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07/05/2015 08:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

7 coisas que todos deveriam entender sobre as eleições do Reino Unido

Montagem / Agência de Notícias

Ninguém sabe realmente quem será o próximo primeiro-ministro britânico: David Cameron ou Ed Miliband. E quem disser que sabe provavelmente estará mentindo.

Nesta quinta-feira (7), o Reino Unido realiza uma das eleições mais imprevisíveis em uma geração. O Partido Conservador, de Cameron, e o Partido Trabalhista, de Miliband, estão empatados nas pesquisas nacionais.

Com isso em mente, eis sete coisas que todos deveriam entender sobre a campanha e o dia da eleição.

1. Todos sairão derrotados.

O tradicional “vencedor” de uma eleição britânica é o partido, Conservador ou Trabalhista, que consegue maioria na Câmara dos Deputados, ou seja, 326 das 650 cadeiras. Mas, se as pesquisas estiverem certas, isso não vai acontecer. Apesar das afirmações pouco convincentes de que uma maioria seja factível, Cameron e Miliband caminham trôpegos em direção à linha de chegada, e parece certo que nenhum deles terá a maioria necessária.

A explicação é que a eleição de 2015 não será uma disputa direta entre os conservadores e os trabalhistas, e sim uma bagunça que envolve os liberais-democratas, o Ukip, os verdes e, acima de tudo, o SNP (Partido Nacional Escocês). A complexidade da batalha é tamanha que a pesquisa de boca-de-urna, tradicionalmente muito precisa, pode muito bem estar errada.

Em um Parlamento dividido, o primeiro-ministro será aquele capaz de fechar acordos com um ou mais partidos pequenos, para aumentar o número de deputados que votarão com ele em questões importantes.

Para Cameron, o caminho óbvio é uma segunda coalizão formal com os liberais-democratas de Nick Clegg. Miliband, por sua vez, parece determinado a rejeitar uma coalizão formal. Em vez disso, ele provavelmente tentará governar com uma base trabalhista minoritária, apoiada voto a voto pelo SNP, de Nicola Sturgeon.

2. O SNP está detonando os trabalhistas escoceses.

A eleição está apertada. Muito apertada. E o motivo é a Escócia. Das 650 cadeiras na Câmara, 59 são escocesas. Os trabalhistas, hoje, têm 49 delas. Mas o referendo da independência do ano passado mudou o cenário político ao norte da fronteira da Inglaterra.

O SNP não foi vitorioso em sua tentativa de desmanchar o Reino Unido, mas o partido parece prestes a transformar aquela derrota em uma grande vitória nesta eleição. Uma pesquisa chegou a sugerir que o SNP poderia vencer em todos os distritos eleitorais escoceses. Hoje, o SNP tem apenas seis.

Sem um contingente razoável de deputados escoceses, é difícil enxergar uma maioria trabalhista. Miliband, segundo admitiu um aliado próximo, teria vencido “com facilidade” não fosse o colapso do partido na Escócia. Como me disse outro integrante do alto escalão do Partido Trabalhista, muitos dos deputados do partido na Escócia se acomodaram com anos de eleições sem adversários com chances reais.

3. O Ukip dividiu o voto da centro-direita.

Antes de o SNP virar de cabeça para baixo a política na Escócia, o curinga na eleição de 2015 era o United Kingdom Independence Party (Ukip), de Nigel Farage. O autoproclamado “Exército Popular” que defende a saída do país da União Europeia é um obstáculo importante para Cameron na Inglaterra. O partido, que teve de suspender vários candidatos por causa de declarações racistas, homofóbicas e sexistas, venceu as eleições europeias de 2014.

Apesar das bravatas, o Ukip deve ter apenas um punhado de deputados eleitos. O verdadeiro dano causado pelo partido será o racha nos votos da centro-direita, abrindo caminho para candidatos liberais-democratas ou trabalhistas. Muito da campanha conservadora, e de como Cameron governou nos últimos dois anos, teve o objetivo de conquistar eleitores do Ukip descontentes com sua abordagem mais liberal do conservadorismo, que inclui legislar a favor do casamento gay.

4. O centro encurralado: os liberais-democratas.

Os liberais-democratas de Nick Clegg têm sido o terceiro partido da política britânica há muito tempo. Em 2010, o partido chegou ao poder pela primeira vez, como parte da coalizão com os conservadores. A certa altura daquela campanha, Clegg era mais popular que Winston Churchill. Era a “Cleggmania”.

