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30/03/2015 13:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Apontada como uma das mais violentas de SP, Unesp de Botucatu ainda registra trote da Klu Klux Klan e atos misóginos

Montagem/Reprodução Facebook

Citada textualmente como uma das violentas quando o assunto são os trotes no ensino superior de São Paulo, a Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) continua sendo palco de violações de direitos humanos. A notícia mais recente dá conta de que estudantes do sexto ano se vestiram com trajes que lembram a Klu Klux Klan para dar um trote em calouros.

Fotos deste trote, que aconteceu no início do mês, foram publicadas em uma página do Facebook que prega a denúncia e o combate aos trotes universitários. Nas imagens, os calouros foram obrigados a ficar ajoelhados. A ideia seria "dar um susto" nos novos alunos.

Todos os anos surgem relatos de violências dentro das faculdades de medicina. É urgente repensar o currículo desses...

Posted by Rede de Proteção às vítimas de violências nas universidades on Domingo, 29 de março de 2015

Um pouco mais da festa KKK de uma das faculdades de medicina de São Paulo (pública, diga-se de passagem).

Posted by Rede de Proteção às vítimas de violências nas universidades on Domingo, 29 de março de 2015

Para quem não conhece, a organização Klu Klux Klan, também conhecida como KKK, surgiu nos Estados Unidos ainda no século 19 e, de lá para cá, teve três encarnações, todas criadas para pregar a supremacia branca, lançando mão do racismo, dos conceitos nazistas e práticas de violência armada, notadamente em Estados do sul do país. Em Botucatu, as roupas brancas da KKK foram trocadas por trajes negros.

O uso de roupas da KKK não é novo em trotes universitários. Em 2003, o jornal Folha de S. Paulo publicou uma nota em que dizia que estudantes da Universidade de São Paulo (USP) já lançavam mão do mesmo expediente na recepção de calouros. Veteranos da Veterinária da USP vestidos assim já foram denunciados por obrigarem calouros a tomarem banho com um líquido retirado do estômago de bois, comer grama e rolar em um misto de lama e estrume, vestidos somente com roupas íntimas.

A Unesp de Botucatu foi uma das citadas textualmente no relatório final da CPI dos Trotes Universitários, realizada entre dezembro de 2014 e março deste ano na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). O presidente desta comissão, o então deputado Adriano Diogo (PT), chamou de “loucura” os relatos que envolveram a instituição do interior paulista.

“(É preocupante) a situação da mulher nessas faculdades como a Unesp de Botucatu, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Elas ficam tão segregadas que acontece tanta coisa, talvez tivesse de haver uma CPI específica para as faculdades de medicina. É uma loucura. O Dr. Lotufo (João Paulo Becker Lotufo, que apresentou uma pesquisa na CPI) veio e disse que o filho foi estudar em Botucatu e comentou: ‘tenho medo de perder o menino lá’”, disse Diogo ao Brasil Post.

Alunos da instituição de Botucatu fizeram relatos assustadores aos deputados estaduais da CPI. Entre os crimes e trotes descritos estão denúncias de estupros, a existência da ‘escola do sexo’, para onde meninas são levadas e obrigadas a simular sexo oral, e de outros incidentes cruéis, como os jovens que são obrigados a cavar buracos para serem enterrados e terem de beber.

A reportagem do Brasil Post entrou em contato com a assessoria de imprensa da Unesp de Botucatu, que ficou de enviar um posicionamento sobre o caso, o que só aconteceu no fim da tarde desta segunda-feira.

NOTA OFICIAL SOBRE FESTA REALIZADA DIA 5 DE MARÇO

"A Faculdade de Medicina da Unesp, câmpus de Botucatu, publicará, o mais rapidamente possível, Portaria que instaura Comissão de Apuração Preliminar dos fatos ocorridos dia 5 de março em Botucatu. A Comissão responsável pela Apuração deverá levantar informações, confrontando sua veracidade, obtendo nomes, datas, horários, fiscalizando a existência de câmeras, fotos e requerendo providências que se façam necessárias e que possam resultar em provas substanciais. Cabe à Comissão de Apuração Preliminar, na conclusão de seus trabalhos, relatar o apurado e verificar se houve alguma infração ao Regimento Geral da Unesp. Nesse caso, será aberta Sindicância, que pode aplicar as sanções previstas no artigo 162 do mencionado Regimento.

O Regimento Geral da Unesp está disponível em http://www.unesp.br/portal#!/secgeral

Mais cedo, ao jornal O Estado de S. Paulo, a instituição disse não ter recebido nenhuma denúncia até o fim da manhã, mas prometeu instaurar uma sindicância para apurar o caso.

O presidente da Associação Atlética Acadêmica Carlos Henrique Sampaio de Almeida, que organiza competições e festas dos alunos de Medicina da Unesp de Botucatu, também foi procurado pela reportagem, mas disse que não poderia falar na manhã desta segunda-feira (30). O Centro Acadêmico da faculdade também não se pronunciou sobre o assunto.

Apologia ao estupro segue firme, denuncia coletivo

Em entrevista à Rede Brasil Atual, a estudante Marina Barbosa, da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu e integrante do Coletivo Genis, afirmou que a apologia ao estupro e a misoginia seguem sendo registradas na instituição, mesmo depois da CPI que aconteceu na Alesp. “A maioria das letras (da bateria) é bastante machista, pornográficas, obscenas ou homofóbicas (...). Eles ofendem as meninas das outras faculdades, falam que vão estuprar as meninas das outras faculdades”, comentou Marina.

O Coletivo Genis já fez outras denúncias no ano passado. Trotes como a 'mastiguinha' – onde o primeiro aluno de uma fila mastiga um determinado alimento, cospe, e o outro calouro é obrigado a remastigar o cuspe da pessoa anterior a ele na fila, e o último aluno geralmente engole o cuspe da fila inteira – e o ‘pascu’ – no qual calouros têm pasta de dente inserida no ânus por veteranos – seguem acontecendo.

Gratidão ao pessoal da UNESP de Marília."Carta de repúdio aos estupros, opressões às mulheres e aos trotes na UNESP de...

Posted by Coletivo Genis on Sexta, 25 de abril de 2014

Ainda segundo o Genis, em 2013 um estudante foi marcado como gado, com um ferro quente, em uma festa da faculdade. Além disso, o coletivo feminista disse ter conhecimento de pelo menos quatro estupros que aconteceram recentemente, envolvendo alunos e alunas da universidade.

Carta aberta OFICIAL sobre os recentes acontecimentos: O Coletivo Feminista Genis, da UNESP, do campus Botucatu, em...

Posted by Coletivo Genis on Terça, 29 de abril de 2014

Em abril do ano passado, a vice-reitora Marilza Vieira Cunha Rudge divulgou uma nota de repúdio aos trotes e abusos sexuais na Unesp.

“O estupro é considerado um dos crimes mais violentos, estando na categoria de crime hediondo. É preciso levar em conta que, além do abuso físico, existe também um abuso psicológico e moral. Apesar das leis, muitas vezes os estupradores saem impunes no Brasil, e a vítima sofre tanto na hora do crime quanto durante o processo criminal. Reagir e denunciar são formas para que estuprador não fique impune”, escreveu.

Como se vê, de acordo com os alunos que vivem o dia a dia na universidade, pouco mudou até agora.

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