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18/05/2015 09:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Crise no setor automotivo: Mesmo com vendas em queda, pátios cheios e demissões, por que os carros continuam caros?

Estadão Conteúdo/iStock

O desespero das montadoras do Brasil está estampado no noticiário, nos índices econômicos e nos comerciais cada vez mais apelativos, com famosos oferecendo “promoções arrasadoras”. A verdade é que o mercado esfriou. Em tempos de "vacas magras", o brasileiro estacionou seu consumo e não tem como sair dessa condição tão cedo.

A cada mês, as vendas de carro diminuem — e levam embora as expectativas “otimistas” do setor. Em seu último levantamento de emplacamentos de veículos, a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) diminuiu sua projeção para 2015, de -10% para -18% de vendas de automóveis e comerciais leve sobre o ano de 2014.

Em abril, as vendas de carros tiveram uma queda de 23,73% ante o mesmo mês de 2014. O ano acumula uma redução de 18,03% sobre os primeiros quatro meses de 2014. Com pátios abarrotados, as montadoras reduziram drasticamente a produção e, consequentemente, demitiram milhares de brasileiros — o que gerou mais rebuliço, com greves e paralisação em fábricas nos últimos meses.

Ainda segundo a Fenabrave, cerca de 250 concessionárias de veículos no Brasil fecharam as portas nos primeiros quatro meses do ano, desempregando 12 mil trabalhadores diretos.

O problema está tão grave que até o presidente da General Motors (GM) da América do Sul, Jaime Ardila, disse que a crise atual na indústria automobilística está pior que a de 2008, quando os Estados Unidos entraram em colapso, resultando em uma crise internacional. De acordo com a Veja.com, na época, alguns recursos, como isenção do IPI e de outros impostos, ajudaram o Brasil a manter o consumo. Agora, pelo contrário, o País enfrenta um duro ajuste fiscal, com aumento de taxas, juros altos e inflação crescente.

No entanto, ao passo que as vendas não dão sinal de melhora, os preços dos carros continuam lá em cima. Há promoções e facilidades de financiamento, a juros baixos e prazos longos, como a Ford, que oferece prestações que variam de 36 a 60 meses. Mesmo assim, os valores cobrados s no Brasil continuam muito elevados, ainda mais na comparação com outros países, tanto desenvolvidos (como Alemanha, Estados Unidos, Canadá), quanto emergentes, que têm economias parecidas com a brasileira, como é o caso do México e até Argentina.

Um Toyota Corolla 2015, versão mais básica, sem bancos de couro e com câmbio manual, custa a partir de R$ 70 mil no Brasil, com frete incluso, se comprado pelo site da montadora. Nos Estados Unidos, a versão mais em conta do mesmo carro (que vem com câmbio automático) sai por US$ 16.950, ou cerca de R$ 51.012, de acordo com a cotação do Banco Central da última quinta-feira (14). No México, o mesmo carro está à venda por 231 mil pesos mexicanos, o que equivale a R$ 46 mil .

Se compararmos os preços dos carros com a média salarial dos países, os números ficam ainda mais discrepantes. “No Canadá, um Toyota pode ser comprado por 9 mil dólares canadenses, o que dá mais ou menos 19 mil reais, sendo a média salarial do trabalhador de 43 mil dólares canadenses por ano“, afirma Luciano D’Agostini, economista, doutor em Desenvolvimento Econômico e membro do Cofecon (Conselho Federal de Economia). “Aqui, o mesmo carro sai por 70 mil reais, sendo que a média salarial do trabalhador não chega a 23 mil por ano”, compara, em entrevista ao Brasil Post.

Ou seja, no Brasil, um carro custa cerca de três vezes mais que o salário anual do trabalhador médio, enquanto no Canadá, o mesmo custa cinco vezes menos do que um profissional ganha ao ano.

Afinal, por que o carro é tão caro no Brasil?

1. Menor inovação e produtividade na indústria automotiva

O Brasil sedia uma grande indústria de montagem, mas não de tecnologia. Ou seja, as peças são feitas e os carros são montados no País, mas o núcleo de tecnologia, que promove inovação e alta produtividade, está em países desenvolvidos, como Japão e Estados Unidos, e na Europa.

“Onde há investimento em tecnologia e inovação, a produtividade aumenta e os custos de produção diminuem, resultando em preços mais baixos”, explica o economista. “Já quem paga mais pelo produto é aquele que tem menos tecnologia, que tem cadeias de produção mais burocráticas e caras, com pouca produtividade. Como é o caso do Brasil.”

O Brasil não é um país competitivo. Ele ocupa as últimas posições do ranking mundial de educação, tem uma das cargas tributárias mais altas do mundo (leia mais abaixo) e a população empregada tem baixo índice de produtividade.

