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06/05/2015 17:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Sem Beto Richa e na presença da ‘Bancada da Bala', professores relembram no Senado o massacre sofrido em Curitiba

Montagem/Facebook APP-Sindicato

Em uma audiência concorrida na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado, professores e parlamentares debateram sobre a violência policial contra os docentes do Paraná no último dia 29 de abril, em Curitiba, o qual deixou um saldo de 213 feridos e 14 presos. Convidados, o governador Beto Richa (PSDB) e o secretário de Segurança Fernando Francischini não compareceram.

A reunião teve momentos de tensão e foi interrompida algumas vezes. Do lado dos professores, o professor Hermes Leão, presidente da APP-Sindicato – entidade da categoria no Paraná – criticou a maneira com que o governo estadual trata a classe. De acordo com ele, desde janeiro as ordens vindas do Palácio Iguaçu, sede do governo, são apenas de violência e descaso.

“Era uma tragédia que estava sim anunciada. Desde a reeleição do governador Beto Richa, nós assistimos um comportamento diferente na gestão de governo. Passou a não haver mais debate com as entidades (...). Foi uma iniciativa planejada desde o final da semana. Aquela batalha toda estava planejada pelas autoridades maiores”, comentou Leão.

Já a professora Luzia Marta Bellinirelembrou o uso de helicópteros por parte da Polícia Militar para atirar bombas de efeito moral sobre os manifestantes. “Estávamos cercados de todos os lados pela tropa (da PM). Estava cheio dos chamados ‘P2’, os policiais a paisana, comuns na época da ditadura militar (...). Foram duas horas e meia ininterruptas de bombas”, relembrou.

Outro relato que chamou a atenção dos presentes foi feito pela professora Mary Silva Falção. “Eu, professora, 1,50 cm de altura, estava com meu filho adolescente na manifestação pelos meus direitos. Na TV E-Paraná, a TV do governo, apareci em uma matéria sendo retratada como black block. Sabe por que? Porque Eu me abaixei para socorrer um cinegrafista que foi ferido. Eu estava no chão e fui alvejada. Na minha perna, tem um hematoma de 15 cm. Que democracia é essa?”.

As palavras dos docentes foram ditas diante de parlamentares não só da bancada paranaense, como os senadores Gleisi Hoffmann (PT) e Roberto Requião (PMDB), e o deputado Ricardo Barros (PP) – este marido da vice-governadora do Paraná, Cida Borghetti –, mas também diante de nomes que compõem a ‘Bancada da Bala’ no Congresso, como os deputados Jair Bolsonaro (PP-RJ), Major Olimpio (PDT), Alberto Fraga (DEM), Capitão Augusto (PR-SP) e Delegado Waldir (PSDB). Licenciado da Câmara, Francischini já integrou o grupo.

Representando o governo Richa, o assessor especial de Políticas Públicas para a Juventude do Paraná Edson Lau Filho rebateu os docentes, chamando-os de “mestres do drama”. Ele sustentou o discurso de que a ação da polícia foi justificada e que a “postura de confronto” foi registrada “por todos os lados”. Durante a sua fala, os professores viraram as costas, em sinal de protesto.

Ainda em apoio ao governo do Paraná, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) chamou a ação da PM em 29 de abril de “legítima”. “As regras do jogo democrático foram desrespeitadas pelo movimento dos professores e funcionários”, avaliou. A fala gerou protestos rapidamente. “Sabe o que não pode ser legítimo? A violência, o desrespeito. Independente de partido, atos desta natureza devem ser inaceitáveis e o Senado deve sim, em caráter pedagógico aprovar um ato de repúdio sobre o que aconteceu lá no Paraná. Os excessos devem ser apurados com todo rigor”, respondeu a senadora Fátima Bezerra (PT-RN).

E ela não foi voz solitária entre os senadores. “Atiradores de elite estavam armados com metralhadoras em cima dos prédios públicos. Para matar quem? Professores e servidores públicos?”, atacou Requião, derrotado por Richa nas eleições do ano passado. O tom subiu também quando o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB) chamou a audiência de “palhaçada”, enquanto o colega tucano Valdir Rossoni afirmou que “o governador é um homem de paz”.

Um momento de emoção foi durante o relato do repórter cinematográfico Luiz Carlos de Jesus, da TV Bandeirantes. Ele foi mordido por um cão pitbull da PM durante toda a confusão. “Eu estava trabalhando! E tenho que ouvir que eu pisei no cachorro, que afrontei o animal? Podem tirar a minha câmera, podem me tacar bomba, podem me soltar cachorros, mas eu vou continuar trabalhando e só paro quando Deus quiser”, disse, visivelmente emocionado.

Cinegrafista ferido em confronto se emociona em audiência no Senado Federal Ouça a reportagem completa: http://ow.ly/MBMLw Audiência Pública no Senado sobre a ação da tropa de choque da Policia Militar paranaense durante o protesto dos professores, foi recheada de momentos de tensão e comoção. Houve bate-boca entre Roberto Requião e o representante enviado pelo governo de Beto Richa. Já o cinegrafista da Band Curitiba, Luiz Carlos de Jesus, se emocionou ao relembrar o ataque que ele sofreu de um cão pitbull usado pelos policiais.

