COMPORTAMENTO
14/05/2015 18:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

A entrevista com a artista que tirou uma foto 'daqueles dias' e quebrou a internet

Reprodução / Facebook

Uma das fotos da série sobre menstruação de Rupi Kaur, a universitária canadense que desafiou o Instagram, foi banida e venceu.

Na segunda-feira, 23 de março, a poetisa Rupi Kaur postou uma foto no Instagram. O retrato é de uma jovem mulher - a própria Kaur - de costas, fotografada por sua irmã Prabh. Ela está deitada na cama. As cores são quase todas branco e cinza, em uma composição desbotada de um blog de design escandinavo ou um anúncio vintage de Calvin Klein. Dois choques de cor ancoram a vinheta: manchas que parecem sangue, em pontos reveladores, na região das entrepernas da calça de moletom de Kaur e no lençol da cama.

A photo posted by Rupi Kaur (@rupikaur_) on

O sonho de todo artista é um momento de definição, mas Kaur não tinha a intenção de incitar a ira dos deuses do Instagram ao abordar o tabu que gira em torno da menstruação. Ela é indiana-canadense, e sensível ao conceito hindu que diz que uma mulher menstruada é ritualmente impura. Como estudante de graduação na Universidade de Waterloo, ela executava um projeto que buscava testar uma teoria inspirada por um ensaio de Susan Sontag, que fala sobre como o contexto influencia o consumo de arte. Ela esperava comparar as reações de um único trabalho nas diferentes plataformas das redes sociais.

An excerpt from Kaur's Facebook post criticizing Instagram for removing her portrait of a menstruating woman. The post attracted three million views in less than a day, according to Kaur.

Algumas mulheres não são permitidas dentro da sua própria igreja. Nem fora das suas casas. Ou fazendo certas coisas. E dizem que elas estão doentes. Como se a menstruação fosse um resfriado comum. Sim. Isso acontece aqui, na América do Norte. Já me hospitalizaram muitas vezes por questões ligadas ao meu período menstrual. Já até sofri de doença relacionada. E desde então tenho dado um duro danado para amá-la. Abraçá-la. Celebrá-la. Mesmo quando ela tem me causado tanta dor, nos últimos anos. E eles querem que eu me cale sobre isso. Que tudo isso que vivenciamos coletivamente não precise ser visto. Só que seja sentido secretamente atrás de portas fechadas. É por isso que isto é importante. Pois quando eu menstruei pela primeira vez minha mãe estava triste e preocupada. E eles queriam censurar toda aquela dor. Experiência. Aprendizado. Não.

Seu patriarcado está vazando.

Sua misoginia está vazando.

Nós não seremos censuradas.

A "foto menstruada" de Kaur, subsequentemente, tornou-se viral e não pelas razões que ela esperava. Durante uma semana ela desafiou o Instagram enquanto eles tentavam, inúmeras vezes, remover a imagem. O incidente encaixou-se na repercussão, apoiada por celebridades, contra a censura de fotos de amamentação feitas no site tornando Kaur um ícone acidental de um movimento feminista.

O Instagram, desde então, esclareceu suas diretrizes de forma que fotos como a de Kaur provavelmente não se percam. Para ela, que vive em casa com seus pais e três irmãos, o tema saiu fora de toda proporção. Ela recebeu ameaças de morte, junto com pedidos de entrevista das maiores empresas de mídia no mundo. Nem precisamos dizer que sua professora amou o projeto.

O Huffington Post conversou com a jovem de 22 anos sobre sua fama repentina e o que ela realmente queria dizer:

Qual foi a inspiração para a foto?

Foi algo que eu fiquei remoendo na minha mente no ano passado. Minha menstruação é tão maluca e dolorosa. [Ela] acaba com a minha existência durante uma semana.

Por que é tão horrível?

Eu sofro com [uma condição chamada] endometriose e isso provoca muita dor. Os cistos ovarianos se rompem e isso aumenta com o estresse. Houve uma época, no verão passado, que eu passei muito tempo no hospital e estava começando a odiar o meu [corpo]. Uma escuridão tomou conta de mim. Eu comecei a pensar que não queria mais me sentir assim.

No meu último semestre eu fiz um curso de retórica visual. Minha professora disse que faríamos um projeto que criasse uma conversa sem palavras e com imagens que lutassem contra normas sociais. Este foi o momento perfeito para executar esse projeto que eu vinha pensando há um bom tempo, pois eu o faria de um ponto de vista acadêmico e não achei que fosse causar todo esse tumulto. Estas são ideias que são normais para mim e para as pessoas que me cercam. Eu acho que fui ingênua.