Quanto mais alto, maior o tombo. Os últimos cinco anos têm sido duros para os Lib Dems. O partido viu sua base de sustentação, basicamente de esquerda, desertar para os trabalhistas, depois da decepção de ver Clegg numa coalizão com Cameron. Em privado, deputados liberais democratas dizem que manter 30 de suas 57 cadeiras na Câmara seria um ótimo resultado. Uma fonte descreveu os resultados de pesquisas internas em alguns distritos como nada menos do que “terríveis”.

O discurso de Clegg neste momento é que só o seu partido ocupa o centro sensato. Ele promete ser o “coração” de um governo conservador cruel ou o “cérebro” de um governo trabalhista economicamente analfabeto. Em uma era de política multipartidária, é uma abordagem inteligente. O perigo para Clegg é que ninguém mais lhe dá ouvidos.

Dada a natureza imprevisível da eleição, os liberais democratas poderiam se ver fora do poder e embaraçosamente rebaixados para a posição de quarto maior partido, atrás do SNP. Ou de volta ao governo. Ou ambos.

5. Sem dormir até junho.

Os resultados de cada distrito eleitoral vão começar a pingar nas primeiras horas da sexta-feira (8) e ao longo do dia. No entanto, se nem os trabalhistas nem os conservadores obtiverem maioria, como é esperado, que pode demorar um mês até que a composição do próximo governo seja realmente finalizada.

Em 2010, contra o pano de fundo da crise financeira na Europa, os conservadores e os liberais democratas levaram apenas cinco dias para chegar a um acordo de coalizão. Mas pode não ser tão simples ou rápido desta vez. Mesmo que Cameron e Clegg estejam dispostos e tenham os números necessários para fazer um novo acordo, os deputados vão exigir uma maior influência no processo. Na vez passada, os deputados conservadores não receberam o direito de aprovar formalmente o acordo de coalizão. Desta vez, eles ter voz. Da mesma forma, os Lib Dems, queimados pelos cinco anos no poder com os conservadores, não vão assinar nada tão rápido.

Como primeiro-ministro, Cameron tem direito à primeira tentativa de formar um governo. Miliband pode ter de esperar durante dias, ou até mesmo semanas, antes de poder votar formalmente contra a tentativa de Cameron para ficar em Downing Street.

6. Momentos chave da eleição para assistir.

O símbolo da vitória esmagadora 1997 de Tony Blair foi o secretário de Defesa conservador Michael Portillo perdendo seu distrito eleitoral para os trabalhistas. A decapitação eleitoral de uma figura sênior do partido desde então tem sido conhecida como “momento Portillo”. Esta eleição pode ter vários desses momentos, com figuras importantes de todos os partidos encarando a guilhotina.

A vítima de maior destaque pode ser Clegg. O líder liberal democrata tem uma grande maioria no seu distrito eleitoral de Sheffield. Mas pesquisas têm sugerido que ele está um pouco atrás de seu desafiante trabalhista. Para os liberais democratas, a perda de seu líder na noite da eleição seria uma humilhação. O partido também pode perder seu segundo ministro mais sênior, o secretário-chefe do Tesouro, Danny Alexander, graças ao crescimento do SNP na Escócia.

O Ukip também tem problemas. Farage hoje é membro do Parlamento Europeu, mas não do Parlamento britânico. E, apesar de seu perfil pessoal nacional enorme e do apoio considerável do Ukip em toda a Inglaterra, ele pode muito bem perder a eleição no distrito de South Thanet, na costa de Kent. Essa derrota lhe custar a liderança do partido.

7. A campanha foi realmente estúpida.

A campanha eleitoral em si foi uma das mais encenadas dos últimos tempos. Os líderes partidários, com medo de deslizes, ficaram basicamente restritos a discursos e comícios distantes do público votante.

Os trabalhistas pintaram uma ônibus de cor-de-rosa para atrair as mulheres. Miliband esculpiu suas promessas eleitorais em um bloco gigante de pedra, como Moisés. Cameron ameaçou usar o jiu-jitsu em Farage durante um debate TV e esqueceu para que time de futebol torcia. O chefe da campanha Lib Dem disse “bastardos” cinco vezes consecutivas, ao vivo na TV. O jornal The Sun, esperando que ninguém notasse, endossou os conservadores na Inglaterra e, na Escócia, o SNP. E canal de YouTube de Russell Brand dominou dois dias de cobertura eleitoral.

Em resumo. É uma bagunça.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.