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26/05/2015 18:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Sem propina, relação com Petrobras seria 'muito difícil', diz ex-executivo da Camargo Correa

Montagem/Estadão Conteúdo

O ex-vice-presidente da Camargo Corrêa Eduardo Hermelino Leite disse nesta terça-feira, 26, aos deputados da CPI da Petrobras que a relação da empreiteira com a estatal seria "muito difícil" se não houvesse o pagamento de propina a diretores.

De acordo com Leite, os ex-diretores Paulo Roberto Costa (Abastecimento) e Renato Duque (Serviços) poderiam impor penalidades à construtora e não receber representantes da empresa para tratar das obras se os pagamentos não fossem feitos regularmente. Os repasses eram feitos de forma contínua.

No depoimento, Leite disse que o ex-gerente de Serviços Pedro Barusco deixou claro que a Diretoria de Serviços servia aos interesses do PT e que o diretor Renato Duque era apadrinhado do partido, ao qual o esquema deveria prestar contas. Com a saída de Duque da Petrobras, o ex-diretor o procurou para que sua consultoria fosse contratada de forma a manter a rotina de pagamento de propina.

Ele voltou a falar do encontro com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, que queria recursos para o partido. Leite afirmou que a Camargo se recusou a pagar propina em forma de doação para campanha eleitoral.

Privado de dar detalhes sobre o processo de corrupção na Petrobras, Hermelino Leite sinalizou aos deputados que forneceu à Justiça Federal informações sobre envolvimento de funcionários do baixo escalão da estatal no esquema de corrupção. Leite disse que entregou ao Ministério Público documentos comprovando a participação dos funcionários.

Leite reafirmou o envolvimento de nomes já conhecidos, como os ex-diretores Paulo Roberto Costa e Renato Duque, além do ex-gerente Pedro Barusco. Ele mencionou também a participação de empresas de consultoria no esquema, as quais não pode revelar os nomes.

O executivo contou que entregou uma planilha ao MP indicando as obras e os recursos repassados aos operadores. Quando havia atrasos nos pagamentos, Alberto Youssef e Júlio Camargo costumavam cobrar os valores não pagos. "Éramos cobrados pelos operadores e por quem poderia influenciar (no contato com a Petrobras)", declarou.

Leite contou que prestou mais de 50 horas de depoimento aos investigadores da Operação Lava Jato. "Hoje vejo com admiração o trabalho da Policia Federal e do Ministério Público", elogiou.

Entre os erros da Petrobras no processo, o executivo apontou a pressa na execução das obras e projetos básicos falhos como pontos que prejudicaram a estatal. Para ele, o escândalo pode ajudar a mudar os procedimentos da companhia. "Esse é um momento de reinvenção para que possamos ter um processo melhorado", avaliou.

Durante o depoimento, Hermelino Leite chorou ao falar dos filhos e do prejuízo que a prisão na Operação Lava Jato causou à imagem de sua família. "Isso não me é agradável", disse o delator, que hoje cumpre prisão domiciliar.

Leite assumiu a vice-presidência da empreiteira em 2011 e disse que foi cooptado por um esquema preexistente. Segundo ele, seus antecessores Leonel Viana e João Auler passaram a orientação de que a Camargo Corrêa deveria continuar pagando propina ao esquema. "Não me via cometendo um crime, era algo que já existia, que era funcional", declarou.