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18/04/2015 14:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Ameaça de morte, perseguição e censura: jornalistas investigam governo e viram alvo no Paraná

Montagem/iStock e Estadão Conteúdo

Jornalistas que investigam a corrupção relacionada ao governo do Paraná estão sendo alvos de ameaças de morte e de tentativa de censura. Os casos, relacionadas em maior ou menor grau ao governador Beto Richa (PSDB), foram denunciados na última semana pelo Sindicato dos Jornalistas do Paraná (Sindijor) e publicadas nos jornais Folha de S. Paulo e O Globo.

O caso mais recente envolve o produtor James Alberti, da RPC TV (afiliada da Rede Globo no Paraná). Durante a semana, de acordo com a emissora, “pessoas estranhas seguiram os passos de jornalistas” da empresa, que apuram uma denúncia contra empresários de Londrina, no Norte paranaense, sendo um deles ligado a Richa por parentesco.

A fraude de uma licitação para manutenção de carros do governo estadual implicou Luiz Abi Antoun, parente do governador, e o ex-inspetor geral de fiscalização da Receita Estadual, Marcio de Albuquerque Lima, este parceiro do Richa em competições de automobilismo. Há ainda denúncias por pedofilia no caso. Ambos os citados também constam na investigação da polícia e do Ministério Público (MP-PR) sobre fraudes na própria Receita.

Alberti deixou o Estado após tomar conhecimento, por telefone, de que uma emboscada para matá-lo estava sendo preparada, por meio de uma simulação de assalto, segundo o Sindijor. O jornalista está sob proteção policial e em paradeiro desconhecido. Na sua página nas redes sociais, o jornalista criticou recentemente a gestão do Estado, “imprudente” e “despreparada”, segundo ele.

Em nota, a RPC TV disse que trata-se de “uma evidente ação de intimidação e ameaça”, porém a emissora seguirá acompanhando as investigações, lançando mão de um rodízio de jornalistas para o tema. O MP-PR e a Polícia Federal foram informados e prometem apurar as ameaças contra o jornalista. Já o governo do Paraná, segundo a Secretaria de Segurança Pública, vai abrir uma investigação para “apurar com rigor as ameaças”.

A ameaça de morte é mais um capítulo triste para a imprensa estadual. Recentemente, jornalistas do jornal Gazeta do Povo, que pertence à RPC TV, foram pressionados a revelar suas fontes em uma série de reportagns que investigou o uso irregular de carros por policiais civis e militares – mais uma ação considerada de intimidação ao trabalho da imprensa. Em 2012, outro profissional da Gazeta teve de deixar o País por ameaças.

Em comunicado conjunto com o Sindijor, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) reprovou os acontecimentos no Paraná. Na próxima terça-feira (22), o Sindijor promete realizar uma reunião com jornalista e com representantes da sociedade civil para discutir uma série de manifestações públicas contra a perseguição a jornalistas paranaenses.

Entenda o caso

Na segunda-feira (14), o MP-PR denunciou 62 pessoas acusadas de envolvimento em corrupção na Receita Estadual de Londrina. Entre elas estão 15 funcionários da Receita Estadual, empresários, servidores públicos e contadores. Eles são acusados de praticar ao menos 70 crimes contra o erário, entre eles organização criminosa, falsidade ideológica, corrupção passiva tributária, corrupção ativa e falso testemunho.

De acordo com o MP-PR, os auditores da Receita procuravam os empresários oferecendo proteção em um eventual caso de sonegação fiscal ou fiscalização, em troca do pagamento de propina.

Em sua defesa, Beto Richa primeiramente negou ser próximo Luiz Abi Antoun, o que foi desmentido por várias reportagens da imprensa local. Oficialmente, o governador vem pregando nas últimas semanas uma investigação rigorosa de todas as irregularidades e punição dos envolvidos.

Além dos escândalos, o governo estadual passa por uma série crise financeira, a qual causou paralisações de servidores públicos no início do ano.

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