COMPORTAMENTO
18/05/2015 21:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Cientistas encontram deterioração alarmante no DNA dos pobres de áreas urbanas

DetroitDerek Photography - reprodução/flickr

Os pobres das áreas urbanas dos Estados Unidos estão envelhecendo rapidamente no nível celular, e o estresse crônico ligado tanto ao nível de renda quanto à identidade étnico-racial é responsável por essa deterioração fisiológica.

Esse é um dos resultados de uma pesquisa publicada por um grupo de biólogos e sociólogos de destaque, incluindo uma vencedora do Prêmio Nobel.

Arline Geronimus, pesquisadora visitante do Centro de Estudos Avançados da Universidade Stanford e autora principal do estudo, disse se tratar da pesquisa mais rigorosa do tipo a examinar como “processos com raízes estruturalmente sociais afetam mecanismo biológicos e têm impacto na saúde.”

O que eles descobriram

Os pesquisadores analisaram telômeros de brancos, negros e mexicanos pobres e de classe média baixa de Detroit.

Telômeros são pequenos fechos nas pontas dos cromossomos, como os pedaços de plástico no final de cadarços, e sua função é evitar que as células envelheçam prematuramente.

Os telômeros diminuem de tamanho conforme envelhecemos. Mas acredita-se que vários tipos de estresse crônico possam causar a diminuição dos telômeros.

Telômeros curtos são associados a uma série de problemas de saúde graves, como câncer, diabetes e doenças cardíacas.

As evidências cada vez mais indicam que o tamanho dos telômeros possa apontar uma expectativa de vida saudável. Ou, em outras palavras, “quanto mais curtos seus telômeros, maiores suas chances de morrer”

O novo estudo descobriu que os moradores de baixa renda de Detroit, a despeito da raça, têm telômeros significativamente mais curtos que a média nacional.

“Morar em bairros muito pobres e segregados racialmente tem impactos – as experiências de vida, as exposições do corpo, uma série de fatores – que simplesmente não são bons para a saúde”, disse Geronimus em entrevista ao The Huffington Post.

Mas, dentro desse grupo de moradores de Detroit, a relação entre raça/etnia e renda e o comprimento dos telômeros é muito variada.

Os brancos de classe média baixa tinham os maiores telômeros. Mas os telômeros mais curtos pertenciam aos brancos pobres.

Os telômeros dos negros tinham mais ou menos o mesmo comprimento, fossem eles pobres ou de classe média baixa. E mexicanos pobres tinham telômeros mais longos que os mexicanos de maior renda.

Geronimus disse que esses resultados demonstram a limitação dos parâmetros padrão – como raça, renda e nível de educação – tipicamente usados para examinar disparidades de saúde.

Dependemos demais desses indicadores para analisar tudo o que varia nas experiências de vida de diferentes grupos raciais e étnicos em diferentes localidades e circunstâncias”, disse ela.

Segundo Geronimus, é importante considerar não só a identidade étnico-racial, mas também “até que ponto ela é validada, ou alvo de discriminação, ou até mesmo compreendida dentro da experiência de vida diária”.

Isso pode afetar a saúde de um indivíduo dramaticamente, diz Geronimus. “A deterioração precária da saúde tem a ver com várias experiências de vida.”

Quando a identidade étnica tem impacto na saúde

Por que os mexicanos pobres no estudo têm telômeros mais longos (e em geral mais saudáveis) que os mexicanos não-pobres?

Geronimus aponta que, em primeiro lugar, a maioria dos mexicanos pobres de Detroit eram imigrantes de primeira geração ou parte de enclaves étnicos fechados.

Em contraste, entre os mexicanos não-pobres havia muitos nascidos nos Estados Unidos, mais integrados à cultura americana por meio do trabalho ou da escola.

“Se eles são imigrantes, eles têm uma criação e um histórico cultural diferente, que não reforça a ideia de que, por serem mexicanos, eles seriam de alguma maneira ‘diferentes’ ou ‘menores’ que os outros americanos”, diz Geronimus.