O que inspirou você a publicar a série de fotos no Tumblr e no Instagram?

Nós tínhamos que usar as teorias para dar suporte ao nosso processo. Li algo sobre Susan Sontag. Tratava-se de uma ideia que diz que se você olhasse a Mona Lisa, por exemplo, e a visse pessoalmente, você se sentiria de uma certa forma sobre ela. Se você a visse em um selo você a veria de uma forma diferente. Eu pensei que seria legal colocar a minha série de fotos em diferentes plataformas para ver os tipos de respostas que eu teria. O Instagram é o lugar que você realmente não percebe quais são as coisas que irão gerar uma conversa. Você sobe imagens de coisas que são bonitas: comidas boas, fotos de viagem. Você quer mostrar a melhor versão de si mesmo.

Seu post mexeu com as pessoas da maneira errada.

As primeiras reações que recebi foram tão esplêndidas e positivas. E, logo, cerca de 12 horas ou até menos do que isso, algumas pessoas da minha cidade natal se juntaram e começaram a atacar o meu post, pessoas que eu conhecia do colégio. No momento em que este grupo de rapazes criou um ambiente negativo isso começou a ser fomentado. Tudo que ocorreu depois foi negativo. Eventualmente as mulheres também participaram disso.

Que tipo de coisas elas diziam?

"Sua feminista feia você é isso, você é aquilo," e ainda, "Daqui a uns anos não vamos mais nem precisar das mulheres porque vamos produzir nossos bebês em laboratórios." As mulheres diziam, "eu entendo, é natural, mas eu odeio quando menstruo. Eu não gosto e você também não deveria. Por que celebrar?"

Outras mulheres comentavam, "Eu vejo você comemorando sua menstruação totalmente, mas eu não vejo a necessidade disso". Isso porque elas cresceram como mulheres brancas. Elas não têm essa coisa que as mulheres que não são brancas sentem.

Kaur e sua irmã fizeram a série de fotos em quatro horas, durante dois dias, usando sangue falso que criaram na cozinha de seus pais.

Você está se referindo à noção da menstruação ser um período impuro. É uma ideia comum entre os hindus, mas a sua família é Sikh, não é?

No Sikhismo [a menstruação] é totalmente aceita, sim. Mas ao crescer ainda havia aquela ideia cultural. Quando eu estava menstruada lembro-me que uma certa ocasião eu queria dar uma volta de bicicleta e minha mãe disse, "Você não pode porque está doente." Eu não entendia isso. Ou saltar do trampolim, eu não tinha permissão para fazer isso. Eu sempre tive que sussurrar o fato de estar menstruada ou esconder meus absorventes para que meu pai não os visse.

Meu pai é, na verdade, um cara de mente bem aberta, mas minha mãe foi treinada para pensar que essas coisas são um tabu. Estamos tentando mudar essa mentalidade, criando um ambiente em casa, onde não é um problema falar sobre isso. É normal, ela não tem que se preocupar.

Qual foi a resposta da série de fotos na comunidade indiana?

"Você não deveria falar sobre isso. É sujo, é tabu. " Eu estive em uma mostra de arte na semana passada e [alguns indianos de 30 anos compararam o que eu fiz com] a foto de um pênis.

A vlogger e amiga de Kaur, Kiran Rai, recorda a dificuldade de ficar menstruada em uma viagem à Índia.

Como seus pais se sentem sobre o projeto?

Minha mãe sabia que eu estava tirando as fotos com a minha irmã. Eu não tento contornar as coisas de propósito só para manter um segredo quando eu estou criando. Eu não quero explicar nada mais tarde. [Após a repercussão] Eu fiquei muito assustada. Eu pensei, o mundo está com tanta raiva. Naturalmente os meus pais também estarão. Quando eu contei para eles, eles não entenderam por que aquilo era grande coisa. Eles disseram, "É bem legal. Bom trabalho!" Minha mãe riu depois de ouvir sobre isso na emissora local de rádio Punjabi em Toronto.

Como são indianos, o seu orgulho faz muito sentido para mim. O fato de que estejam falando sobre você quase que substitui o motivo pelo qual estão falando de você. [Risos] Sim, exatamente isso!

Então como é que o trabalho foi avaliado, no sentido mais Sontagiano?

