ENTRETENIMENTO
23/03/2015 11:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Madonna não denunciou seu estupro pelo mesmo motivo de tantas outras vítimas

Getty Images

Durante uma entrevista, no dia 11 de março, ao "The Howard Stern Show", Madonna resumiu exatamente por que tantas pessoas não relatam suas agressões sexuais.

A estrela do pop, de 56 anos, conversou com Stern sobre seu novo álbum, "Rebel Heart" ("Coração Rebelde", em tradução livre), e sobre a experiência de ter se mudado para Nova York, no final dos anos 70. Durante esse período, ela disse que foi abusada sexualmente por um estranho com uma faca. "Eu fui estuprada. O meu primeiro ano morando em Nova York foi uma loucura", disse Madonna a Stern.

A cantora falou sobre o crime violento pela primeira vez em um ensaio na Harpers Bazaar, em outubro de 2013. "Nova York não foi tudo o que eu pensei que seria. Ela não me recebeu de braços abertos", escreveu ela.

"No primeiro ano, eu fui atacada à mão armada. Eu fui estuprada no telhado de um edifício e arrastada até lá com uma faca nas minhas costas. E meu apartamento foi arrombado umas três vezes".

Ela também explicou a Stern porque nunca denunciou o incidente à polícia ou tentou apresentar queixa. "Você já foi violentada?",disse ela. "Não vale a pena. É muita humilhação."

Em uma frase, Madonna chegou ao ponto central de por que o estupro é um dos crimes menos denunciados nos Estados Unidos. De acordo com a RAINN (sigla em inglês da Rede Nacional contra Estupro, Abuso e Incesto), cerca de 68 % dos estupros nunca são denunciados. Provavelmente, parte desta tendência de não notificação é por causa do estigma, a atenção negativa e o trauma de novo que muitas vítimas de agressão sexual enfrentam durante o relato. E, no fim das contas, apenas dois de cada 100 estupradores são presos.

Não é difícil imaginar porque tantos sobreviventes de violência sexual esperam anos- e até mesmo décadas - para expor as suas histórias. Uma vez que a vítima relata a agressão sexual, ele ou ela passa por um exame médico invasivo, para reunir evidências físicas da agressão, se o ataque aconteceu nos últimos cinco dias, divulga detalhes traumáticos sobre o incidente e sua vida pessoal, reconta os detalhes da agressão durante o julgamento (se acontecer), e enfrenta a possibilidade de ser criticado/a pela mídia, por seus colegas e/ou instituição de ensino superior.

Homens e mulheres que foram vítimas de violência sexual também enfrentam a pressão de serem a "vítima perfeita", de que suas narrativas se encaixem no que pode ser convencionalmente considerado uma história de estupro "aceitável". Ficar desmembrando sua experiência de agressão também pode contribuir para a "humilhação" mencionada por Madonna.

Emma Sulkowicz carrega um colchão, com a ajuda de três estranhos que conheceu alguns momentos antes, em protesto contra a falta de ação da sua universidade depois dela ter relatado ter sido estuprada durante seu segundo ano

"Se você não liga imediatamente para o 911 não significa que você não foi estuprada," disse a ativista Emma Sulkowicz ao site Mic, em fevereiro. “As pessoas lidam com o trauma de formas diferentes, dependendo de como fomos criados, da forma como vemos a nós mesmos e as diferentes maneiras que cada um lida com as crises."

Infelizmente, olhando a maneira que mulheres como Sulkowicz e muitas das outras supostas vítimas de Bill Cosby foram criticadas pelo público durante o ano passado, muita coisa não mudou desde que Madonna escolheu não relatar seu estupro décadas atrás.

É hora de mudar isso.

Precisa de ajuda? Nos EUA, conheça a linha de Abuso Sexual Nacional operada pela RAINN. Para mais informações, visite o website do Centro Nacional de Violência Sexual.

Aqui no Brasil, você pode usar a Linha 180 para fazer uma denúncia e pedir ajuda a qualquer tipo de violência contra a mulher. Para mais informações, entre no site oficial e entenda como funciona o sistema de proteção à mulher.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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