COMPORTAMENTO
06/04/2015 10:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Por que a solidão é uma crescente preocupação de saúde pública - e o que nós podemos fazer?

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Nossa época tem sido chamada de "era da solidão." Estima-se que um em cada cinco americanos sofre de solidão persistente e, apesar de nós estarmos mais conectados do que nunca, as redes sociais podem estar, de fato, exacerbando o problema.

Uma nova série de pesquisas está lançando luz sobre algumas das causas e consequências da solidão crônica, uma condição que aumenta significativamente o risco de uma série de problemas de saúde física e psicológica, que inclui doenças cardíacas e depressão.

Para uma condição que tem um enorme impacto em nossa saúde e bem-estar, a solidão tem sido relativamente negligenciada por psicólogos - mas isso está começando a mudar. Em uma seção especial da edição de março de 2015 da Revista Perspectives on Psychological Science, psicólogos analisaram algumas das potenciais causas e riscos da solidão, assim como seus possíveis tratamentos.

Embora seja verdade que quase todo mundo experimentará sentimentos de solidão em algum momento da vida, sentimentos crônicos de solidão podem se tornar uma preocupação significativa de saúde. "Muitas pessoas pensam que a solidão é um estado transitório — algo que a maioria das pessoas vivencia, mas que dura relativamente pouco" disse ao Huffington Post o Dr. David Sbarra, psicólogo da Universidade do Arizona e editor da edição especial sobre solidão. "Ao descobrirmos que algumas pessoas são cronicamente solitárias, começamos ver que o tema tem considerável importância para a saúde pública".

Aqui estão algumas das conclusões do relatório:

A solidão pode fazer parte do nosso "sistema de alerta" biológico.

Por que nós experimentamos a sensação de solidão? A psicologia evolutiva pode oferecer algumas respostas.

Em um dos estudos publicados pela revista, o psicólogo da Universidade de Chicago, John Cacioppo e seus colegas levantaram a hipótese de que o sentimento de solidão pode ter tido um valor adaptativo - tanto para os seres humanos como para os animais – porque levou à constatação de que a gente tenha se afastado da convivência social.

Como a fome e a dor, a solidão pode ser parte de um "sistema de alerta" biológico que aumenta nossas chances de sobrevivência e reprodução. O estudo sugere que a solidão proporciona a motivação para nos reconectar com outras pessoas que podem ajudar a nos proteger de predadores ou proporcionar outros benefícios de sobrevivência.

"Um dos benefícios da sociabilidade é a proteção e a assistência mútua, e estar isolado ou fora do perímetro social pode representar uma situação perigosa", escreveram os autores. "A pesquisa cumulativa sugere que o cérebro evoluiu para colocar o indivíduo, a curto prazo, no modo de autopreservação, quando ele se encontra sem companheirismo ou proteção/assistência mútua."

Sbarra concordou que olhar para a biologia evolutiva pode nos ajudar a entender por que estamos destinados a nos sentir solitários quando nos falta companhia.

"Em primeiro lugar, o modelo responde a pergunta de por que nos sentimos sozinhos e como isso pode ser muito bom para nós como motivação que promove a conexão social quando estamos isolados", disse sobre o estudo.

Solidão demais pode matar você.

Novas e alarmantes pesquisas, conduzidas por psicólogos da Universidade de Brigham e da Universidade de Utah, descobriram que o isolamento social (tanto real como perceptivo) pode ser mais letal do que a obesidade. O isolamento social e os sentimentos de solidão aumentam em 14 por cento as chances de uma pessoa morrer prematuramente — quase o dobro do risco de morte precoce da obesidade.

"Um significativo número de pesquisas tem também elucidado os caminhos psicológicos, comportamentais e biológicos, através dos quais o isolamento social e a solidão levam à piora da saúde e à diminuição da longevidade", escrevem os autores do estudo. "À luz da evidência de que o isolamento social e a solidão estão aumentando na sociedade, parece prudente incluir o isolamento social e a solidão nas listas de preocupações com a saúde pública."

Existem maneiras de quebrar o ciclo do isolamento.

Outra parte da pesquisa publicada na revista destacou possíveis formas de combater sentimentos crônicos de solidão e isolamento.

Em um diferente estudo, Cacioppo e seus colegas analisaram dados sobre os três principais tipos de tratamento para a solidão: terapia de grupo, tratamentos individuais (trabalhados com um terapeuta para melhorar as habilidades de fazer amizade ou minimizar crenças negativas que possam contribuir para a solidão) e intervenções comunitárias (eventos que focam em chegar às pessoas solitárias).

Examinando uma grande quantidade de literatura existente sobre o assunto, os pesquisadores concluíram que a linha mais promissora de tratamento para a solidão é a terapia individual que atenda os padrões de pensamentos e crenças - como a baixa autoestima ou a vergonha - que impedem uma pessoa de se conectar com outras. Eles dizem que com mais pesquisas esse tratamento poderia ser combinado com tratamentos farmacêuticos, de curta duração, com a oxitocina, hormônio conhecido por promover um comportamento pró-social.

No entanto, o estudo apontou que é necessário mais consciência sobre o crescente problema da solidão crônica antes que esses tratamentos possam ser verdadeiramente viáveis.

"Como primeiro passo, há a necessidade de maior sensibilização do público e dos profissionais de saúde sobre a solidão, que, como a dor crônica, pode se tornar uma aflição para praticamente qualquer pessoa", escrevem os autores.

O estudo observou que o governo do Reino Unido tem desenvolvido várias iniciativas para melhorar a qualidade de vida daqueles que sofrem de solidão crônica e aumentar a conscientização sobre o problema. Os autores também apontam para a campanha "Just Say Hello" ("Apenas Diga Olá", em tradução livre) da apresentadora americana Oprah e o do Dr. Sanjay Gupta, que está incentivando as pessoas nos EUA a fazerem mais conexões em suas interações diárias.

"Depois de um certo tempo, as pessoas que têm fortes laços com a família, amigos ou colegas de trabalho têm 50 por cento a mais de chances de sobreviver do que aquelas com menos conexões sociais", escreveu Gupta no site da Oprah, no ano passado. "Se nossos relacionamentos têm esse efeito sobre a nossa saúde em geral, por que não priorizar o tempo gasto com as pessoas ao nosso redor, tanto quanto o tempo que gastamos em nos exercitar e comer bem?"

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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