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28/05/2015 11:06 -03 | Atualizado 13/09/2019 15:49 -03

Conversamos com terapeutas de casal para descobrir se Capitu traiu Bentinho

Divulgação

Por opção ou para fazer uma prova no Ensino Médio, todo mundo já leu Dom Casmurro (1889) pelo menos uma vez na vida. Se não leu o livro, leu ao menos uma resenha. Há 130 anos, a dúvida da traição de Capitu assombra os amantes de livros e os curiosos.

Como Machado (1869 -1904), infelizmente, morreu e a Literatura ainda não tem respostas para esse enigma, recorremos a dois terapeutas de casais para descobrir se o romance é mesmo o Otelo Brasileiro.

O psicólogo e terapeuta Antônio Carlos Alves de Araújo não hesita em responder que existiu traição. “Bentinho era paranoico, mas na maioria das vezes, a paranoia tem um fundo de verdade.”

Segundo o psicólogo, existem três tipos de ciúmes: doentio, moderado e patológico. A paranoia faz parte do ciúme doentio, já que o ser não faz mal diretamente ao outro, mas acredita nas histórias que inventa.

Araújo explica que a paranoia é uma doença pouco estudada na psicologia. “A pessoa para de pensar em si mesma e pensa no que o outro faz” e acrescenta que Capitolina tinha características feministas mesmo dentro da sociedade do século 19. “Ela era mais mulher do que Bento era homem, não aceitaria se sujeitar.”

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Cena de Família de Adolpho Augusto, retratando a sociedade da época. Artista: Almeida Júnior. (Foto: Wikimedia Commons)

O terapeuta acrescenta que a paranoia é descrita com tamanha fidelidade na obra que o próprio Machado pode ter vivenciado essa situação. “Para mim o livro é auto-biográfico, ninguém fala com tamanha autoridade de ciúmes sem ter vivido algo parecido. Além disso, o autor é especialista em paranoia, assunto que ele também traz em O Alienista.”

A psicóloga Anna Hirsh Burgh diz que só seria possível definir se existiu traição se fosse feito um exame de DNA, mas destaca que o protagonista é muito ciumento. Para ela, isso fica mais evidente no capítulo CXXIII, “Olhos de Ressaca”, quando Bento descreve o comportamento de Capitu no enterro de Escobar.

Segundo o ponto de vista psicanalítico, Anna explica que Bentinho não se via como alguém amado e era inseguro. “Usando dois termos do amor grego citados nos texto O Banquete de Platão, conseguimos entender o que acontece com Bento. Érastes é aquele que ama e Éromenus o amado. Bentinho se coloca desde o início de seu relacionamento como aquele que ama.”

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Bentinho não se via como uma pessoa amada. (Foto: Divulgação/Rede Globo).

A terapeuta também menciona que apesar do protagonista ter tudo para ser feliz – dinheiro, sucesso na carreira, uma bela mulher – sofria pelo “amor” que sentia. “Podemos dizer que Capitu era para Bentinho tanto objeto de desejo quanto objeto de angústia, sua vida amorosa tomou caminhos infrutíferos, melancólicos e solitários.”

Se esse caso tivesse acontecido hoje em dia, e o casal tivesse feito uma terapia, os psicólogos afirmam que a probabilidade de outro desfecho para a história seria bem grande. “Não existe uma maneira, uma fórmula generalizada de se trabalhar a questão de ciúmes na clínica, existe outra maneira de se posicionar frente ao sofrimento, ou seja, lá onde havia uma certeza, instalamos uma dúvida”, explicou Anna.

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