“Eles têm um sistema de apoio e uma orientação cultural que não mina seu senso de valor próprio. Eles também vivem nesses enclaves étnicos, muitos só falam espanhol, então eles não interagem com americanos que os veem como ‘forasteiros’ ou que os tratam mal. Não que eles sejam imunes a esse tipo de tratamento, mas eles não são tão sensíveis a isso e também não convivem com ele tão frequentemente.”

Por outro lado, mexicanos não-pobres têm mais probabilidade de “estar expostos a algumas das visões negativas que os americanos têm dos mexicanos, a ideia de que todas as pessoas de origem mexicana são imigrantes ou possivelmente imigrantes ilegais, ou então preconceitos mais neutros, como ‘eles devem falar espanhol’ ou ‘eles não entendem inglês’”.

Ironicamente, na tentativa de obter mobilidade social e de evitar o estresse da pobreza, esses mexicanos de classe média baixa podem enfrentar estresse mais pronunciado por causa de sua identidade étnica.

Geronimus disse que as descobertas do novo estudo, baseado em pesquisa fisiológica quantitativa, “se alinha perfeitamente” com outros estudos etnográficos de mexicanos em Detroit realizados por Edna Virtuell-Fuentes, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. Um website de saúde resumiu as conclusões do trabalho de Viruell-Fuentes:

Em 2007, Viruell-Fuentes entrevistou 40 mexicanas imigrantes de primeira e segunda geração da área de Detroit. Apesar de indicar que as dinâmicas raciais são difíceis de medir, com base nas entrevistas Viruell-Fuentes acredita que “identificar experiências discriminatórias pode ser um processo aprendido”. Muitas vezes, as imigrantes de primeira geração caracterizavam certas interações como rudes, enquanto as de segunda geração consideravam discriminação experiências semelhantes. [...]

Em uma análise de 2012, Viruell-Fuentes indicou que a primeira geração tende a ficar em enclaves étnicos, que tendem a oferecer proteção de algumas das desvantagens sociais enfrentadas pelos imigrantes.

“Para a segunda geração, o que eu acho que seja diferente é que eles têm uma vida inteira de exposição a um ambiente que estigmatiza suas identidades, o que, por sua vez, pode afetar sua saúde de forma negativa”, disse ela.

“A pergunta que costuma ser feita é: o que os imigrantes têm que os torna mais resilientes?”, diz Virtuell-Fuentes. “Mas a outra parte da pergunta, para mim, é: o que os Estados Unidos têm que prejudica a saúde das pessoas?

Outros impactos na saúde ligados a raça-etnia identificados no novo estudo podem ser considerados contraintuitivos.

Níveis de renda não pareciam ter efeito sobre o comprimento dos telômeros dos negros de Detroit, enquanto os telômeros dos brancos pobres eram significativamente mais curtos que os dos brancos não-pobres. Por quê?

Os autores do estudo afirmam:

Muitas pesquisas sugerem que a separação entre negros pobres e não-pobres do dia-a-dia é menos marcante que a entre brancos pobres e não-pobres. Não só os negros moram mais perto um dos outros, por causa da segregação residencial, mas muitas vezes negros pobres e não-pobres são membros das mesmas famílias ou redes sociais, ou então têm experiências semelhantes de viver com rendimentos baixos ou moderados.

A instabilidade de renda entre negros de classe média reflete a insegurança de emprego, uma relativa falta de bens convencionais ou riquezas para atravessar períodos difíceis ou uma divisão de trabalho na qual alguns têm de contribuir com a economia da família, seja trabalhando para gerar renda ou cuidando de familiares para que eles possam trabalhar. Outros ainda oferecem serviços e habilidades para fazer escambo.

Os pesquisadores também destacam a hipersegregação na região de Detroit.

