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28/03/2015 09:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Nigerianos vão às urnas neste sábado. Veja por que você precisa acompanhar este pleito

- via Getty Images
Women show their new electoral cards while queuing at a accreditation center in Abuja on March 28, 2015. After weeks of delays over an Islamic insurgency, Nigerians head to the polls on March 28 to elect a president for Africa's biggest economy. AFP PHOTO / STRINGER (Photo credit should read -/AFP/Getty Images)

Neste sábado (28), a nação mais populosa da África vai às urnas. Ao todo, 14 candidatos disputam a presidência da Nigéria, nação que abriga 173 milhões de habitantes e que, mais do que nunca, convive com as ameaças do grupo extremista Boko Haram.

Por causa do grupo extremista, aliás, o pleito que estava originalmente marcado para o dia 21 de fevereiro, foi adiado em seis semanas.

Esta é, segundo estudiosos, a primeira eleição em 16 anos em que a oposição tem uma chance real de vitória desde o fim do período militar no país, em 1999. Goodluck Jonathan, o atual presidente, e Mohammadu Buhari, ex-general muçulmano que já tentou se eleger três vezes, são os candidatos com maiores chances de conquistar a presidência.

Cerca de 68,8 milhões de nigerianos vão às urnas para as eleições presidenciais e legislativas, enquanto os governadores dos estados e os parlamentos locais serão escolhidos em 11 de abril.

A lei nigeriana prevê que, para ganhar as eleições, além de 50% dos votos mais um, o candidato precisa conquistar pelo menos 25% dos votos em dois terços dos estados do país. Se esses requisitos não forem cumpridos, haverá segundo turno. A posse do novo presidente está marcada para o dia 29 de maio.

Veja abaixo alguns motivos pelos quais você deve acompanhar esta eleição.

1. A Nigéria é importante para o Brasil

Os dois países mantêm um relacionamento “tradicional e diversificado” desde a independência nigeriana, em 1960, segundo o Itamaraty. A Nigéria sempre figura entre os dez principais parceiros comerciais do país e é, de longe, nosso principal parceiro no continente africano.

De 2002 até 2012, o fluxo comercial entre os dois países passou de US$ 1,6 bilhão para US$ 9 bilhões. O principal produto importado do Brasil pela Nigéria são os derivados do petróleo. Já para o país africano, exportamos açúcar, arroz e etanol, principalmente.

2. É a primeira vez que uma mulher se candidata ao cargo

Good morning, dear friends. 6 weeks have turned into only 48 hrs. If you have a PVC, please, PLEASE come out & vote. http://ow.ly/i/a6cgX

Posted by Oluremi Sonaiya on Miércoles, 25 de marzo de 2015


Oluremi Sonaiya tem 60 anos e é a primeira mulher a se candidatar ao cargo de presidente da Nigéria. Apenas 8% dos representantes na Assembleia Nacional da maior democracia africana são mulheres. Na África do Sul e em Ruanda a proporção é de 42% e 50%, respectivamente.

Oluremi, professora de Linguística Apliacada e Francês, é candidata pelo partido Kowa e, embora tenha chances remotas de ser eleita, deseja inspirar maior participação política das mulheres na sociedade. Ela também tem várias propostas ligadas à área da educação e na redistribuição de recursos públicos.

“Eu espero que através da minha experiência, várias pessoas sejam estimuladas e inspiradas a entrarem para a política”, disse ela ao The Independent.

3. Os resultados afetam diretamente o Boko Haram

A Nigéria vive atualmente uma grande crise de segurança, ligada principalmente ao grupo extremista Boko Haram. Conhecidos por seus atos de brutalidade, especialmente contra civis, de um ano para cá, o grupo sequestrou mais de 300 meninas de uma escola em Chibok, matou cerca de 2.000 pessoas em Baga, no mais mortífero ataque de sua história e, nos últimos dias sequestrou cerca de 500 mulheres e crianças da cidade de Damasak.

Atualmente, tropas da Nigéria, do Chade e do Níger tentam combater os insurgentes no nordeste da Nigéria, onde o Boko Haram deseja implementar um estado islâmico na região.

A campanha anti-Boko Haram vai ser diretamente influenciada por quem foi eleito. Se Goodluck Jonathan permanecer no cargo, provavelmente será com os votos da maioria cristã, que vive no sul do país. De acordo com o Washington Post, isso pode fazer com que ele rapidamente perca interesse no combate ao grupo, que atua no nordeste do país, de maioria muçulmana. Críticos dizem, inclusive, que ele só intensificou a luta contra o grupo para ganhar projeção eleitoral.

Caso Buhari se eleja, a campanha contra o Boko Haram pode ser mais intensa, pois ele conta com maior apoio entre as camadas muçulmanas da população, concentradas na região norte do país. No entanto, ainda assim, ele terá que lidar com um Exército com “falhas sistêmicas, incluindo um treinamento pobre”.

O fato é que o grupo, que recentemente jurou lealdade ao Estado Islâmico, vai ser um grande desafio para qualquer um que seja eleito.

4. O que acontece na Nigéria NÃO fica na Nigéria

Em caso de maior instabilidade política no país, a economia de todo o continente – e a do Brasil também – poderá ser severamente afetada. A Nigéria disputa com a África do Sul o posto de maior economia africana e em um cenário de ainda mais instabilidade, as consequências podem se alastrar para o continente inteiro e, posteriormente, para outros países.

Vale lembrar que a Nigéria é o maior produtor de petróleo do continente, embora a atividade venha perdendo força e rentabilidade ao longo dos anos.

5. O pleito vai ser um grande desafio de logística e segurança

Com a ação do Boko Haram no nordeste do país, pelo menos um milhão de pessoas foi deslocada - a maioria foi para outros estados nigerianos, e algumas cruzaram as fronteiras rumo aos Camarões, ao Níger e ao Chade.

Isso significa que parte importante do eleitorado (especialmente para a oposição) pode não conseguir votar. Isso porque não há sistema que permita o voto dos nigerianos que se deslocaram internamente ou se refugiaram em outro país.

Segundo o Ministério do Interior, o presidente determinou o fechamento das fronteiras marítimas e terrestres até sábado “para permitir o desenrolar pacífico das eleições”.

Nnamdi Obasi, especialista do Centro de Reflexão International Crisis Group, considera que os combatentes do Boko Haram “talvez não sejam capazes de tomar novos territórios, mas podem enviar suicidas para locais públicos, como as assembleias de voto”.

Há ainda o temor da violência política pós-eleitoral, depois das presidenciais de 2011 terem custado a vida a cerca de 1.000 nigerianos. Várias igrejas também foram queimadas na ocasião.

As Nações Unidas avisaram que será responsabilizado quem contestar os resultados eleitorais pela violência.