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01/04/2015 20:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Novo chefe de Comunicação da Câmara nega ser evangélico e promete dar mais espaço aos deputados na TV

Montagem/Agência Brasil/Reprodução/TV Câmara

Assim que eleito, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) começou a pagar as promessas de campanha. Além de passagem grátis para cônjuge de deputado, gabinetes maiores, ele também iniciou o plano de expandir a comunicação da Casa. Um dos primeiros atos foi nomear pela primeira vez um político para comandar a Secretaria de Comunicação da Câmara.

O escolhido para a missão foi o deputado Cleber Verde (PRB-MA). A primeira vista, o partido ligado à Igreja Universal chama mais atenção que o deputado. Advogado com três mandatos de deputado federal, Cleber Verde faz questão de alertar: "sou católico, o partido vai além da igreja". "Temos uma história, o vice-presidente de Lula, José Alencar, era do nosso partido", emenda. Apesar da negativa, o deputado consta como integrante da Bancada Evangélica.

Cleber sabe que só está nessa cadeira porque o partido, que faz parte da base da presidente Dilma Rousseff e tem um ministério (do Esporte, comandado por George Hilton), fez uma escolha difícil. Em vez de apoiar Arlindo Chinaglia (PT-SP), candidato do governo, apostou no peemedebista.

Até por esse histórico, a condução dele ao cargo foi mal vista. Antes mesmo de assumir o controle da Agência Câmara, Rádio Câmara, Jornal da Câmara e TV Câmara, Cleber foi o questionado por todas as frentes sobre a possibilidade de aparelhar a comunicação, de ter como missão fazer a TV Cunha e de planejar exibir conteúdo produzido pela igreja. O deputado também é encarado por alguns servidores da Casa como um espião de Cunha.

Cleber faz questão de frisar que não é nada disso. A missão, segundo ele, é aumentar a cobertura da atividade parlamentar. Além de investir na Câmara Itinerante, a programação, principalmente da TV deve sofrer uma alteração para mostrar "o quão volumosa é a carga de trabalho na Casa".

A intenção, segundo ele, é fazer com a comunicação se restrinja as atividades parlamentares. "A programação cultural é importante, mas vamos colocar os deputados em todos os espaços."

Embora negue qualquer interferência no conteúdo produzido, a programação já sente a força do presidente. Na inauguração da Câmara Itinerante, em Curitiba, a ordem para suspender a transmissão veio ao vivo. "Neste momento, nós encerramos as transmissões da TV Câmara. A partir de agora, não terá mais a cobertura da TV Câmara, disse Cunha no meio do evento.

Ao Brasil Post, Cleber Verde explicou que pretende deixar a TV Câmara mais próxima dos parlamentares. Confira a íntegra:

Brasil Post: Como o senhor vê os comentários de que a TV Câmara será aparelhada e dominada pelos evangélicos?

Cleber Verde: O PRB é um partido ligado à Igreja Universal. Eu sou católico, não sou da igreja, sou do partido. O Russomano é do partido, uns 10, 11 colegas não são da igreja. Lógico que o partido é um partido político, não é da igreja, mas as pessoas ficam misturando e acabam colocando um preconceito em relação à parlamentares de um partido como o PRB, que tem uma história. O PRB teve como vice-presidente do José Alencar, democrático.

Quais os seus planos para a comunicação?

Ampliar a divulgação da atividade parlamentar. Esse é o propósito. Daqui 30, 60 dias no máximo, vamos apresentar uma grade que possa ajustar o que já temos e dar uma ampla divulgação aos 513 deputados. A Câmara já faz um bom trabalho, estamos aproveitando esses profissionais, e os ajustes que vão ser feitos serão por meio de um diálogo.

Mas a comunicação da Casa já divulgava a atividade parlamentar?

Nós temos uma grande dificuldade de poder as pessoas perceberem a atuação parlamentar. A atuação dos deputados não é só aqui na Câmara. Quem conhece o trabalho da gente acaba se surpreendendo com o volume de trabalho que acontece aqui nas terças, quartas e quintas. O volume de trabalho maior que esse é no estado, quando você desloca, vai às bases, vai ouvir as demandas, o clamor do povo. O que vem de lá que é convertido no trabalho da gente, por isso a necessidade de fazer da comunicação da Câmara uma forma de ampliar essa divulgação e mostrar para sociedade o trabalho do parlamentar.

Como funcionará essa expansão?

Temos uma parceria com várias assembleias e estamos ampliando essa parceria para que possamos diminuir os custos. Hoje a TV Câmara está presente em 11 estados e nossa intenção é chegar em todos os estados. Temos claro a ideia de levar para todos os municípios mais de 100 mil habitantes essa parceria com a Câmara de Vereadores. É algo que já funciona e é uma forma de estarmos presentes em todas as cidades brasileiras.

Há um temor de que as matérias passem por um crivo político. Vai ter alguma interferência no conteúdo?

O conteúdo hoje é extenso, com qualidade. Nós não fizemos nenhuma alteração, não modificamos em nada o que é feito lá, pelo contrário. Queremos dar condições para que seja feito um trabalho ainda mais dedicado, que já é feito por funcionários de alto nível. Queremos dar um suporte maior.

O que muda com um político no lugar de um servidor?

Dá um caráter de igualdade diálogo com todos os setores, em especial com a Mesa Diretora. Creio que cada parlamentar mesmo não sendo da área de comunicação acaba, pela experiência de política, de campanha, acaba sabendo o que é melhor, que possa estar veiculado, interessado na área política. As demandas serão dialogadas com o presidente e o diretor geral da Casa para que tenhamos condições apropriadas de trabalho.

Tem uma história de que a Câmara exibirá material produzido pela Igreja Universal. Essa história procede?

Não procede até porque a Casa é uma Casa plural, laica em todos os sentidos. Não há nenhum temor, recebi as críticas com muita tranquilidade. São frutos da imaginação de cada um que tem o direito de pensar o que querem. Tenho convicção de que vamos fazer um trabalho com muito compromisso. São 513 deputados, eles merecem e precisam ter o trabalho bem divulgado.

Se algum deputado apresentar uma proposta que choca com as sua convicções, como legalização do aborto, ela terá espaço na TV Câmara?

Claro, a TV sempre deu oportunidade de debate. Inclusive vamos montar um gabinete para receber os parlamentares. Vou receber todos que queiram dar sua contribuição, que queiram apresentar um projeto. Vamos avaliar e dar a cobertura devida. Não só esse projeto, mas qualquer outro que mereça atenção especial será dado. Sem olhar e sem distinguir qualquer que seja o parlamentar diante sua posição ideológica ou partidária.

Por que você foi o escolhido para este cargo?

Esta Casa é uma Casa de acordo, de compromisso e o PRB em um dado momento pela composição que fez com o presidente manifestou… Era proposta de campanha do Eduardo Cunha criar a Secretaria de Comunicação com a perspectiva de dar esse caráter de formalização onde um parlamentar pudesse fazer a sua gestão. Já tinha isso claro, como promessa de campanha dele. E o PRB externou o desejo de ter um parlamentar do seu grupo nesta secretaria. E o partido, por eu ser o decano do partido, achou que podíamos ter condições de assumir essa responsabilidade. Vejo como um grande compromisso. Vou dar o meu melhor.