vida, ele seria incapaz de praticar algum fato que pudesse ser considerado criminoso. Posso assegurar que, enquanto a Justiça não se manifestar, definitivamente, não cabendo mais nenhum recurso, ele não será expulso do PTB. Mesmo porque uma pessoa só pode ser considerada culpada quando nenhum recurso mais pode ser apresentado em relação à sua culpabilidade", escreve Campos Machado, aliado histórico de Marin.

Voltando ao exterior, o ministro dos Esportes da África do Sul, Fikile Mbalula, disse nesta quinta que todos os recursos da Copa do Mundo de 2010 foram contabilizados e auditados, e que o governo ainda não recebeu um indiciamento de procuradores norte-americanos envolvendo sul-africanos.

Na Rússia, o ministro dos Esportes da Rússia, Vitaly Mutko, disse que "não há risco" de o país perder o direito de sediar a Copa do Mundo de 2018, após investigadores suíços abrirem uma investigação criminal sobre o processo de escolha das sedes dos próximos Mundiais. "Não há risco de perder a Copa do Mundo", disse Mutko, de acordo com a agência de notícias RIA.

(Com Estadão Conteúdo e Reuters)

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