'Medo é fundamental. Vem com medo mesmo!'

Muito se tem falado esta semana sobre um acidente que abalou o mundo dos esportes de adrenalina. Dean Potter, um dos maiores atletas radicais dos Estados Unidos, desapareceu no último sábado (16) durante um salto de wingsuit no parque nacional Yosemite, na Califórnia. Ele estava com o amigo Graham Hunt, de 29 anos. Depois de várias tentativas de contato pelo rádio, uma equipe do parque foi acionada e iniciou as buscas com um helicóptero. Infelizmente, os companheiros de salto foram encontrados mortos no domingo (17).

Wingsuit é um traje apropriado para voos de alta performance. O paraquedista usa um macacão com asas e se transforma praticamente em um pássaro. Para pousar, é necessário o uso de um paraquedas.

Aos 43 anos, Potter era famoso pela habilidade e experiência no esporte, além de ser muito cauteloso. Era daqueles caras que a gente vê na televisão fazendo loucuras no ar e pensa: “Se alguém sofrer um acidente de wingsuit, nunca será ele!”. De fato, a sua morte foi uma surpresa para todos. Começou nos esportes radicais ainda criança, e além do base jump, também escalava e era adepto do slackline.

Os motivos que levaram o salto a ser fatal estão sendo investigados, mas já se sabe que nenhum paraquedas foi acionado. Isso significa que não houve tentativa de amenizar a queda. Os dois amigos pularam de um penhasco a mais de 2.300 metros de altura, à beira de um cânion, em uma linha de voo em que é preciso fazer uma curva para a esquerda em poucos segundos. Talvez não tenha dado tempo de fazer essa curva e eles tenham batido na pedra.

A comoção é grande quando algo assim acontece durante a prática de um esporte radical. Todos nós, viciados em adrenalina, queremos arriscar as nossas vidas, mas com a esperança de que não seremos a próxima vitima do acaso.

Na quinta-feira (21) mesmo, durante um passeio em um parque na minha cidade, conheci um paraquedista profissional que não estava voando por causa do vento forte. Ele me convidou para saltar qualquer dia desses, e apesar da minha enorme vontade, eu disse que tinha medo. A resposta dele foi: “O medo é fundamental. Se ele não existisse, eu teria saltado hoje e talvez não estivesse aqui falando com você agora. Vem com medo mesmo”.

Eu entendi o que ele quis dizer. Quem ama o perigo não pode viver sem medo. Afinal, é ele que nos mantém vivos. Talvez tenha faltado um pouco de medo ao nosso querido Dean Potter. Mas e se foi justamente essa característica desbravadora que o fez tão único e diferente?

Ter medo significa não ser corajoso? E quem é corajoso, nunca tem medo? Eu acho que a coragem é a liberdade infinita da nossa alma, e o medo é o instinto de sobrevivência. É muito difícil equilibrar os dois. O esporte radical desafia os dois. Então quem sabe em um post futuro vocês vão me ver aceitando o convite do paraquedista?