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21/04/2015 19:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O Doutrinador, anti-herói de quadrinho brasileiro, quer 'limpar' o país da corrupção

Você já se sentiu revoltad@ com pelo menos um dos inúmeros casos de desvios de verbas públicas milionárias no Brasil? Pois é. Corrupção é um problema histórico, grave e sempre atual no País.

Mas será que ele pode ser resolvido com violência?

Um caso recente de violência em manifestação contra a corrupção é o do já histórico 15 de março de 2015. Nesse dia, milhões de brasileiros foram às ruas expressar indignação com os casos de corrupção que vieram à tona na gestão petista e apoio ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Alguns dos manifestantes, entretanto, fizeram reivindicações antidemocráticas, como uma intervenção militar. Em Jundiaí (SP), efígies de Rousseff e do ex-presidente Lula foram enforcadas e penduradas numa ponte.

Há um personagem desse contexto que tem contribuído (ou não?), mesmo que de forma peculiar, com o fim da corrupção. E ele não é de carne e osso: vem das histórias em quadrinhos. Estamos falando de O Doutrinador, gibi brasileiro conhecido tanto aqui quanto na gringa, do quadrinista carioca Luciano Cunha. O personagem-título é um ex-soldado que luta contra a corrupção de maneira não muito ortodoxa, como você verá abaixo.

A obra foi criada em 2008 e conheceu o sucesso em 2013, em meio àquelas manifestações gigantescas contra o aumento da tarifa do transporte público. O Doutrinador reestreou no Facebook – e foi assim (clique na imagem para dar zoom nas legendas):

Fez o maior sucesso. Até o fechamento desta reportagem, a página desse quadrinho independente tinha quase 40 mil curtidas.

O jornal Metro chamou o Doutrinador de "versão tupiniquim" do Batman. O Vocativ, dos Estados Unidos, o chamou de "versão brasileira de Robin Hood, com gosto por vigança". E, agora, o quadrinho vai virar série na TV a cabo.

Método de "limpeza"

Ao se encontrar com um presidente do Senado corrupto, o anti-herói não foi nem um pouco gentil no trato com ele:

Alguns amigos reportaram dificuldade de leitura nesta última página, então o Doutrinador disponibilizou um arquivo maior...

Posted by O Doutrinador on Monday, May 6, 2013

Nem com a tropa de choque que impedia uma manifestação do povo:

O povo acordou!..

Posted by O Doutrinador on Monday, June 17, 2013

Durante a montanha-russa eleitoral de 2014, o Doutrinador não descansou também:

Inspirado por grandes nomes dos quadrinhos, como Jack Kirby e Frank Miller, Luciano Cunha fez de seu protagonista um anti-herói porque não gosta de personagens "certinhos e caretas". Para ele, o povo brasileiro não precisa de um herói. E não, o Doutrinador não é fascista. Pelo contrário: é um "libertário radical".

Leia abaixo a entrevista que Luciano concedeu ao Brasil Post. Corrupção e personagens de quadrinhos são alguns dos assuntos comentados nela:

Você considera o Doutrinador fascista ou libertário?

Apesar de ser bem fácil acusar o personagem de ser fascista – isso acontece desde o início –, nunca liguei muito pra esse rótulo, por achá-lo totalmente inadequado. Apesar de ser violento e acreditar num ideal nacionalista, o Doutrinador não carrega nenhuma outra bandeira marcante do fascismo, como defender um Estado e/ou partido único totalitário que controle as massas, ou uma nação superior que elimine outras e suprima liberdades. Com certeza, ele é um libertário radical, usando meios nada "sutis" para levar a cabo seus ideais. Inclusive, alguns já me disseram até que ele se aproxima mais do anarquismo...

Mas, na verdade, não acho que um personagem de quadrinhos deve ser levado tanto a sério. [O Doutrinador] é apenas um personagem de ficção que decide fazer justiça com as próprias mãos. Simples assim. Entendo que ele tem uma carga política muito forte e marcante, mas é engraçado como no Brasil nenhum personagem estrangeiro é analisado com esse viés. O Capitão América foi criado como uma resposta política. Tarzan, Arqueiro Verde, Hulk e Batman também têm ideologia. Basta que as pessoas procurem a origem desses personagens em seu contexto histórico ou em suas aventuras mais famosas. E ninguém liga pra isso. Tudo é consumido normalmente, mas os personagens brasileiros têm que se "autoexplicar". Às vezes, isso irrita os autores brasileiros. Pode perguntar a vários deles.

Por que o Doutrinador tem esse nome?

Procurava um nome forte, até usei outros. O curioso é que "Doutrinador" era o último na lista, mas quando decidi registrar o personagem na Biblioteca Nacional, todos os nomes anteriores já tinham sido usados. Então foi o que sobrou. Eu disse "Vamos com esse mesmo!". Aí criei uma página da saga só para que um [personagem] jornalista "desse o nome" a esse vigilante que aterroriza os políticos.

Por que ele é um anti-herói e não um herói?

É curioso também como nunca gostei de fazer heróis no modelo clássico de entendê-los. Tenho vários outros personagens, desde que comecei a fazer quadrinhos, ainda pré-adolescente. E todos eles eram anti-heróis. Gosto de personagens desajustados, com vários defeitos, como todo ser humano. Não gosto de personagens "certinhos e caretas".

Por que o personagem demonstra ter profunda devoção ao Brasil e é violento?

Foi uma forma natural de representar a minha revolta contra a classe política brasileira. Ele é nacionalista por estar defendendo e, na visão dele, "limpando" o País. E é violento porque sempre gostei de quadrinhos violentos [risos].

Por que ele se veste com roupas escuras e usa uma máscara?

Também nunca gostei de personagens de uniformes coloridos, colantes e capas. Criei um personagem com uma roupa simples, que qualquer cidadão brasileiro poderia usar, nada demais. O Doutrinador também é de origem humilde, é um ex-soldado, então não tinha como ele ter uma roupa extravagante [risos].

E o feedback dos leitores, como tem sido?

Sempre foi muito gratificante. Na verdade, é por causa das palavras deles, e principalmente dos jovens, que continuo fazendo o quadrinho. Às vezes, quando estou desanimado, recebo uma mensagem por inbox que faz tudo valer a pena.

Você acha que a corrupção no Brasil está em seu ápice?

Difícil dizer. Acho que, por causa da internet, o acesso à informação está mais democratizado do que nunca. E isso, naturalmente, faz toda a diferença.

Por exemplo, se não fossem os novos celulares – que são uma arma na mão do cidadão conscientizado –, não saberíamos que um juiz dirigia um carro apreendido do ex-bilionário que faliu. Com certeza sempre houve muita corrupção no Brasil, mas hoje é mais fácil saber. Então fica parecendo que vivemos num País mais corrupto e sujo, mas acho que é porque ficamos sabendo com mais facilidade das falcatruas.

Você acha que o povo brasileiro precisa de uma figura de apoio, como um herói ou anti-herói, num momento como o atual?

Não, acho que não. Essa figura de apoio, como um "salvador da pátria", é sempre maléfica para o país. Quando se tem uma figura como essa no panorama político é porque as esperanças da população se esgotaram. É sempre um sentimento arcaico, o fundo do poço. Típico de sociedades de baixa escolarização, como a nossa. Mas, apesar de tudo, acho que já passamos dessa fase. Nossa democracia vai dar exemplos de que está amadurecendo.

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