“A maioria dos negros em nossa amostra vive quase exclusivamente com outros negros (97% dos moradores de Eastside Detroit são negros) ou são a maioria em bairros integrados (70% de Northwest Detroit são negros, [e] os brancos são claramente minoria em todas as nossas regiões de Detroit (de 2% a 21% dos moradores).”

Eles descobriram que as associações entre comprimento do telômero e percepções do ambiente físico do bairro e da satisfação com o bairro eram mais fortes entre os negros e questionaram se “o estresse de segurança, ambiente físico e satisfação com o bairro se conectam com uma ideia mais global da experiência dos participantes negros em relação aos bairros de Detroit, que na média pode ser mais positiva de que a dos participantes brancos ou mexicanos”.

Em contraste, em relação aos moradores brancos, os pesquisadores escrevem: “Talvez com o êxodo da maioria dos brancos e de muitos empregos de Detroit, o encolhimento dos benefícios das pensões públicas e de fazer parte de um sindicato, e a redução geral de serviços da cidade baseados em impostos, os brancos pobres que permanecem são particularmente afetados de forma negativa pelas consequências sociais e ecológicas do urbanismo austero. Sem os recursos financeiros, as redes sociais e a afirmação de identidade do passado, os brancos remanescentes em Detroit podem ter menos para protegê-los dos efeitos que pobreza, estigma, ansiedade e falta de esperança têm sobre a saúde”.

Geronimus resume: “Acho que muita gente simplesmente não entende como a situação é ruim para alguns americanos. Algumas pessoas são desproporcionalmente afetadas, dada nossa história de segregação residencial e racismo, mas também são afetadas as pessoas que se veem presas nessa situação, como golfinhos presos em redes de pescadores. Algumas de nossas evidências sugerem que, seja o imigrante mexicano pobre ou o afro-americano vítima de racismo e dificuldades por muitas gerações, eles criaram sistemas para lidar com os problemas, algo com que os brancos de Detroit talvez não possam contar. Essas populações têm muita força. Mas não é suficiente para resolver esses problemas sem a ajuda dos responsáveis pelas políticas públicas e dos cidadãos com empatia.”

Telômeros, saúde e justiça social

Elizabeth Blackburn é uma das co-autoras do novo estudo. Ela ajudou a descobrir os telômeros, um trabalho que lhe deu o Prêmio Nobel de fisiologia de 2009.

Quando começou suas pesquisas em meados dos anos 1970, Blackburn trabalhava na identificação dos telômeros em organismos unicelulares que ela chama brincando de “escória dos lagos”.

Mas, ao longo dos anos, entendendo a relação entre telômeros e saúde, seu foco mudou.

“Muito do nosso bem-estar não vem de dentro de nós mesmos, vem das circunstâncias. Me faz pensar muito mais em justiça social e as questões maiores, além dos indivíduos”, disse ela numa entrevista de seu escritório na Universidade da Califórnia em San Francisco.

Blackburn acredita que questões vitais relevantes para políticas sociais permanecem sem resposta porque as questões são altamente complexas e era fácil questionar os dados de métodos de pesquisa qualitativos, tais como questionários sobre experiências pessoais e percepções.

“Quando alguma coisa é realmente difícil de avaliar, é mais fácil deixá-la de lado. Eles dizem que é ciência soft, não ciência baseada em dados reais.”

Mas agora os dados dos telômeros oferecem uma nova maneira de analisar esses tópicos complexos quantitativamente.

Blackburn mencionou uma lista de estudos nos quais as experiências pessoas e percepções estão diretamente correlacionadas com o comprimento dos telômeros: se as pessoas dizem se sentir estressadas ou pessimistas; se sentem discriminação racial em relação aos outros ou se sentem vítimas de discriminação; se vivenciaram experiências muito negativas na infância, e assim por diante.

“Todas elas se somam, de maneira quantitativa”, disse ela. “Quando você tem uma relação quantitativa é ciência, certo?

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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