É difícil dizer no Tumblr por causa do sistema de Notas, mas eu sabia que a foto estava indo bem. Estava ganhando bastante atenção. Parecia mais positivo, mais em sintonia com a forma com que os meus colegas reagiram. No Instagram, era obviamente uma mistura. No fim parei de ler os comentários. Chegou uma hora que eram uns 11.000 comentários. Agora eles colocaram a foto de volta e está com 71.000 curtidas. Ou seja, eu nunca vou conseguir uma foto tão popular quanto essa.

O Instagram realmente removeu sua foto duas vezes, correto?

Eu postei isso no dia 23 de março em torno das 23hr. No dia seguinte, 24 horas depois, eles a retiraram. Duas horas depois de eles terem retirado eu publiquei novamente. Eles voltaram a retirar, em menos de 12 horas.

O que acontece quando eles removem uma fotografia?

Você entra no seu Instagram e aparece uma imagem na tela dizendo que eles removeram o que quer que seja que não está em conformidade com as normas de conduta da comunidade. Ajude a manter o Instagram seguro. Eu não subi uma terceira vez porque eu fiquei com medo de cancelarem a minha conta. Em vez disso eu pensei em postar um print screen do que eles escreveram. Eu coloquei a tag Instagram nas minhas legendas quando postava uma imagem do que eles tinham escrito. Pedi às pessoas para levantarem a questão, então eles estavam tagueando o Instagram com críticas. Eu incluí tags do Instagram em todas as imagens pornográficas que consegui encontrar.

Então você encontrou mensagens verdadeiramente explícitas?

Oh, meu Deus, de caras se masturbando, vídeos e pessoas fazendo sexo. Eu não tinha ideia que isso existia até que todo o fiasco começou. As pessoas estavam me mandando links. Pesquise hashtags #girls e você vê uma tonelada de coisas malucas. Aquelas fotos com pessoas realmente fazendo sexo ou com pessoas se masturbando não são contas populares, mas havia outras contas não tão extremas, mas bem populares, de sites pornográficos, fazendo propaganda e coisas do tipo. Uma conta popular é este cara que usa mulheres como lenços no seu pescoço. As mulheres estão nuas e parecem que estão mortas. É realmente assustador.

:trophy::snowboarder::trophy::snowboarder::trophy::snowboarder:

A photo posted by Trophy Scarves (@trophyscarves) on

O perfil da conta TrophyScarves - criado pelo artista performance Nate Colina - do Instagram é representativo de duas medidas diferentes que Kaur sente sobre a censura improvisada da plataforma: "Eu visto mulheres brancas pelo status e poder."

Como a fotografia, eventualmente, foi restabelecida?

Eu estava me sentindo bem inspirada e consternada. Eu fiz este post no Facebook, às 12:30 da tarde de quarta-feira e, logo, eu estava completamente desconectada. Eu fui para o museu com os meus amigos. Quando cheguei em casa às 21 ou 22hr, o post tinha atingido 3 milhões de visualizações. Bem, parecia ter viralizado. Acordei às 11 horas em ponto na quinta-feira - que era o dia da minha apresentação do projeto, e eu estava muito exausta. Eu voltei ao Instagram e minhas fotos tinham voltado. Fiquei muito feliz

Você recebeu um A?

Oh, claro. Yeah!

Que apresentação inacreditável de se fazer.

A mídia pegou a notícia na sexta-feira de manhã, então eu apresentei à mídia e eles enlouqueceram. Na escola eu sou uma pessoa totalmente diferente. Eu não anuncio o fato de que escrevo. Parecia algo de autopromoção. Mas antes que eu apresentasse o projeto lá havia muita gente que sabia. As pessoas buzinavam e gritavam.

O que aconteceu depois que a fotografia voltou ao ar?

Eu achei que tinha acabado, mas não. Acordei na sexta-feira e minha caixa de mensagens tinha explodido. Entrevistas de rádio, isso e aquilo. Eu estava lidando com tanta coisa que eu não conseguia sentir mais nada por dois ou três dias. Tudo o que fiz foi dar entrevistas.

Quando voltei para a aula na terça-feira eu ainda estava recebendo e-mails. Meu professor assistente disse, “Você está na primeira página do Reddit”. Pessoas de todas as classes me avisavam: “Você está no Buzzfeed”. Eu dizia, "Oh, é verdade. Caramba."

