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31/03/2015 11:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

#Germanwings: Especialistas alertam para o aumento do preconceito com doenças da mente após tragédia na França

Montagem/Reuters e iStock

Não foi a depressão ou qualquer distúrbio mental a causa do acidente que matou 150 pessoas na semana passada, nos Alpes franceses, com a queda do voo 4U9525 da Germanwings. É a opinião maciça dos especialistas ouvidos pelo Brasil Post, que vêem um ‘desserviço’ nos apontamentos direcionados ao copiloto Andreas Lubitz. Não há aqui defesa de um possível assassinato em massa. O que há é um temor das repercussões para quem sofre de doenças da mente.

“O copiloto poderia ter uma série de problemas de saúde, uma crise hipertensiva, muitas coisas, então é preciso tratar esse assunto para evitar um aumento do estigma e do preconceito”, analisou o médico Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). “De 100% dos crimes cometidos no mundo, 95% são cometidos por pessoas sem transtornos mentais. O único doente mental perigoso é aquele sem tratamento”.

Até o momento, o que se sabe é que foram encontrados documentos, remédios e um atestado médico que apontam para problemas de saúde de Lubitz, o qual já teria um passado no qual sofreu de depressão e da chamada Sindrome de Burnout (esgotamento mental). De acordo com os promotores franceses, os diálogos da caixa-preta mostram que Lubitz se trancou na cabine do Airbus A320 e fez uma descida de oito minutos, de maneira deliberada.

Seguindo esse raciocínio, Lubitz é um assassino frio e cruel? Para a psicóloga da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR), Giliane Schmitz, mestranda em análise de comportamento pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e filiada à Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), isso está longe da realidade. “Não podemos usar a depressão como causa porque isso seria generalizar, criar a ideia de que todo depressivo é perigoso”, disse.

A especialista em comportamento analisou que a atual cobertura midiática do acidente aéreo na França atrapalha muito mais do que ajuda na desmistificação das doenças mentais, seja no Brasil ou no mundo. De acordo com Giliane, toda a vez que uma disfunção é usada para justificar um ato é um equívoco, já que a depressão é diferente de pessoa para pessoa. “Com acompanhamento, nenhuma pessoa com depressão oferece perigo”, completou.

Ela não está só nessa avaliação. “Toda pessoa precisa passar por um controle médico, isso em todas as áreas, incluindo a avaliação psiquiátrica e psicológica. Se você quiser investigar exclusivamente a mente, sem levar em conta a saúde como um todo, é preconceituoso. Estranho como esse acidente tem sido noticiado, como se todo doente mental fosse perigoso. O que não se fala é que, no Brasil, 12 mil se suicidam todos os anos. É gravíssimo e temos que discutir esses assuntos”, afirmou Silva.

Em artigo publicado na Slate, a professora assistente Anne Skomorowsky, da área de psiquiatria da Universidade de Colúmbia (EUA), alertou que “usar a palavra ‘depressão’ para descrever um comportamento inexplicável ou violento nos remete a dois sinais falsos: primeiro, que a sociedade não tem nenhuma obrigação com a nossa felicidade – porque a angústia é um problema médico – e segundo, que uma pessoa depressiva corre o risco de cometer atos deploráveis”.

Lições deixadas pela tragédia

Andreas Lubitz foi descrito como alguém como “atormentado” por uma ex-namorada. Mesmo partindo do pressuposto de que isso seja verdade, a companhia aérea alemã Lufthansa – dona da Germanwings – garantiu na semana passada que o copiloto possuía 100% de condições para estar na tripulação daquele voo. Os exames conduzidos pela empresa, somados aos detalhes do avião (a caixa-preta com esses dados não foi localizada ainda), ajudarão a dar uma ideia do perfil de Lubitz e de como, detalhadamente, o voo que saiu de Barcelona com destino a Düsseldorf caiu.

Naturalmente, a tragédia já causa mudanças no mundo aéreo, com empresas de vários países – incluindo o Brasil – adotando novos procedimentos que impeçam que piloto ou copiloto fiquem sozinhos dentro da cabine do avião. Para os especialistas que lidam com a psique humana, a luta contra o preconceito continua, porém o acidente mostra que é preciso debater não só as doenças da mente, mas também como prevení-las e tratá-las, quando for o caso.

“A cada três segundo uma pessoa tenta o suicídio, e a cada 40 segundos uma pessoa se suicida no mundo, e nada é feito? Eu acho que a lição que podemos tirar é que não podemos desprezar o que já sabemos e deixar passar. Você já viu uma campanha sobre o assunto? Há um desprezo e um preconceito grande. Não precisamos de preconceito, precisamos de políticas de saúde pública, com acesso a tratamento. E isso, hoje no Brasil, é falho”, disse Silva.

Na opinião de Giliane, as questões mentais são delicadas e o estresse vivido no mundo contemporâneo não é exclusividade dos trabalhadores da aviação civil.

“As pessoas hoje estão muito ligadas ao trabalho. Elas querem muito ser bem sucedidas e isso causa estresse. Um piloto vive em um ambiente assim, de cobranças, já que ele é responsável por muitas outras pessoas. Esse acidente mostra que precisamos pensar mais na saúde do trabalhador. Qualquer doença mental não foi a culpada por essa tragédia. Pode ter contribuído, mas não foi a causa. E como se evita? Tendo um acompanhamento mais próximo”, explicou a psicóloga.

“Não dá para chamar o profissional da saúde para ‘apagar fogo’, quando acontece um problema. Quando ele já aconteceu, há pouco a ser feito. Temos é que prevenir, implantando políticas de acompanhamento e favoráveis à saúde do trabalhador”, finalizou Giliane.

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