COMPORTAMENTO
21/05/2015 13:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

O Vale do Silício já não vive mais sem suas pílulas

Lá está você, sentado em um escritório no Vale do Silício. Sua startup acaba de receber um investimento de 250 milhões de dólares e você sabe que essa é a sua chance, é tudo ou nada. Mesmo assim, seu cérebro parece não compreender a importância do desafio que tem pela frente. Ultimamente, ele não pega no tranco, é o cansaço acumulado. À sua frente há uma pilha de papéis que você precisa ler, com a máxima atenção, antes de decidir o que fazer com sua empresa e o produto revolucionário que está criando. Mas, você sabe que, do jeito que está, não chegará ao final da primeira folha. O que você faz então? A resposta é pequena, engolível e comum no Vale do Silício: Smart Drugs.

David Asprey é um dos empresários do local mais conhecido por usar as Smart Drugs. Toda dia de manhã, ele toma cerca de 15 pílulas. Piracetam, Aniracetam, CILTEP, Methyl, Conalamin, só para citar alguns nomes. A dose matinal de Asprey é um mix de compostos que aumentam as funções cognitivas.

As Smart Drugs, também são conhecidas pelo nome de Nootropics. As cápsulas possuem desde óleo de peixe até Modafinil, um medicamento para narcolepsia. Embora algumas dessas drogas sejam naturais e legais, a maioria requer prescrição e traz riscos de dependência química. Geralmente elas são, ou já foram, utilizadas em tratamentos de déficit de atenção, Alzheimer e Parkinson, entre outras doenças neurológicas. Mas não é difícil consegui-las na internet.

De acordo com Asprey, cada pílula tem um benefício. Ele afirma que gastou 15 anos e mais de 300 mil dólares para “corrigir sua própria biologia” e desenvolver os medicamentos que toma. Junto com os suplementos, ele também utiliza técnicas para exercitar seu cérebro. Asprey afirma que aumentou seu QI em 20 pontos. Agora, ele vende algumas das drogas que toma. A maioria dos seus clientes está justamente no Vale do Silício.

O Vale das Drogas

“Tem muita gente com vontade de ir além dos seus limites, fazer mais e melhor”, afirma Robert Rhinehart, o fundador do Soylent, poderoso drink do Vale do Silício, e usuário regular das Smart Drugs. “O corpo humano é a próxima máquina fascinante e esconde um grande potencial”, completa. Ele não parece surpreso com a popularidade do produto entre os jovens profissionais. “Há muitas coisas que precisam ser avaliadas numa consideração sobre o que é bom ou não para a vida. Mas se você pode ser produtivo em menos tempo, você terá mais tempo no total”. Além disso, ele alerta: “nootropics são bem mais seguros que outras coisas”.

O empreendedor Jesse Lawler é fundador do site SmartDrugsSmarts.com e diz que o uso desse tipo de drogas no Vale do Silício é massivo.

Como seu cérebro reage

A maioria dessas drogas nunca foi testada por longos períodos, já que o objetivo das Smart Drugs nunca foi tornar as pessoas mais inteligentes.

Modafinil é uma das mais famosas e é comumente comparada com anfetaminas. Mas o consenso geral é que ela limpa sua mente sem acelerá-la. É a sensação de estar focado e ansioso para o trabalho que faz com que a droga seja tão sedutora para esses empresários. Quanto mais você toma, mais tempo ela funciona, e qualquer dose administrada pode durar até 15 horas.

“Se eu tomar modafinil na parte da tarde – vamos dizer que depois do almoço – eu posso usar a potência extra. Vou tomar meio comprimido – cerca de 100 miligramas, uma quantia baixa – e com isso eu posso continuar até as duas da manhã e ainda ser produtivo”, afirma Jesse Lawer.

É um argumento convincente, mas cientistas não o compram. Até onde se sabe, as smart drugs podem produzir efeitos colaterais como sonolência, ansiedade, náuseas, insônia e formigamento. Mas novos sintomas são relatados em fóruns todos os dias. Cientistas também alertam que, um uso constante pode fazer com que o corpo do usuário se acostume a esses medicamentos e, após um tempo, eles não tragam mais resultados.

“Assim como um atleta Olímpico que está disposto a fazer qualquer coisa, mesmo que isso encurte sua vida em cinco anos, para ganhar uma medalha de ouro, você vai pensar quais as pílulas e porções que pode tomar”, diz Tim Ferris, um empresário e investidor do Vale do Silício. “Em muitos casos, a diferença entre falhar completamente e ganhar milhões de dólares está exatamente aqui”, explica ele, apontando para a sua cabeça. Ferris afirma já ter experimentado todo o tipo de medicamento que você pode imaginar, descrevendo-se como uma cobaia humana.

A indústria dos Nootropics

Y Combinator, uma famosa aceleradora do Vale do Silício, recebeu dezenas de pedidos de empresários querendo criar suas próprias companhias de nootropics. “Há claramente uma demanda por consumo”, explica o presidente da companhia, Sam Altman. “Nós não decidimos nada ainda, nós estamos tentando entender o que está acontecendo”.

Mesmo sem eficácia cientificamente comprovada. Já há startups especializadas nas smart drugs, como truBrain, Nootrobrain, Nootro, e Nootrobox.

A Nootrobox teve início com Geoffrey Woo, em uma pós-graduação de ciência da computação de Stanford, e produz uma pílula chamada RISE. Por 29 dólares ao mês (mais frete), o comprador recebe 30 cápsulas, cada uma contendo 350 mg de bacopa monnieri em pó (uma erva medicinal que é comumente encontrada no Sul da Ásia), 100 mg de L-teanina (um aminoácido encontrado no chá verde), e 50 mg de cafeína.

De acordo com o Geoffrey, a empresa está “vendendo cinco figuras de suplementos cognitivos a clientes que incluem os principais executivos do Vale do Silício e magnatas de Hollywood.”

“Geralmente, levava-se uma vida inteira radicalmente estudiosa para deixar o corpo humano e a mente desta maneira. A tecnologia mudou as regras”, afirma o maior especialista em Smart Drugs, David Asprey. “Isto é real. É o que acontece quando você disseca o corpo humano da mesma forma que um website. É por isso que eu posso fazer o que eu faço.”