Posted by CBN Curitiba on Quarta, 6 de maio de 2015

Conforme disse ao Brasil Post na semana passada, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) – presidente da CDH da Câmara – reforçou que as apurações na esfera legislativa continuam. Já a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República divulgou comunicado em que afirma ter recebido 12 denúncias que “demostram o uso excessivo de força policial que feriu centenas de servidores públicos e cidadãos”. Os dados foram encaminhados aos órgãos competentes.

A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República acompanha desde o último dia 29 de Abril os fatos ocorridos...

Posted by Direitos Humanos Brasil on Quarta, 6 de maio de 2015

Secretaria de Educação tem nova chefia

A professora Ana Seres Trento Comin é a nova secretária da Educação do Paraná. Ela substitui Fernando Xavier Ferreira, que, oficialmente, pediu para sair da secretaria por questões pessoais. Extraoficialmente, ele foi ‘fritado’ por aliados e depois demitido por Richa. “A nossa determinação é manter os avanços na educação e, principalmente, o diálogo. Esse é um momento delicado, que requer equilíbrio e integração com os professores”, disse o governador.

O governador anunciou nesta quarta-feira (06) a professora Ana Seres Trento Comin como a nova secretária da Educação do...

Posted by Governo do Estado do Paraná on Quarta, 6 de maio de 2015

Apesar da alegação sobre “questões pessoais”, o agora ex-secretário da Educação enfrentava um desgaste muito grande diante da crise com os professores, que o viam como uma pessoa que não entendia dos problemas da pasta. Segundo o diretor da APP-Sindicato, Luiz Paixão, Xavier era um “peixe fora d'água”. “Evidente que o secretário Fernando Xavier não tinha condições políticas e técnicas para permanecer no cargo. A escolha de Richa foi desastrosa. Nada contra a pessoa do secretário, mas a área não era a sua. Era um peixe fora d'água”, disse o diretor.

A nova secretária pediu um voto de confiança e fez um apelo para os educadores. “Quero contar com a confiança de todos os professores, alunos e pais do Paraná. Vamos trabalhar com integração e diálogo para mostrar que é possível, não apenas sonhar, mas também executar um ensino de qualidade”, afirmou.

O primeiro desafio da nova secretária será enfrentar a greve do ensino público estadual que já entra em seu nono dia. Na tarde desta terça-feira (5), os professores realizaram uma assembleia e decidiram pela manutenção da greve ao rejeitar a proposta do governo de reajuste de 5% em duas parcelas, ao contrário dos 8,4% previstos pelo IPCA, em cota única. Na próxima semana está prevista uma nova reunião entre professores e governo.

Comando da PM reage a Francischini, que ganha 'segunda chance'

Apesar do anúncio da nova gestora da Educação, Richa enfrenta pressões para demitir o secretário de Segurança, Fernando Francischini, e o comandante-geral da PM, coronel César Kogut, apontados como os principais responsáveis pelos confrontos do Centro Cívico. Na última semana, o presidente estadual do PSDB, deputado federal Valdir Rossoni se manifestou pelo Facebook para criticar o agora ex-secretário, além dos gestores da Segurança.

Nesta segunda-feira (4), Francischini falou, em entrevista coletiva, pela primeira vez sobre a ação policial. Ele disse que a responsabilidade era da PM.

Para rebater o chefe da pasta da Segurança, 16 dos 19 coronéis da ativa assinaram uma nota de repúdio às declarações de Francischini. Nela, a PM deixa claro que o secretário tinha total conhecimento da situação e toda a operação era de conhecimento dele, tendo o mesmo “participado de várias fazes do planejamento”.

Comando da PM não gostou das palavras de Francischini (Reprodução)

De acordo com o jornal Gazeta do Povo, Francischini poderia ter sido demitido nesta quarta-feira, mas após uma reunião com Richa – na qual ele teria se emocionado – ele ganhou uma “segunda chance” do governador. Pelo menos por enquanto, ele segue no comando da pasta.

Apuração da violência continua

O Ministério Público do Paraná (MP-PR) encaminhou ofício ao governador, ao secretário de Segurança Pública e ao comandante-geral da Polícia Militar em que requisita relatório com informações detalhadas - a serem prestadas em até dez dias - sobre as ações do poder público em torno da Assembleia Legislativa (Alep), desde o dia 25 de abril.

O MP já ouviu 80 pessoas que foram à sede, em Curitiba, prestar depoimentos sobre os conflitos no Centro Cívico. O MP investiga os indícios de excesso do uso da força contra os manifestantes e todo o material colhido servirá de subsídio ao procedimento criminal já aberto e ao procedimento preparatório de inquérito civil. Além dos depoimentos, centenas de vídeos já chegaram ao MP.

(Com Estadão Conteúdo)

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