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19/05/2015 16:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Crise da água em SP: Hospitais denunciam ausência de plano de contingência para a falta de água na CPI da Sabesp

Montagem/Estadão Conteúdo

Historicamente, o período entre os meses de abril e outubro é conhecido em São Paulo como aquele com menos chuvas em todo o Estado. A situação não seria tão preocupante se os paulistas não estivessem enfrentando uma grave crise hídrica, a qual pode piorar nos próximos meses. E não pense em ficar doente: segundo hospitais da capital, não há um ‘plano B’ por parte da Sabesp.

“Não temos nenhum plano de contingência previsto pela Sabesp”, denunciou o gerente executivo de engenharia e infraestrutura do Hospital São Paulo, Carlos Cesar Meireles, em depoimento prestado no fim de abril à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada na Câmara dos Vereadores e que investiga o contrato entre a companhia de saneamento e a Prefeitura de São Paulo.

De acordo com Meireles, uma vistoria técnica foi feita pela Sabesp em março, para apurar quanto tempo o hospital conseguiria ficar sem abastecimento. “Na falta de abastecimento, conseguimos ficar por cerca de 24 horas com as nossas reservas”, comentou. A situação não é isolada, de acordo com o diretor técnico do Hospital Municipal São Luiz Gonzaga, Guilherme Ribeiro Siepe.

“O nosso prédio tem mais de 100 anos e é difícil implantar medidas radicais por conta da planta. No entanto, terceirizamos a lavanderia, estamos orientando as pessoas e temos um planejamento para substituir as torneiras”, disse. Já no caso do Hospital do Servidor Público Municipal, a redução do consumo permitiu uma economia de mais de R$ 500 mil por mês, porém o gerente de engenharia e manutenção José Carlos dos Santos Alves teme pelo pior.

“Temos capacidade de manter a instituição por até oito dias sem abastecimento. No entanto, a Sabesp nos afirmou que enviaria caminhões-pipa para garantir o fornecimento, o que seria um problema, já que consumimos muita água”, avaliou.

Na contramão do que disseram os representantes dos hospitais, a Sabesp informou que os hospitais e prontos-socorros “terão prioridade”. “A companhia está realizando obras em 626 pontos da Região Metropolitana de São Paulo para garantir que estes locais não sofram interrupção no abastecimento, no caso de um eventual rodízio”, pontuou a companhia.

Na semana passada, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deu início a um inquérito civil para que Sabesp e os governos municipal e estadual garantam o abastecimento prioritário de água nas escolas, creches e também em hospitais durante a crise da água estadual. As três esferas citadas têm até o início de junho para responder aos questionamentos, conforme informou a colunista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S. Paulo.

Menos investimentos em 2015

A notícia de um lucro 33% menor no primeiro trimestre deste ano em relação a 2014 fez a Sabesp anunciar que irá diminuir ainda mais os seus investimentos. A informação foi prestada pelo o diretor financeiro da companhia, Rui Affonso. “Com o estresse financeiro da companhia não é responsável da parte da Sabesp manter esse nível de investimento (de 2014), mas todos os investimentos em segurança hídrica estão absolutamente garantidos”, disse.

E não é só. Segundo Affonso, a política de bônus pode ser modificada ao longo do ano, mas por ora não há uma decisão fechada sobre o tema. Para o diretor, o cenário de chuvas continua desfavorável e não é possível estimar o nível de água dos reservatórios que abastecem a região metropolitana de São Paulo para o próximo ano. “Estamos muito longe de atravessar o deserto... Em termos de projeção para este ano a situação continua difícil e não temos condições de prever como será 2016”, afirmou.

Cantareira pode levar oito anos para se recuperar

Um estudo inédito feito por um professor da Universidade de São Paulo (USP) estima que o Sistema Cantareira pode levar até oito anos para atingir um nível de segurança hídrica, que seria de 38,3% da capacidade. Nesta terça-feira (19), o índice real de armazenamento estava em - 9,6%. Considerando as duas cotas do volume morto como positivas, o nível sobe para 19,7%.

Pedro Luiz Côrtes, coordenador da Rede Internacional de Estudos Sobre Meio Ambiente e Sustentabilidade, elaborou um modelo matemático que simula a recuperação do Cantareira levando em conta parâmetros estatísticos e ciclos climáticos, como a recente fase de esfriamento das águas do Oceano Pacífico, que impactam na redução de chuvas em São Paulo.

“Desde 1999, nós temos um resfriamento do Pacífico. Quando isso ocorre, como foi entre 1947 e 1977, a pluviometria média em São Paulo é de 1.300 milímetros, enquanto que no período quente fica em 1.500. É como se nós tivéssemos agora um mês muito chuvoso a menos por ano. Por isso, o modelo mostra que a tendência é de pouca chuva nos próximos anos e de uma difícil recuperação do Cantareira”, afirmou Côrtes.

(Com Reuters e Estadão Conteúdo)

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