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27/05/2015 18:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:13 -02

Cientistas alertam para químicos em carpetes, casacos e utensílios de cozinha

like new condition) and thrifted wooden utensil I've used for years" data-caption="Thrifted Calphalon 12" non-stick fry pan (bought in 2007 in like new condition) and thrifted wooden utensil I've used for years" data-credit="EraPhernalia Vintage/Flickr">

Em 1961, um toxicologista da DuPont alertou aos colegas que a exposição aos químicos da linha de produtos Teflon aumentava os fígados de ratos e coelhos.

Estudos nas décadas seguintes apontaram que não existem níveis seguros para a exposição de animais a esses químicos e que os humanos também podem adoecer se entrarem em contato com eles. Os químicos se acumulam no corpo e resistem à decomposição no ambiente.

O antiaderente, no fim das contas, tende a "grudar" na gente.

No fim de 2015, algumas dessas mais notórias substâncias polifluoralquil e perfluoralquil, ou PFASs, deixarão de ser usadas nos Estados Unidos. Mas em seu lugar surgiu outro grupo de PFASs que tem muitas das mesmas características preocupantes.

“Sabemos que esses substitutos são igualmente persistentes. Eles não se decompõem no tempo geológico”, disse Arlene Blum, química da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e diretora executiva da organização sem fins lucrativos Green Science Policy Institute.

Recentemente, a revista Environmental Health Perspectives publicou um documento conhecido como Declaração de Madri , assinado por mais de 200 cientistas de 38 países.

A declaração destaca o potencial dano dos químicos PFAS, antigos e novos. Você provavelmente os conhece como o negócio que protege seu carpete contra manchas, impede que a comida grude em embalagens ou panelas, repele a chuva do seu casaco e evita que o rímel escorra pelas suas bochechas.

“É uma decisão séria produzir químicos que durem tanto tempo, e colocá-los em produtos dirigidos ao consumidor final com altos níveis de exposição humana é preocupante”, disse Blum, que também é a autora principal da declaração.

Em um editorial que acompanha a declaração, Linda Birnbaum, chefe do programa nacional de toxicologia do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, e Philippe Grandjean, chefe de medicina ambiental da Universidade do Sul da Dinamarca, citam a prática comum das empresas de substituir químicos proibidos por outros estruturalmente similares, como no caso da troca do bisfenol S pelo bisfenol A.

Outros especialistas culpam esse padrão na legislação desatualizada do país, que permite que os químicos sejam considerados inocentes até prova em contrário.

“Hoje as empresas podem produzir outros químicos sem ter uma clara ideia do seu impacto na saúde e no ambiente”, diz Alex Stone, químico sênior do Departamento de Ecologia do Estado de Washington e signatário da Declaração de Madri.

Os cientistas pedem cooperação mundial para limitar a produção de PFASs e para identificar alternativas seguras. Grupos da indústria, por sua vez, continuam a afirmar a segurança das novas versões dos químicos.

Os substitutos têm cadeias menores de átomos de carbono fluorados, o que, segundo os especialistas, reduziria sua toxicidade e ajudaria o corpo a excretá-los com mais rapidez.

“Existem dados científicos substanciais sustentando a conclusão de que os PFASs de cadeia curta não devem representar riscos significativos”, escreveu Jessica Bowman, diretora-executiva do FluoroCouncil, um braço do grupo industrial American Chemistry Council, em declaração enviada por email ao The Huffington Post.

Bowman publicou na sexta-feira uma coluna de resposta na Environmental Health Perspectives, enfatizando que os químicos são “essenciais” para “coisas que encaramos como se fossem garantidas”, incluindo produtos que reduzem as emissões de gases causadores do efeito estufa em carros e que protegem aventais cirúrgicos de patógenos que circulam em fluidos.

“Não acreditamos que a Declaração de Madri reflita uma consideração verdadeira dos dados disponíveis sobre as alternativas aos [PFASs] de cadeia longa”, disse ela ao HuffPost.

Ainda assim, os críticos afirmam que não existem informações suficientes para ter certeza de que os químicos substitutos sejam substancialmente mais seguros que as versões anteriores.

“Os fabricantes disseram [que os PFASs de cadeia longa] não tinham problemas durante décadas”, disse Blum.

A Declaração de Madri menciona dados que ligam a exposição aos PFASs a certos tipos de câncer, puberdade atrasada, redução de fertilidade, problemas imunes em crianças e colesterol elevado, entre outros problemas de saúde.

Um estudo dinamarquês publicado em abril levanta novas preocupações, ligando altos níveis de PFAs no sangue, inclusive das novas versões, a um risco até seis vezes maior de abortos naturais

Quando o HuffPost perguntou exatamente quando ficou claro que os PFASs de cadeia longa usados anteriormente no Teflon e em outros produtos eram “perigosos para a saúde humana”, Bowman disse apenas que as empresas associadas tinham começado a trabalhar com a Agência de Proteção Ambiental americana e outros reguladores para eliminá-los “há uma década”.

Há dez anos, em 2005, a EPA multou a DuPont em 16,5 milhões de dólares, a maior multa de todos os tempos, dizendo que a empresa tinha segurado décadas de informações relativas aos efeitos perigosos dos PFASs.

Isso segundo um lembrete útil do Environmental Working Group, um órgão sem fins lucrativos, em um relatório separado, também publicado na sexta-feira.

Eles observam que os documentos internos revelam que a DuPont sabia havia muito tempo que os produtos químicos “causam câncer, tinham envenenado a água potável no River Valley, em Ohio, e poluíram o sangue de pessoas e animais em todo o mundo.”

“Mesmo quando a EPA consegue punir uma empresa, não é um impedimento suficiente. Um par de anos de produção facilmente cobre a multa que eles receberam”, disse Bill Walker, co-autor do relatório do grupo, que foi acompanhado por um guia que ensina o consumidor a evitar PFASs potencialmente perigosos.

O grupo recomenda evitar panelas antiaderentes em favor de aço inox ou ferro fundido, por exemplo, e fazer pipoca do jeito antigo -- no fogão.

A porta-voz da DuPont Janet Smith disse em um e-mail que o relatório do grupo continha “uma série de observações imprecisas e enganosas”. Instada a especificar as imprecisões, Smith disse ao HuffPost que ela “não poderia discutir” por causa de um “processo em andamento”.

A Patagonia é uma das empresas que estão eliminando os PFASs de cadeia longa. Mas, ao invés de simplesmente abraçar seus primos de cadeia curta, o porta-voz Adam Fetcher sugeriu que a empresa está “trabalhando duro para encontrar uma alternativa” aos produtos químicos fluorados.

Ele destacou o recente investimento da Patagonia na Beyond Surfaces Technologies, uma startup suíça que está desenvolvendo produtos químicos substitutos à base de plantas. “Vemos um enorme potencial”, disse Fetcher.

Stone ainda apontou o potencial uso de biomimetismo como proteção de superfícies sem o uso de produtos químicos. “Certos designs em forma de folhas realmente ajudam a acumular e fazer escorrer a água”, disse ele.

No final, nenhuma das alternativas pode ser tão eficaz como os sintéticos de hoje. Mas, como observou Blum, elas podem ser boas o suficiente, pelo menos em alguns casos.

"Se você for escalar o Monte Everest, talvez precise desse nível de repelência à água", disse Blum, que foi a primeira mulher americana a tentar subir a montanha. “Mas você precisa disso para ir à praia?”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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