“Se o governo não investe em educação, o brasileiro não consegue ganhar salários maiores. Se o governo não investe em tecnologia, o Brasil fica ultrapassado, improdutivo. Isto é, ganhamos pouco e nossa mão de obra não tem qualidade.”

2. Custo elevado das montadoras

Os funcionários brasileiros ganham menos, mas custam muito caro aos empregadores devido à legislação trabalhista. A indústria automobilística também se queixa do índice de produtividade dos trabalhadores.

Mas, se as leis trabalhistas já estão em vigor há décadas, por que as empresas escolheram o Brasil como parte de sua estratégia de expansão? D’Agostini explica:

“As montadoras vieram para o Brasil porque os governos estaduais e federais ofereceram isenção de impostos para instalação de fábricas. Em troca, elas empregavam os brasileiros e ajudavam a economia girar. Só que hoje, para muitas montadoras, está saindo mais barato sair do Brasil."

O setor se beneficiou da onda consumista brasileira, da ascensão da nova classe média e da redução dos impostos para os consumidores, como a isenção do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). Mas, na conjuntura de crise atual, o consumidor está mais cauteloso e um carro novo não é prioridade em um ano de aperto econômico.

3. Carga tributária pesada

Os impostos representam quase metade do valor de um automóvel no Brasil, ensina D’Agostini:

“Um Focus completo que custa R$ 67 mil, o consumidor vai pagar apenas em impostos R$ 28 mil, sem contar o IPI. Quase 50% sobre o preço final."

O sistema de tributos no Brasil é complexo, com particularidades em nível federal, estadual e municipal. E, apesar de estar entre as 30 nações com maior carga tributária do mundo, o País está no último lugar no retorno de prestação de serviços públicos.

Para o IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação), os governos devem aplicar melhor os recursos arrecadados para melhorar a qualidade dos serviços oferecidos à população.

4. Manutenção das margens de lucro das empresas

Seguindo o exemplo do Focus (que custa R$ 67 mil), após o desconto dos impostos, R$ 39 mil iriam para a montadora, que usaria parte desse dinheiro para pagar os custos e, é claro, para obter lucro. D’Agostini detalha:

“A matriz não vai perder sua margem de lucro. Ela prefere enxugar as fábricas a reduzir seu lucro. Até mesmo sair do Brasil, caso não valha a pena o custo de montar carros por aqui.”

De acordo com o economista, para não penalizar o trabalhador e nem expulsar as indústrias, o governo poderia isentar alguns impostos, em troca de as empresas diminuírem um pouco a margem de lucro.

Mas, para o presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Luiz Moan, o setor já "nem tem lucro".

Questionado se a indústria estaria disposta a reduzir seu lucro em troca reduções prorrogadas, o presidente disparou: "adoraria negociar isso, pois significaria que nós ainda temos margem de lucro", segundo o site especializado Automotive Business.

Ao explicar a "crise financeira do setor", Moan diz que de 2004 a março deste ano, a inflação medida pelo IPCA cresceu 62,5%, ao passo que os preços dos carros novos caíram 4,5%. Segundo o Automotive Business, esses dados acabam reforçando a tese de que as empresas mantêm uma alta margem de lucro, já que continuam no País apesar dessa disparidade de valores.

E as perspectivas não são das melhores…

Com a crise na economia, a volta da inflação e o aumento do desemprego no Brasil, o consumo das famílias está cada vez mais contido. “O PIB é fundamentado no consumo das famílias. Como o salário está pequeno, o consumo é menor. O mercado prevê um PIB negativo para este ano”, explica Luciano D’Agostini.

Para o economista, não basta reduzir os impostos nos próximos anos para animar novamente o consumo. “Temos que melhorar nossa produtividade, melhorando a educação. Se não fizermos isso, o País vai voltar a ser pobre, sem indústria, sem emprego.”

Melhorar a educação significa aumentar a produtividade, e assim o Brasil ganha fôlego para competir com economias emergentes, novamente. “Pelo contrário, na ótica da indústria, é mais barato sair do Brasil e importar produtos pra cá. E isso vai encarecer o produto para o consumidor. Se continuar assim, os filhos da nossa geração vão encontrar um Brasil muito pior do que a gente conhece hoje.”

Para quem pensa em comprar um carro neste ano, o economista recomenda cautela. Com os juros mais altos (e previsão de que continuem ou aumentem ao longo de 2015) e a volta do IPI, o consumidor pode se enrolar nas contas e acabar inadimplente. “Com incertezas econômicas e políticas, o ano não está propício para financiamentos de longo prazo.”

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