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01/04/2015 10:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Coma alcoólico foi a causa da morte do estudante Humberto Moura Fonseca em festa de alunos da Unesp de Bauru

Montagem/Reprodução Facebook

A causa da morte do estudante Humberto Moura Fonseca, de 23 anos, foi coma alcoólico, segundo revelou o laudo do exame toxicológico, divulgado nesta terça-feira (31) pela Polícia Civil de Bauru, no interior de São Paulo. Fonseca morreu no dia 28 de fevereiro, após de uma competição para ver quem conseguia beber mais – conhecida como ‘Maratoma’ - prática comum no circuito trotista.

De acordo com o laudo, Fonseca tinha 4,6 gramas de álcool por litro de sangue. Segundo a Sociedade Brasileira de Toxicologia, a partir de 3 gramas de álcool por litro de sangue a pessoa já pode ter confusão mental e perda da consciência. Como agravante, o estudante da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) era cardiopata, conforme revelou o Instituto Médico Legal (IML) há algumas semanas.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, o delegado Kleber Granja, que preside o inquérito sobre o caso, afirmou que o exame servirá para embasar o inquérito, que corre em segredo de Justiça ainda não foi concluído. Outro inquérito, civil, tramita no Ministério Público de São Paulo (MP-SP). Há ainda uma sindicância aberta pela Unesp para punir os estudantes infratores, que também não foi concluída.

A festa - que não tinha alvará - em que Fonseca morreu após ingerir cerca de 30 doses de vodca foi organizada por estudantes da Unesp de Bauru e por repúblicas da região. O estudante entrou em coma alcoólico, demorou a ser socorrido pela ausência de uma equipe preparada para o socorro no evento, e acabou morrendo pouco depois. Além dele, outras cinco pessoas também passaram mal, três delas também entraram em coma alcoólico, foram internadas em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) de hospitais de Bauru e receberam alta alguns dias depois.

De acordo com a polícia, 14 pessoas estão sendo investigadas, entre elas dois estudantes da Unesp que se apresentaram como organizadores – eles chegaram a ser presos, mas foram soltos e respondem pelos crimes de homicídio com dolo eventual e lesões corporais, também com dolo eventual. Conforme informou o Brasil Post, ambos tinham ligações com a Associação Atlética da Unesp de Baurufato este negado pela atual direção da entidade, que também disse não ter nenhum envolvimento com a festa.

Festa violou regras da universidade

Os pais de Gabriela Alves Correa, de 23 anos, estudante de Relações-públicas da Unesp de Bauru, divulgaram uma carta no dia 5 de março na qual revelam que os ingressos para a festa “open bar”, realizada no dia 28 de fevereiro, foram vendidos dentro do campus da faculdade, o que é proibido. Na carta, os pais da estudante, que assinam apenas com iniciais, afirmam que “a universidade teve seu nome envolvido e, até mesmo, os convites foram vendidos em suas dependências” e pedem que a escola reforce a fiscalização contra esse tipo de evento.

Um dia antes, a enfermeira e professora universitária Josely Pinto Moura, mãe de Humberto Fonseca, sugeriu uma grande campanha para conscientizar a comunidade acadêmica sobre os perigos do álcool. “As universidades, os pais dos estudantes, o Judiciário, enfim toda a sociedade, deveriam fazer uma grande campanha para conscientizar os estudantes sobre o perigo e os riscos dessas festas e do abuso do álcool”, afirmou Josely. “Isso não vai trazer meu filho de volta, mas pode evitar que muitas mães percam os seus, como eu perdi”, completou.

Para presidente da CPI, há outros envolvidos

Em entrevista ao Brasil Post na época da morte de Fonseca, o então deputado estadual Adriano Diogo (PT), que presidiu a CPI dos Trotes nas Universidades de São Paulo, lamentou não poder incluir no relatório final uma apuração sobre a morte de Humberto Fonseca. “Gostaria de poder fazer uma audiência lá em Bauru para podermos apurar melhor o que houve lá”, comentou.

Na opinião dele, a morte do estudante não foge ao ‘modus operanti’ já visto em outras universidades, com festas abusivas e realizadas “com o conhecimento da direção da faculdade”, mesmo quando ocorreu fora do campus. “Aquilo que aconteceu é do circuito universitário. A direção da Unesp e corresponsável por aquela barbárie. Todo mundo em Bauru conhece essas festas e o que acontece nelas”, disse Diogo.

Ele ainda afirmou acreditar categoricamente que estudantes da Associação Atlética devam estar envolvidos.

“As Atléticas patrocinam atividades do crime. Não são dois caras, tem toda uma estrutura. Tem no Estado todo, tem o incentivo a práticas como o ‘ladies first’, na qual as moças não pagam se forem com trajes sumários. E tem as fábricas de bebidas, veja que nessa festa tinha abadá de uma marca de cerveja. Há uma indústria empreendedora por trás, as Atléticas viram sócias e todo mundo ganha dinheiro com isso”, concluiu.

(Com Estadão Conteúdo)

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