COMPORTAMENTO
08/05/2015 17:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Ela sobreviveu a dois terremotos e a uma vida inteira de discriminação de gênero

Amie Ferris-Rotman

BHAKTAPUR, Nepal - Em 1934, quando um terremoto devastador atingiu o Nepal, Indra Shrestha estava a apenas alguns metros de onde mora hoje. Há pouco mais de uma semana ela reviveu todo esse horror.

"Este foi muito pior", disse a senhora de 84 anos, referindo-se ao terremoto de 25 de abril que matou mais de 7.000 pessoas, arrasando vilas inteiras e destruindo vários monumentos históricos centenários do Nepal.

Shrestha ainda não tinha três anos e estava na loja de cosméticos do seu pai quando o terremoto de 15 de janeiro de 1934 destruiu completamente essa nação sem saída para o mar, situada na cordilheira do Himalaia, matando 8.500 pessoas só no Nepal.

Vestida com um sári de cor verde brilhante e sentada em um amplo degrau perto de sua casa em Bhaktapur, a cerca de 13 quilômetros a leste de Kathmandu, Shrestha estava indiferente sobre ter sobrevivido duas vezes.

“Minha vida é exatamente igual. Eu só fico sentada ao sol”, disse, enquanto brincava com a máscara usada pelos residentes na cidade de templos antigos.

Mas a vida de Shrestha foi marcada do início ao fim não só pela terra rachada.

“Meu pai não queria que eu fosse para a escola”, disse Shrestha. “Eu não sei ler ou sequer assinar o meu nome."

Milhões de mulheres no Nepal têm sofrido algo semelhante. Durante toda a primeira metade do século passado, as mulheres e as meninas desse país sofreram enormes desvantagens.

Geralmente a educação lhes era negada e o rígido sistema patriarcal do Nepal traduziu-se em meninas, muitas vezes, casando-se ainda adolescentes. “Às vezes, ele me deixava cuidar da loja”, disse Shrestha sobre o pai, lembrando que essa era a sua única interação com o mundo externo.

Ela nunca casou, e quando seu pai morreu, antes que ela completasse 10 anos, sua vida já estava imersa na pobreza. Ela ficou a cargo de seu irmão.

Hoje, Shrestha vive com sua cunhada, viúva, Maheshwari, em uma casa tradicional de tijolos e madeira na graciosa cidade do século 12. Shrestha passou a vida inteira na mesma pequenina rua.

Residentes procuram pertences no meio dos escombros em Bhaktapur, Nepal.

Apesar de terem uma das piores desigualdades de gênero do mundo, o Nepal percorreu um longo caminho nas últimas décadas em termos de melhoria de vida para suas mulheres.

As taxas de alfabetização subiram para mais de metade da população feminina, com mais meninas do que nunca nas escolas, o aborto é legal e, em 33% dos casos, a representação feminina no Parlamento do Nepal ultrapassa todas as outras nações do sul da Ásia.

Mas o terremoto mais recente ameaça frustrar este progresso. Dezenas das escolas mais atingidas das áreas rurais do Vale do Katmandu foram destruídas e não há nenhuma clara indicação de quando elas serão reconstruídas.

Ainda que isso signifique que ambos os sexos não terão educação, o impacto disso na saúde e nos meios de subsistência das meninas será pior, já que elas recebem menos prioridade do que os meninos, disse a Dra. Aruna Uprety, defensora da saúde das mulheres que começou uma fundação educacional sem fins lucrativos no Nepal chamada Rural Health and Education Service Trust.

Soldados do Exército paquistanês procuram um turista chinês desaparecido em Bhaktapur, Nepal.

Em um país desesperadamente pobre e à beira de uma epidemia, ocasionada pelo terremoto, a qualidade de vida das mulheres certamente vai diminuir, advertiu o Dr. Jageshwor Gautam, diretor da Maternidade e Hospital da Mulher Paropakar, em Katmandu, a maior e mais antiga do tipo no país. A viuvez e a pobreza levarão a “mais casos de mulheres que fogem, abandonando os seus bebês aqui", disse Gautam.

"Quando você não tem trabalho, abandonar seu bebê torna-se uma opção", ele acrescentou com um longo suspiro.

Shrestha e cerca de 4 milhões de mulheres e garotas nepalesas foram afetadas pelo terremoto, estas são as estimativas da ONU e há uma urgência gritante.

Este artigo teve o apoio do International Reporting Project.

Tradução: Simone Palma

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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