COMPORTAMENTO
04/05/2015 19:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Na Índia, grupo de teatro quer quebrar o silêncio sobre violência sexual

nirbhaya

Photo by Sinbad Phugra

Quando Poorna Jagannathan soube do estupro coletivo fatal que ocorreu em um ônibus em Nova Deli, na Índia, em 2012, a notícia ressoou bem de perto.

Um dos motivos é que ela morava ao lado do ponto de ônibus onde a estudante de fisioterapia de 23 anos, Jyoti Singh Pandey, subiu antes de ser brutalmente estuprada e violentada por seis homens. Ela morreu duas semanas depois.

"Entendi que – sendo uma das garotas de Nova Deli a pegar ônibus nesse ponto - o que aconteceu com ela não era algo anormal", disse Jagannathan."Poderia ter sido eu a garota."

Porém, mais do que isso, Jagannathan, que é atriz, sentiu uma sensação angustiante de responsabilidade sobre os trágicos acontecimentos daquela noite. Ela cresceu sofrendo essa violência sexual no transporte público "quase que diariamente", mas nunca tinha feito nada para deter isso. Além disso, ela sobreviveu a um abuso sexual quando criança, mas nunca tinha falado sobre o que ocorreu.

Sua vergonha, disse, a tinha mantido quieta.

"Eu senti que em parte era minha culpa o que tinha acontecido com ela no ônibus", disse Jagannathan."Porque eu não falei nada. O meu silêncio foi parte do tecido da cultura do estupro, que faz parte da cultura que cria a impunidade. Eu soube nesse momento que eu queria quebrar esse silêncio".

Do outro lado do mundo, em Montreal, Canadá, a internacionalmente aclamada dramaturga Yaël Farber estava se sentindo de forma similar, devastada pela morte de Pandey. No Facebook ela postou uma foto que acreditava ser de Pandey, juntamente com uma poderosa frase: Minha filha, minha mãe, eu mesma.

"Eu senti como se ela tivesse tocado de alguma forma um acorde dentro de nós", disse ela. "Isso é pessoal. Isto vai tocar nossas vidas."

Jagannathan encontrou a mensagem de Farber e percebeu que essa era a oportunidade de colaborar. Dez anos antes, ela tinha visto a peça testemunhal de Farber "Amajuba", em que cinco sul-africanos contam suas histórias sobre como era crescer no apartheid. “Foi a peça mais poderosa que eu já assisti", disse. Ela escreveu para Farber, pedindo que ela viesse à Índia criar um trabalho com mulheres que estavam prontas para falar sobre violência sexual.

"Ela me disse que as coisas chegaram a um ponto crítico aqui", lembrou Farber.

O resto, como dizem, é história. A mais nova peça de Faber, em forma de depoimento, “Nirbhaya”, faz sua estreia norte-americana em Nova York esta semana.

Escrita e dirigida por Farber e produzida por Jagannathan, a peça narra aquela terrível tragédia de 2012 e usa-a como catalisador para que as participantes do elenco - todas sobreviventes de violência sexual - compartilhem seus próprios testemunhos.

Farber disse que a peça tem como objetivo desafiar a apatia sobre o estupro e mobilizar as pessoas a quebrarem seus próprios silêncios.

"Nessa permuta, que é essencialmente teatral, o público torna-se responsável por sua própria verdade", disse ela. "As pessoas saem da sala transformadas com o que testemunharam."

O nome "Nirbhaya", significa "sem medo" em hindi, que foi o apelido dado a Pandey pela mídia. "As ruas se levantaram depois da morte de Jyoti", disse Farber."Queremos manter essa chama acesa."

Uma das atrizes, Sneha Jawale, nunca tinha posto os pés em um palco antes de ser escolhida para interpretar "Nirbhaya." Coberta de cicatrizes, após ter sido banhada com querosene e queimada pelo seu marido, ela serve como uma viva recordação visual da violência sexual.

"É mais do que uma peça", disse Jawale."É uma mensagem para a sociedade."

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Photo by Sinbad Phugra

Japjit Kaur, que interpreta Pandey, disse que testemunhou muitas pessoas da audiência contando suas histórias de abuso sexual pela primeira vez depois de assistirem à peça.

"Em cada cidade que estivemos até agora, nós tivemos uma resposta incrível das pessoas que participam contando o que aconteceu com elas", disse ela. " Em Edimburgo, uma senhora de 64 anos veio até mim e disse que ela foi obrigada a se casar com o homem que a estuprou e que ela nunca tinha falado sobre isso."

A atriz Priyanka Bose disse que depois do estupro e morte de Pandey ela sentiu uma urgência em compartilhar suas próprias experiências. "Existia essa necessidade dentro de mim", disse ela. "Como uma enxurrada. Eu compartilhei minha história com o meu parceiro pela primeira vez."

Farber disse que espera que a peça ajude a mudar de lugar a vergonha associada ao estupro, das vítimas para o lugar onde deveria realmente estar: com os autores dos crimes.

"O trabalho que estamos fazendo está baseado na crença de que cada indivíduo que enfrenta a sua própria verdade cria uma possibilidade de mudança e isso é a verdadeira revolução", disse ela. "Quando você fica em silêncio, aquele silêncio protege apenas um ser: o autor do crime. O custo em si mesmo é exorbitante, pois o silêncio é corrosivo. "

CULTURE PROJECT NIRBHAYA TRAILER from Culture Project on Vimeo.

"Nirbhaya" opens April 26 at the Lynn Redgrave Theater in Manhattan.



(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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