Os mesmos carinhas do ensino médio que deram duro para garantir que a foto fosse retirada, obviamente, ficaram muito sem graça, então começaram a fazer falsas contas [no Instagram]. Eu sei que eram eles porque eles seguiam a si mesmos. Eles pegavam minhas fotos pessoais e cortavam e colavam, tornando-as pornôs. Colocando fotos de pintos no meu rosto, e letreiros aleatórios de sites pornôs nos meus seios. Coisas bem bobas.

Isso foi quando a crítica terminou?

Eu estava recebendo muitas ameaças de morte. Minha professora insistiu que a universidade me ajudasse e agora eu reporto para a polícia da escola. Eu não acho que alguém realmente vá fazer algo, mas mesmo assim.

i am power. #InternationalWomensDay

A photo posted by Rupi Kaur (@rupikaur_) on

Qual é a maior lição que uma mulher deve aprender?

que desde o primeiro dia. ela já tem tudo

que precisa dentro de si. é o mundo que a

convence que ela não tem.

- rupi kaur

Eu sou poderosa.

#DiaInternacionaldaMulher

A poesia de Kaur - algumas das quais autopublicadas em uma coleção no outono passado - aborda questões sobre feminilidade e amor-próprio.

Você sente pressão para criar algo provocativo no seu próximo projeto?

Eu entendo que qualquer coisa que eu crie depois disso pode não causar tanto rebuliço, mas eu me sinto bem pelo fato de ter conseguido tanta atenção. Eu aumentei a minha audiência e posso compartilhar meu trabalho.

Muitas pessoas podem não perceber que você tinha uma presença considerável na Internet, antes mesmo de tudo isso, por causa da sua poesia. [Em janeiro uma blogueira do HuffPost, Erin Spencer, considerou Kaur "a poetisa que toda mulher precisa ler."] Para falar sobre a diferença, como é que os seus seguidores no Instagram perceberam a mudança?

Antes do dia 23 de março, eu diria que eu estava em torno de 35.000. E agora dentro de dois ou três dias eu fui para 185 mil e pouco [quando está matéria foi publicada, originalmente em inglês, esse número era de 189 mil]. Por isso, foi intenso. Isso me assustou um pouco. Tem sido um crescimento orgânico para mim. Esses fãs estão lá porque valorizam o meu trabalho. Agora minha audiência cresceu tanto que só me resta esperar que seja pelas razões certas.

Para mim a foto do Instagram realmente captura a vergonha e a ansiedade que vem com a sua primeira menstruação. Claro, toda a série equilibra as cores silenciosas e as manchas de uma forma que traga a mesma sensação, mas a foto escolhida se destaca de certa forma um pouco mais. Como você a escolheu para representar a série?

Eu amo a perspectiva fotográfica e a composição do corpo. É quase como se você estivesse olhando o mundo dessa mulher e ela não sabe que você está assistindo. Eu imagino que a maioria das pessoas pode se identificar com isso. Se eu usasse aquela do banheiro eu estaria apenas trolando. Foi um bom equilíbrio.

De onde veio o sangue?

Corante alimentar, ketchup, molho de soja, açúcar mascavo. Eu busquei no Google. Acho que foi um artigo do site About.com que me deu dez receitas diferentes para fazer dez tipos diferentes de sangue falso. Eu usei um conglomerado. Eu pedi opiniões de todos de como ficava, meu irmão, minha mãe.

Você já falou com alguém do Instagram?

Quinta-feira passada [depois de subir a foto], por volta das duas da madrugada eu recebi um e-mail deles, que basicamente pedia desculpas. Parecia um e-mail automático então eu não respondi. Eles deram declarações para diferentes jornais e coisas do tipo. Ouvi dizer que eles mudaram suas normas de conduta agora por causa disso e estão mais abertos.

[As novas diretrizes, que diferenciam a nudez na arte, a amamentação ativa e formas não permitidas no site, estavam em andamento desde antes das desavenças com Kaur, de acordo com um representante do Instagram.]

Em um post no Facebook que se tornou viral, você escreveu que o Instagram provou o ponto de vista de misoginia da sociedade que incentiva a objetificação das mulheres, mas não tolera "um vazamento", como é chamado. Era o seu propósito revelar a hipocrisia?

Eu gosto de deixar as pessoas entrarem no meu mundo. É por isso que eu sou uma escritora. Desta forma eu começo uma conversa sobre algo que realmente me afeta. Eu sempre vejo as mulheres reclamando - eu sou uma delas - sobre o quanto nossas menstruações são ruins. Mas elas também são bonitas. Eles dão origem à vida. Se eu tenho que viver com as minhas nos próximos 40 anos, quero fazer as pazes com elas.

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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